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Atualizado às: 30 de maio, 2007 - 08h09 GMT (05h09 Brasília)
 
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Vão todos para o inferno!
 
Ivan Lessa
Antes de me aprofundar em meu tema de hoje: é Inferno, com maiúscula, ou inferno, com minúscula? Eu acho que deveria ser em letras maiúsculas. Para intimidar mais as pessoas. Dar um toque de realidade. Ou, pelo menos, uma boa sacudida nelas. Feito as ilustrações do Gustavo Doré para o Dante.

Mudo de linha, depois de me benzer e fazer figa.

Vinha eu hoje no metrô habitual, sentadão, lendo meu jornal de esquerda, que eu não sou besta. Li na diagonal aqui e ali. Ou seja, umas poucas linhas de cada notícia ou artigo. Nada no mundo, nem mesmo A Divina Comédia, de Dante, merece uma leitura integral.

Ler é cortar palavras, parafraseando nosso bom Drummond, que hoje foi devidamente diagonalizado em bronze e posto sentadinho num banco da praia de Copacabana, de costas para o mar, conforme cabe aos grandes poetas mas não aos cronistas sociais cariocas.

Lia no metrô meu jornal, ia dizendo eu, antes de tentar driblar quem me lê e evitar minha sumária diagonalização, já que na Net, então, diagonaliza-se às pamparras.

Daí então, além de uma súbita vontade de escrever mal e alienar todo mundo, daí então, dizia eu e agora repito, só para chatear ainda mais quem me diagonaliza, daí então – há! -- passei a prestar um pouco mais de atenção nos meus companheiros de vagão, que estava quase cheio.

Com todos os demônios!

(Puxa, como estou exclamativo hoje. Velhice. Triste, aborrecida, gritante velhice.) Meus companheiros de vagão de metrô, da linha District, no trecho entre Gloucester Road, onde pego o bruto, e Temple, onde o deixo, estavam entretidos no que costumam se entreter os passageiros do trem subterrâneo.

Lendo seus jornais, fazendo suas palavras cruzadas, tentando completar um sudoko (já chegou aí? Não tem nada a ver com sushi. Coisa de japonês para enlouquecer o resto do mundo), consultando os mapas em busca da melhor maneira de saltar na estação errada e se perder completamente nesta Londres que já viu melhores dias, e outros olhando para o nada, com aquela expressão vazia que a vida merece, quando notei, depois de apertar os olhos, que a maior parte dos presentes apresentava, com uma certa modéstia, pequenos mas elegantes chifrinhos a lhes enfeitar a testa.

“Cabrões!”, exclamei em minha fase não só exclamativa como também desaforada. Não. Não eram os cornos do vasto cordão dos passados para trás.

Constituíam (achavam que eu ia repetir “eram”, é? Aqui procêis, ó!) sinais inegáveis daqueles condenados aos infernos. Ou então tratava-se (de jeito nenhum: nem “eram” nem “constituíam”) de ilusão de ótica, devido à leitura ciscada da notícia na página 35 do “Guardian, somada a uma de minhas muitas alucinações comuns à terceira idade que resolvi assumir de uns meses para cá,”.

Olha a notícia!

É que Richard Turnbull, diretor do colégio, chamemo-lo assim, de Wycliffe Hall, na Universidade de Oxford, em pronunciamento recente afirmou que 95% dos cidadãos britânicos já estão condenados a passarem a Eternidade (essa é maiúscula) nos íngremes labirintos de Satã.

É, vão todos para o inferno, se me é permitido citar parte do título de uma canção do Roberto Carlos, gravada inclusive por Nara Leão, dando título a um CD, que o “Rei” (aspas nele!), na moita conseguiu censurar: do Brasil à terra do Sudoko, o Japão. Por que tantos britânicos assim irão para o Inferno (eu estava distraído algumas linhas acima, quando digitei “inferno”)?

Porque 95% de todos os britânicos – que não sejam cristãos, e isso é válido para estrangeiros – não estão a par como deveriam estar a par dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Wycliffe Hall sempre teve a reputação de ser um colégio abertamente evangélico, antes de Turnbull (Vira Touro, em tradução escrava) chegar, há dois anos. Agora, perdeu de vez as estribeiras religio-acadêmicas e virou notícia de página 35 de jornal esquerdinha.

Com todos os demônios! exclamo eu em voz alta (os mais velhos têm direito a certos desmandos) fechando meu jornal e saltando em minha estação. Temple, conforme já disse. Que quer dizer Templo. Mas em outro sentido. É que… Ah, deixa pra lá…

 
 
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