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Atualizado às: 06 de julho, 2007 - 09h55 GMT (06h55 Brasília)
 
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Uma cartinha e seus dizeres
 
Ivan Lessa
"Istol com saldades de voçêis. Ivan". Essas as palavras no cartão. Abaixo das sentidas palavras, o desenho de um sol, duas pessoas feito palitinhos de fósforos, ambas de cabelos muito crespos, tendo ao lado, menor, um vulto estranho, em crayon vermelho, que, com boa vontade, dá para se desconstruir como cachorro.

Debaixo da criatura, em inglês impecável, “Lady Red”. Lá em cima, bem no alto, lê-se direitinho: “New Bedford, July 17, 1942”. Sem um único erro de ortografia.

O estilo não era lá essas coisas, mas notava-se que o missivista, além de afetuoso, estava mais à vontade com as firulas da língua inglesa, conforme falada e escrita pelos americanos.

Um bom observador notará que o nome do mês é dado em letra maiúscula e antecede o dia. E acertar com “New” e “Bedford”, simpática cidade portuária no estado de Massachussetts, Estados Unidos da América do Norte, não era para qualquer brasileiro de 7 anos de idade.

Idem, “Lady Red”, com o ípsilon em lugar correto. Ocultei o dado pungente da cartinha: era dirigido ao “Papai” e à “Mamãe”. Ambas palavras escritas sem um único erro de português, com til e tudo. Tenho impressão que, assim como o endereço de meus pais, foram escritos por meus anfitriões.

O que me permite entrar no contexto histórico do tocante bilhetinho.

Verão de 1942 (feito aquele filme)

Morávamos em Nova York. Meus pais trabalhavam para o Nelson Rockefeller, coisa que pode não ser sensacional, mas soa bem. Bem melhor do que contar que estávamos (eu incluso) bem no meio da política de Boa Vizinhança do presidente Roosevelt, dando todos nossos esforços para o Coordenador de Assuntos Interamericanos.

Vira, mexe, isso quer dizer, DIP, Lourival Fontes, ditadura Vargas, aquela beleza toda.

O importante, no caso, é ter 7 anos, ou seja, ser totalmente irresponsável pelas tomadas de posição dos pais da gente. Sei que posso soar meio cruel. Não critico, não desdenho.

Tinha gente boa na história. Cito logo o jornalista Pompeu de Souza, entre muitos, porque dizem que, com o Diário Carioca, ele mudou o caráter e o feitio da imprensa carioca e nacional.

Isso tudo é secundário. Prolegômenos, digamos assim. Encurto a história para poder vender logo meu – umm, digamos – peixe. Ou minha cartinha. Passei uns dias em New Bedford, na casa de uns anglo-portugueses simpaticíssimos, que tinham uma cadela basset chamada – já se esqueceram? Eu, não – “Lady Red” e, na ocasião, vi Pinóquio, do Walt Disney. Lembro de voltar sozinho de trem para Nova York lendo gibi. Da “Nancy” e do “Sluggo” Pouca coisa mais.

Sem sentimentalismos: negociemos

Nesta semana a casa leiloeira Christie's, aqui em Londres, colocou à venda uma vasta coleção de cartas. Por telefone, em pessoa e pela internet.

A jóia na coroa parece ter sido um monte de cartas do “pequeno cabo”, aquele que se auto-coroou, ainda muito moço, Imperador. Uma das cartas de – sim, claro, é ele – Napoleão Bonaparte acabou sendo vendida pelo preço recorde de 276 mil libras, ou seja, mais de 550 mil dólares, meus bonecos.

Não é mole, não. A missiva (não vou ficar repetindo carta, isso é coisa de quem escreve “istol” e não “estou”) é dirigida à sua querida (que ele chama de “incomparable”) Josephine e, vendo a reprodução nos jornais, fiquei impressionado com os borrões, as palavras riscadas e os erros gramaticais, piores talvez do que “saldades” com L.

Por exemplo, para quem pegou mais de dois anos de colegial de francês: “Je t'embrasse trois fois. Un sur ton coeur, un sur ta bouche, un sur tes yeuxs.” Uai, então são 4 beijos que ele manda para o seu amor querido, certo?! Napoleão ou estava cego pela paixão ou era ruim de aritmética para valer. Não sei como ganhou aquelas batalhas todas.

Oportunidade única!

As coisas andam bravas para meu lado. Preciso de algum para as férias de 2007.

Não em New Bedford, mas com português no meio: Cascais, Portugal. Como faço monotonamente todos os anos.

Ponho a leilão então meu singelo cartãozinho, quando eu ainda não fora coroado imperador, mas também, em compensação, não levara uma tunda do General Inverno, na Rússia.

Aguardo as ofertas. Aceito reais. Bolívares até, para ser franco.

Grato.

 
 
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