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Atualizado às: 18 de julho, 2007 - 08h26 GMT (05h26 Brasília)
 
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Homer Simpson cairá de vez?
 
Ivan Lessa
A menos de uma semana da estréia do filme em longa-metragem dos Simpsons, inquietantes vozes começam a anunciar o começo – ou talvez seja a metade – do fim da exemplar comédia da irrequieta e barulhenta família para a qual, em português, muitos chegaram até a inventar o adjetivo “desfuncional”.

Isso para bater ainda mais no surrado lugar-comum que os povos de fala inglesa usam a 3 por 2, e a 6 por 4 também, para se referir ao desenho animado de 20 e poucos minutos de duração: "dysfunctional".

Depois de 20 anos e 400 episódios aconteceu algo muito comum até mesmo entre as melhores famílias: gente dizendo que os Simpsons já eram.

A mentalidade do “já era” ocorre em todas as línguas e eu a conheço bem.

Uma coisa passar a ser “já era” é fenômeno comum e não deve nos assustar. Eu, você, nós todos já fomos. Ou vamos deixar de ser.

Resta saber se a série dos Simpsons realmente já deu, ou começa a dar, sinais de cansaço, ou se é pura atitude.

Nos bares e restaurantes, nos sofás e nos bancos de rua, começaram as primeiras indagações.

Em vez de, feito outro dia mesmo, as pessoas chegarem umas para as outras e comentarem, às gargalhadas, isso ou aquilo outro do mais recente episódio, as mesmas pessoas teriam passado a dar sinais de algo que já se pode chamar de tédio, enfado e, em alguns casos, até mesmo de irritação, provocada talvez pela decepção, conforme se dá nos casos de amor.

Uma diatribe dá o que falar

Aqui no Reino Unido, no dia 12 do corrente, nas páginas nobres do suplemento do Guardian, Ian Jones, crítico de televisão, e que se auto-intitula ex-fã, foi o primeiro a botar em letra de forma aquilo que muitos já haviam percebido em seus papos ou exames internos de sensibilidade artística cômica.

Eu mesmo já ouvi de gente esclarecida, e há algum tempo, que o Futurama, série criada pelo mesmo Matt Groening dos Simpsons, deixava para trás, em matéria de qualidade, a amarelona família da cidade de Springfield.

Frise-se que Futurama foi uma série, também animada, cancelada devido à má vontade das emissoras, por sua vez decepcionadas com a baixa audiência.

Cite-se também o caso de Family Guy, que não sei se levam ou não no Brasil, que, após cancelada, também por falta de audiência, acabou voltando a todo vapor para as pequenas telas devido à pressão exercida por uma considerável legião de admiradores indignados.

Aqui passam, e em mais de um canal, episódios do Family Guy.

Confesso que custei a entrar na deles, mas quando entrei não dava mais para sair.

O distinto aí que abra seu computador no YouTube e, na janelinha para busca, taque lá Family Guy.

Verá surgir uma vasta quantidade de trechos ou compilações da série, uma família também “desfuncional”, conforme querem.

Depois de alguns episódios, verifiquei que o tal “cara da família” vai bem mais longe de onde vão Homer e sua turma, em matéria de incorreção política.

Incorreção política para mim é vital. Mas isso é problema meu. E o tal do Ian Jones? O que é que ele tem a dizer?

De cara, o ex-fã afirma que era o melhor show de TV. Que cada episódio transbordava de tanta imaginação, tanta inteligência, tanta bolação impagável.

E cita seus exemplos favoritos: "Sideshow Bob” cantando em dueto com Bart trechos de uma opereta de Gilbert e Sullivan, Homer caindo de uma cachoeira, desaforos gratuitos para cima dos países mais inesperados (Japão, Austrália, Brasil e, principalmente, França).

Desaforos com um certo cuidado, mas desaforos. Semana após semana. O primeiro presidente George Bush levou a dele, idem Bill Clinton, idem o segundo Bush.

Ian Jones chega a botar uma data no que chama de começo do fim: 1997. E cita o episódio: aquele em que o diretor do colégio de Bart, Seymour Skinner, é desmascarado como um enganador, sendo o verdadeiro Skinner um outro cara que teve a voz “feita” por Martin Sheen.

Para Ian Jones, isso é prova de falta de imaginação, de cansaço criativo.

Eu peço licença para discordar. Não faltará gente para fazer o mesmo. Só que aí se dá um troço chato: vão discordar de qual o episódio em que começou a virada.

Um ponto final

Não há sequer a necessidade de usar o filme ainda não exibido para citar a apelação. Uma vez pronunciada a frase fatal, de que os Simpsons já eram, não há mais como voltar atrás.

Uma coisa ninguém pode tirar da gente: assim como certos amores, foi ótimo Os Simpsons terem existido.

Ao contrário de certos amores, pode-se comprar o que há de melhor deles em DVD e ficar vendo até bater – aí sim – o verdadeiro, inconfundível e inevitável cansaço.
.

 
 
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