http://www.bbcbrasil.com

31 de maio, 2007 - 11h16 GMT (08h16 Brasília)

Carolina Glycerio
Do Rio de Janeiro

'Tenho orgulho de ser quase 100% africana'

A composição genética de Sandra de Sá é 96,7% africana, de acordo com um estudo do DNA da cantora feito a pedido da BBC Brasil como parte do projeto Raízes Afro-brasileiras.

O projeto testou o DNA em busca de informações sobre as origens de outros oito negros famosos brasileiros: Milton Nascimento, Djavan, Seu Jorge, Daiane dos Santos, Obina, Ildi Silva, Frei David e Neguinho da Beija-Flor.

"Acho que isso explica um monte coisa dentro de mim. Estou muito feliz!", reagiu a cantora, ao saber o resultado do teste, que também indicou que ela é 2,1% européia e 1,1% ameríndia.

VejaAssista à entrevista com Sandra de Sá

Emocionada, a artista foi ficando cada vez mais entusiasmada à medida que ouvia as conclusões do exame feito pela equipe do geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena sobre seus ancestrais por parte de mãe e pai - ambos da África.

De acordo com o relatório do geneticista, a linhagem materna de Sandra de Sá provavelmente é originária da África Ocidental. A seqüência genética da cantora teria emergido em populações que viveram há 50 mil anos na Etiópia, de onde teria se espalhado para o oeste do continente africano.

O relatório do geneticista diz ainda que o haplogrupo (conjunto de seqüências de DNA similares) da parte materna da artista é comum em negros nos Estados Unidos e no Caribe, mas, com exceção da Bahia, é mais raro no Brasil.

"É fantástico saber que, de alguma forma, parte de mim esteve na Etiópia milhares de anos atrás. Dá vontade de saber mais, de estudar mais. Vou me embrenhar na internet."

Tradição mercantil

As revelações reforçaram em Sandra, que já se formou em Psicologia, o que ela diz ser um desejo antigo de estudar antropologia.

Sandra conta que, até a realização dos exames, sabia muito pouco sobre as origens de sua família. "Só sabia que a minha família era de Itabira, que tinha alguma coisa a ver com a Bahia."

O historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que a África Ocidental era provavelmente uma das regiões mais desenvolvidas da África na época em que os europeus começaram a explorar o tráfico de escravos no continente.

Ancestralidade genômica
96,7% africana
2,1 % européia
1,1 % ameríndia
Laboratório Gene

"Eram pessoas com grande tradição urbana e mercantil, marcados por uma familiaridade com formas de acumulação de dinheiro, muito maior do que os provenientes de outras regiões. Não é gratuito que os escravos provenientes dessa região são o que (no Brasil) mais compraram a sua liberdade."

Do lado paterno de Sandra, foi identificado um haplogrupo mais raro, presente também nos Zulus da África do Sul e em outros grupos da África Ocidental.

Entenda como funciona o exame

Como só homens apresentam o cromossomo Y, necessário para rastrear da linhagem paterna, o geneticista analisou o DNA do pai da cantora, Luiz César Frederico de Sá, para quem Sandra se mostrou ansiosa para contar o resultado.

"Isso me dá tudo para amar ainda mais a minha família, contar isso para eles."

Segundo Sandra de Sá, o fato de a música estar "enraizada" em sua família, pode ter relação com essa expressiva ancestralidade africana.

"Minha mãe é superafinada, meu pai é músico, meus tios são músicos."

"Eu costumo dizer que tenho pés de escravo, que tenho até marca de corrente. Eu acho que a alma da gente tem memória e eu carrego muito da África em mim. Vocês não imaginam como estou feliz", disse a cantora.

O geneticista Sérgio Pena explica, no entanto, que os testes de ancestralidades materna e paterna revelam apenas o ancestral mais antigo de cada lado.

Daí a importância de se fazer o teste de ancestralidade genômica que tira uma "média" do DNA e estima as porcentagens de ancestralidade africana, européia e ameríndia.

Sérgio Pena calcula em 2,5% a margem de erro dos testes de ancestralidade genômica.