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Atualizado às: 29 de agosto, 2007 - 10h17 GMT (07h17 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Um prefeito perfeito
 
Ivan Lessa
Não me lembro de prefeito no Rio. A não ser do Francisco de Sá Lessa, que apesar do sobrenome infelizmente não era meu parente, e do Negrão de Lima, que usava chapéu Gelot, que era o máximo de chique, conforme atestavam as pessoas de bom gosto da época.

Não sei de mais prefeito pela antiga capital. Ainda existem? Labutam? Têm processo contra? A favor? Sou totalmente pela existência de prefeitos. Contanto que se comportem bem e não avacalhem muito com a cidade que os elegeu, se eleitos forem e não nomeados por altas patentes.

Londres não tinha prefeito vivo e atuante até há alguns anos. Até o ano 2000, para ser preciso. Antes só a City tinha um prefeito e assim mesmo de utilidade apenas decorativa, o Lord Mayor, o que não é motivo para se debochar.

Político que enfeita é muito melhor que político que enfeia, se me permitem, assim como quem não quer nada, jogar no meio do texto uma frase de efeito.

No ano 2000, Londres foi às urnas e elegeu Ken Livingstone como prefeito. Prefeito para valer. Com poder e tudo que o poder outorga ao cargo.

Ken Livingstone é um homem de esquerda. Tão de esquerda que seus inimigos, ou pelo menos o eleitorado mais cético quanto a suas credenciais político-administrativas, batizaram-no de “Red Ken”, Ken, o Vermelho.

Não por ser ruivo, que fique claro. Questão de posição. Uma revista satírica só o chama de “Ken Leninspart”, que é para terem uma idéia da coloração política do homem. Mas o que fez, afinal, Ken no poder?

Ken no Poder

Ken Livingstone vem cuidando principalmente da infra-estrutura de transportes na capital. Para variar, e como sempre e todos, tem sido parcialmente bem-sucedido e parcialmente mal-sucedido.

Apesar de tudo, o povão londrino, que, afinal, é quem conta, aprova a gestão Ken, ao menos no tocante aos transportes. Mais controvertida é sua decisão de instituir um pedágio para os carros terem acesso ao centro da cidade, desafogando o trânsito.

Na verdade, deveria se chamar “rodágio”, mas pedágio ficou sendo e é, para alegria de muitos e ódio de outros. Até aí, novamente, nenhuma novidade. Ken Livingstone, como muita gente boa, tem um bichinho de estimação em casa. Não é gato, nem cachorro, nem periquito.

Salamandra. Sim, salamandra. Nesse ponto, pelo menos para mim, Ken (pronto, peguei intimidade) vira ícone meu. Junte-se à salamandra o fato de Ken ser quase-quase fanho para logo se tornar, no meu panteão particular, figura ou ícone emblemático.

Mais um pouco e eu contribuo com algumas suadas libras esterlinas para ver uma estátua dele, feito as da orla marítima carioca, de frente para o Tâmisa. Estátua de bronze, claro, feito cronistas sociais de nosso velho Rio.

Volto a Ken, meu caro Ken, para mais iconoclastias e “emblemações”, seu forte, como verão.

O forte de Ken

Controvérsia. Controvérsia é o forte de Ken. Não tem, conforme reza (êpa!) a velha expressão, papas na língua. Enumero alguns pontos altos de seu repertório.

Em 2004, disse que gostaria de ver a família real da Arábia Saudita dependurada pelos pés dos postes públicos. No mesmo ano, referiu-se ao presidente George W. Bush como o mais corrupto presidente norte-americano desde Warren Harding, nos anos 20 (dois coelhos de uma só cajadada).

Em março de 2005, acusou o então primeiro-ministro israelense Ariel Sharon de ser um criminoso de guerra. Em 2006, no dia 21 de março, para ser preciso, numa coletiva, disse, segundo se alega, de dois homens de negócios britânicos nascidos na Índia, os irmãos David e Simon Reuben, que, se não estivessem satisfeitos com os planos para as Olimpíadas de 2012, poderiam voltar para o Irã e tentar se dar melhor com os aiatolás.

Um homem emotivo

Agora mesmo, no dia 23 de agosto, quando se comemorou o bicentenário da abolição do tráfico de escravos no Império Britânico, Ken Livingstone discursou ao lado do reverendo norte-americano Jesse Jackson e, de público, pediu desculpas, em nome da capital e suas instituições, pelas, segundo ele, “crueldades infligidas a milhões de pessoas transportadas da África e que, até os dias de hoje, sofrem com esse legado.”

Por duas vezes, em seu discurso diante de uma platéia composta de políticos, escritores e altos dignatários, Ken teve que fazer uma pausa em seu pronunciamento de voz embargada para secar dos olhos algumas lágrimas.

O prefeito de Londres conseguiu, com esforço, chegar ao fim de seu discurso marcando o primeiro Dia Anual Anti-Escravatura de Londres, que aliás, foi tema do também anual festival de Notting Hill, com dois dias de duração e iniciado em 1964, quando a cidade, coitada, ainda não tinha prefeito.

Prefeito que não embarga a voz (fanha ou não) e não recolhe lágrimas em meio a discurso nunca poderá ser perfeito.

 
 
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