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Atualizado às: 04 de julho, 2007 - 08h13 GMT (05h13 Brasília)
 
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Um mínimo de NoMínimo
 
Ivan Lessa
Não é verdade. Não sou um infolouco. Infolouco.

Alguém aí na distinta platéia se lembra dos Aqualoucos? Bando de tremendos nadadores. Usavam ceroulas antigonas de banho, pulavam todos juntos do mais alto trampolim, pareciam prestes a se esborrachar na água das piscinas. Piscina do Guanabara, do Botafogo, do Copacabana Palace.

Viviam frequentando os paupérrimos cinejornais da época. Infolouco. Com isso eu quero dizer apenas que sou chegado a dar um mergulho de barrigada na Net.

Chamam de internauta. Ou ainda, mais tupiniquim, “nerd” e “geek”. “Geek” é menos pejorativo. Em matéria de Brasil, limito-me a passar os olhos em 3 ou 4 de nossos jornais, que muito mais que isso não tem, uma ou duas (mais uma que duas) revistas, e estamos conversados.

Dá, no máximo (sem jogo de palavra), uns 10 minutos por dia. Fico mais tempo EnTubando (copiráite registrado) clipes de música ou cinema. Ou me movimentando pela jornalada globalizante. Outros 15 minutos.

Em matéria de brasilidades, assunto em que não sou autoridade, o lugar por onde mais tempo zanzava eu, todos os dias, era o sítio NoMínimo, que, ôi zumzumzum, bateu asas e avoou.

Ou jaz no grande cemitério eletrônico, além da segunda estrela à direita, juntamente com algumas outras centenas de milhares de experiências informáticas. Acabou-se. Não tem mais. Gato comeu. Para ser mais preciso, a falta de inteligência deixou padecer.

Sítio, aqualouco, duas boas palavras para levar até a presença de Sérgio Rodrigues. Ouviria uma dissertação enxuta e a propósito a respeito do uso de “site” e “sítio”. Receberia a informação adequada de quem é que cuidava, no sítio (sou teimoso), do departamento de nostalgia e ainda receberia, em dia bom, a camoniana citação de “a grande dor das coisas que passaram”. Nossa como o caôlho sabia das coisas, sô!

Tergiverso, divago, devaneio. O uso devido dessas andanças me seria explicado.

Eu fico rondando e rondando o assunto e o que eu quero dizer mesmo é que fiquei fulo da vida dentro das calças ao saber que as páginas do NoMínimo sumiram dentro de si mesmas, como um gato Cheshire, sem sequer sorriso matreiro sumindo por último.

Encerraram, sérios, seus expedientes. Deixaram de pegar às 9 e largar às 5. Não estão em obras nem nada. Pararam porque, conforme os próprios feitores e colaboradores dizem, no que, ainda na segunda, 2 de julho, estava lá, para quem quisesse clicar em cima:

“Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site (humm…) de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site (humm…) num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve.”

É, fiz questão de transcrever na íntegra a despedida-testamento, mais eloquente do que aquela de Gegê, ou Rebeco, o Inesquecível. Não, não é falta de assunto, nem preguiça. Raiva. Nunca se deve escrever com raiva, alguém me disse em algum lugar. Então cito-os literalmente. Os falecidos NoMinimistas que falem por mim.

NoMínimo era uma das poucas provas de que ainda havia alguma inteligência nesse troço, nesse paisão aí. Foi-se. Acabou. Não tem mais. Como “fica para a próxima”? Como “até breve”? Então acham mesmo que há a possibilidade de uma entidade patrocinadora, de um anunciante esclarecido, vir a perceber que sem inteligência não vai acontecer coisíssima alguma nesse bostoso Bananão?
Bem no meio desse merdejante mundo em que comemos e somos comidos?

Ó mecenas do Bananão, esquentai os vossos pandeiros, esquentai! Compareçais com a nota, silvuplé! O senhor mesmo aí, seu Mecenas Bezerra! Ou o cavalheiro acolá, “coronel” Mecenas Cavalcanti, que com E também serve!

Sim, sim, sem dúvida, ficarão os blogueiros, simpáticões, mas também sobre os cansativos na eterna descrição de seus umbigos e a paisagem que deles se descortina.

Como o imbecil que sou, imprimi a nota de falecimento com os dizeres acima, mais o raio daquela cruz e os 257 signatários (sim, a impaciência com a imbecilidade traz a paciência dos compulsivos: contei os nomes todos).

Deu 3 páginas em papel A4, que vou guardar, sem dobrar, dentro de um livro que, por motivos nevróticos, utilizo como arquivo: o “Rio Antigo”, de J.C. Dunlop, Vol.I Artigos e Fotos, Editora Gráfica Laemmert, Rio, 1955. Lá ficarão em meio a coisas que não citarei, mas todas comprovando o quanto eu estava coberto e enterrado de razão quando, há mais de 29 anos, deixei o Bananão para nunca mais voltar, como dizem todos os tangos.

Sim, eu sei. Ninguém me lê e estou apenas querendo sair na foto ajudando a carregar o, quero crer, caixão do pranteado. Danem-se. Problema meu e do defunto. Entendo um pouco de falecimentos.

 
 
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