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Atualizado às: 12 de setembro, 2007 - 09h59 GMT (06h59 Brasília)
 
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Um vibrante companheiro
 
Ivan Lessa
O nome da escritora é Patricia McCormick e seu livro The Honeymoon's Over (A lua-de-mel acabou), editado pela Little, Brown, custa 11 libras e 99 pence.

Não li todo, apenas o capítulo vital que deram no jornal. Patrícia escreve direitinho. Não é nenhuma Virgínia Woolf ou Simone de Beauvoir, mas tudo com o estilo de beletrista despachada.

Estou sendo condescendente, é verdade. Culpa dela. No trecho publicado sob o título “O marido eletrônico”, Patricia vai contando coisas de sua vida doméstica.

Diz que, quando as coisas não iam lá muito bem entre ela e o marido, gostava de passar as tardes sentadinha, lendo, com o gato no colo. Isso a divertia.

Nem gato nem livro ganham nome. Marido ganha: Paul. Patricia, embora fraca em dar nome aos bichos e livros, é boa de prosa descritiva. Tento dar uma deixa e já vou me desculpando pela tradução.

As delícias de um gato

"De vez em quando, o gato erguia seus olhos sonolentos em minha direção. Daí ele me fuçava e pressionava o cocuruto à parte debaixo de meu queixo. Outras vezes, ele ficava de pé, nas patas traseiras, punha as dianteiras nos meus ombros e me fitava com seus profundos olhos dourados. Meu coração se derretia ao contato com seu focinho molhado.”

Ligeira desconstrução

Eu avisei que a moça não era bem uma Clarice Lispector, para ficarmos em nossas letras, enquanto a reforma ortográfica (afinal, é ou não obrigatória? Tem multa? Pena de prisão?) não vem.

Tudo bem. Ou tudo mal. Patricia conta como, ocasionalmente, gostaria que o gato fosse o marido dela. Fazia até graça, chamando o bichano de “meu marido felpudo”.

Nessa linha, a coisa começou a me deixar meio preocupado. Patricia explica que havia algo instintivamente afetuoso e nada complicado na relação entre ela e o gato. Um pouco mais além, diz que mais de uma vez pensou em como tudo seria mais simples se ela fosse casada com o gato.

Hmm. Hmm. E mais hmm

Em poucas linhas, logo a seguir, Patricia narra os seus problemas domésticos. Briga aqui, briga ali, desentendimentos com Paul. Patricia e Paul, dois nomes bonitos, ela até que passável, a se julgar pela foto a cores que ilustra o texto, brigando à toa, como é sempre o caso.

Estão um pouco velhinhos para isso, quero crer. Mas ainda jovens suficiente para esperar uma vida toda pela frente. Parem com isso, gente! Disse eu para meu jornal, sentado na poltrona, sem nenhum gato – nem no meu colo, nem a meu lado, nem em lugar nenhum a vinte metros de mim.

Encurtando a história, Patricia se separou de Paul e foi morar sozinha num apartamento pequeno, não muito distante de seu “antigo lar”.

Segundo o arranjo do ex-casal, ela teria acesso uma vez por semana ao filho de 13 anos (que até agora não surgira na história e que também permanece anônimo) e, atenção, acesso também ao Gato, que eu taco em maiúsculos, como se fosse gente, que o bicho merece.

Patricia narra com tintas fortes sua ansiedade à espera do dia em que veria e ficaria por 24 horas com o Gato. Comprou casinha nova para ele, sua comida predileta, brinquedinhos.

O garoto de 13 anos sem nome? Sei lá. Sei que fazia parte do acordo entre ela e Paul (lembram quem é?) nenhum dos dois entrar num relacionamento com outra pessoa após a separação.

Depois de alguns meses, segundo a “patriciana” narrativa, ela começou a sentir uma forte necessidade de afeto. No que encurto a história e vou direto aos fundamentais da questão.

Tremendas vibrações

Patricia entrou numa loja especializada em artigos sexuais e começou a mexer em tudo, como criança com brinquedo novo. Eram vibradores pra cá e pra lá, chicotes, roupinhas de couro, calcinhas comestíveis (teriam com sabor de água de coco ou groselha?), todos essas coisas de que entendo muito pouco. Juro.

Patricia fala da vendedora auxiliando-a a escolher um consolador, conforme já foram chamados. Adianta que pegou um tamanho família, talvez, suponho, em memória da família que deixara de existir. As baterias vinham com o bichão.

A seguir, Patricia fala do novo romance. Não há outra palavra para o que se seguiu. Conta como preparava o jantar, acendia velas, tomava vinho e, depois, dirigia-se para o leito na companhia de “Big G”, pois esse era o nome, ao menos genérico, industrial, do novo companheiro eletrônico de nossa querida amiga.

Patricia entra, ou passa, pelos detalhes. Eu, não. Fala dos resultados. Como tudo mudou. Da felicidade reencontrada. Não fala uma palavra sobre o “Gato”, o que me parece ingratidão.

Quer dizer, acho, praticamente esquecido. Assim como filho e marido. Lua-de-mel, primeiros namoros, é sempre a mesma história.

No final das contas, Patrícia acabou se abrindo com o marido e contou tudo sobre ela e “Big G”. Paul foi compreensivo. Entraram num acordo, o casamento parcialmente reatado. Talvez até salvo. Todos vivendo felizes para sempre.

Menos o “Big G”, que não liga para essas coisas. Com as baterias em ponto zero, é uma nulidade em campo.

O que eu queria saber mesmo, Patricia não conta: e o Gato, hein? E o Gato?

 
 
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