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Atualizado às: 11 de julho, 2007 - 08h33 GMT (05h33 Brasília)
 
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Adeus, criouléu!
 
Ivan Lessa
Li aqui e ali, de forma imprecisa, que é nosso forte, qualquer coisa sobre a criminalização de certas palavras de nosso léxico.

Na verdade, o enquadramento xadrezístico, ou infração penal punida nos termos da lei, de quem, em terras do Brasil, usar certas palavras.

Para ser preciso, já que estou fora do país há quase 30 anos: usou o termo “crioulo” e pega multa com possibilidade de cadeia.

Parece que, na moita, entre amigos do peito, puxando uma diamba, dá para usar sem susto.

Feito antigamente. Antigamente, da arquibancada ou da geral, gritava-se para o craque de tez escura (essa pode): “Vai, crioulo! Quebra a perna desse vagabundo!”, numa referência ao marcador do tal de, perdão, “crioulo”.

Isso numa época em que os “crioulos”, tal como eram chamados, com a maior naturalidade, e até mesmo um pouco de carinho, não quebravam mais pernas do que o estritamente necessário, dentro ou fora de um campo de futebol.

Talvez, numa ou noutra ocasião, mais séria, tacasse uma navalhada no moreno ou no negão que tivesse enchido seu saco.

Esclarecendo: negão dava pé. Às “veis”. Newton Santos só chamava Pelé de Negão.

Nem precisava ser da seleção, do time do Pelé, ou ser torcedor entusiasta.

A forma (“negrão”) também era aceita entre as elites e o povão.

Principalmente ao contarem aquelas piadas todas sobre imensos beques afrodescendentes da várzea.

Chico Anysio tinha e tem todo um anedótario sobre esse tipo popular.

Um pequeno recuo

O leitor amigo terá notado que utilizei, assim, de repente, como que para dar um susto em alguém, o termo – eu diria mais: a expressão – “afrodescendente”.

É que as coisas nunca estão claras (perdão, escurinhos e escurinhas, de samba de Geraldo Pereira ou não) nesse Brasil brasileiro onde brilha agora uma das sete maravilhas do mundo moderno, a estátua do Cristo Redentor carioca.

Brilha no sentido figurado, é claro, um sentido em que somos mestres.

De dia, não brilha. Acho. Pelo menos não brilhava até 1978.

Nem mesmo as estátuas dos cronistas sociais Ibrahim Sued e Zózimo Barroso do Amaral brilham de dia.

A estátua do Cristo Redentor só brilha à noite, iluminando uma cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a cantar, a sorrir e a dançar, para encanto e divertimento das centenas de milhares de turistas que, desde que anunciaram o pentacampeonato em Lisboa, no domingo, prontamente marcaram passagem para nos visitar na primeira oportunidade, agora sem medo de bala de vagabundo (afrodescendente ou não) ou de polícia (idem).

Eu disse “pentacampeã”? Disse e disse-o bem, nhô sim. Nosso Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, renasceu no sábado passado, pentacampeã.

Levando assim uns poucos meses e muito tutu de malandro (afrodescendente ou não) para conquistar aquilo que levou cinco anos para o suíço Federer de Tal conquistar em Wimbledon, no domingo.

Nosso Cristo, eurodescendente aliás, deu de lavagem em pirâmide, jardim suspenso, mausoléu, farol, esses tolices todas que já eram.

Brotou no alto do morro do Corcovado a gigantesca flor da esperança e da fé, o orgulho e a paz voltaram a imperar e a batucar seus ufanismos no reino dos sentidos.

Basta não usar, em voz muito alta, e diante de estranhos, a palavra “crioulo” em nenhuma de suas variações.

Retroatividade em ação

Já que a lei Afonso Arinos não basta para dormirmos em paz com nosso DNA e de nossos semelhantes, tudo que parecer vagamente “crioulo”, ou passe pelas suas imediações, está sujeito a tudo que der vontade no juiz sorteado e acordado para julgar a questão.

Fica assim proibido, juntamente com o anedotário a propósito do defensor altamente afrodescendente do Chico Anysio, o “Samba do Crioulo Doido”, do falecido Sérgio Porto, também conhecido como Stanislaw Ponte Preta, ou Ponte Afrodescendente, como passará a ser conhecido.

Todos os livros publicados pela editora “Codecri” serão retirados de circulação até que se remedie o atentado contra nosso vernáculo.

Todos os exemplares do hebdomadário satírico-humorista, O Pasquim, não importa se em sebo ou coleção particular, serão apreendidos e multados pela lei que leva o número de Fahrenheit 451, se não me engano.

Todos os livros e antologias do falecido cartunista Henfil terão destino igual.

Qualquer antologia ou reedição em que conste a vil palavra “Codecri” sofrerá a mesma pena. Ou outras penas diferentes e mais chatas ainda, se imaginação tivermos.

Isso porque “Codecri” foi o acrônimo criado pelo talentoso humorista mineiro, Henrique de Sousa Filho, falecido, para alinhar-se ao lado do povão, que ele, com sua imaginação doentia, optou por chamar de “Comitê em Defesa do Criouléu”. Co-de-cri, compreendeu, meritíssimo?

 
 
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