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Atualizado às: 19 de setembro, 2007 - 09h50 GMT (06h50 Brasília)
 
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Um quilo de gambá
 
Ivan Lessa
Quando eu peço um quilo de gambá, eu exijo um quilo de gambá. Não quero 750 gramas, não quero 500 gramas. São mil gramas. Um quilo.

Não estou aqui para jogar fora meu rico dinheirinho. Não sou pato. Não entro em conto do vigário. Quilo é quilo e gambá e gambá.

Troquemos em miúdos as linhas acima. Em primeiro lugar, o que vem em segundo lugar: o gambá. Traduzi literalmente. É o skunk. Ou seja, um tipo de maconha que, segundo a polícia e o jornais, vem dominando o mercado e é 20 vezes mais forte do que o gambá normal, aquele que se comprava há 10 anos.

Portanto, um gambá super-forte e que contém 14% de THC, o elemento (o péssimo elemento) psicoativo que potencializa aquela que já foi chamada de “erva do diabo”, em tempos mais respeitosos.

Em 1995, o conteúdo de THC de uma partida de maconha desse tipo era de 7%, agora dobrou, passando para 14%, em 2005. O estudo foi baseado (sim, baseado) em 550 gambás apreendidos e analisados.

Deles, grande parte continha mais de 30% de THC. Sendo que 4% da gambarada apreendida apresentava mais de 20% de THC.

Os fregueses da diamba incrementada não foram consultados. Creio que, dada a qualidade do gambá em circulação pelo Reino Unido, com esse acréscimo inusitado de THC, estejam todos noutra.

Possivelmente, segundo certas pessoas de minha intimidade, “numa boa”. Não sei exatamente o quer dizer isso, mas suponho que seja sinal de que tudo bem, estamos aí, coisa e tal.

Meu quilo

Eu falei aí em cima em “meu quilo de gambá”. Gracinha sem graça minha. Não sou de gambás. Nem do bicho nem do cigarrinho do demônio.

Meu negócio, conforme não canso de repetir, é xarope de groselha, água de coco e guaraná. Todos elementos que só contém aquelas letrinhas “E” mais isso e aquilo outro e, no máximo, caso do xarope, um corantezinho para rebater e descer redondinho.

Além do mais, eu teria que exigir em litro, centilitro ou mililitro. Eu estava apenas dando um exemplo do que acontece por aqui ou comigo. Quer dizer: nada, blicas, coisíssima alguma.

É ficar diante da TV, é abrir o jornal, é folhear o romance policial vagabundo. Já fui bom. Vá lá que seja. Elogio em boca própria é vitupério. Já fui razoável. Mais franco ainda: já fui medíocre, como todo mundo.

Sei, no entanto, além de me movimentar com certo desembaraço na internet, passar os olhos nas folhas, digerir alguma coisa (pouco, muito pouco) e passar adiante (mal, muito mal).

Daí eu vir com essa conversa de querer um quilo de gambá. Simples recurso literário para despertar a atenção do eventual (eventual, muito eventual) leitor. No que boto a balança em jogo e vou pesando.

O que há é que só outro dia fiquei sabendo que existe algo chamado o “quilograma referencial” ou de referência. Ele é que define todos os outros quilogramas.

Desde o boneco aqui em Hackney, que comprou um quilo de gambá, ao malandro na Rocinha que matou dois desafetos e um policial numa disputa por meio quilo de cocaína.

Malhada ou não, quem decide o peso da droga é o tal do “quilograma de referência”, ou referencial.

Um pequeno parêntese, eu escrevi “malhada” porque assim me afirmam que se dizia da droga que vinha misturada a bicarbonato de sódio ou outros elementos estranhos aos trabalhos em questão.

No mundo do crime, “malhada” ou não, a droga tem que pesar aquilo que o traficante diz que pesa. Quem decide o peso é o tal do “quilograma referencial”, a balança da venda e nunca o delegado de plantão.

O quilo referencial

Ele é um cilindro de metal de 118 anos, mantido num vácuo, dentro de três cilindros de vidro num cofre com fechadura tripla, tudo isso situado em um belo château nas cercanias de Paris.

O cilindro pesa, por definição, um quilograma e, na semana passada, uma notícia tão alarmante quanto a proliferação do gambá no Reino Unido chegou àquelas páginas das folhas que só eu leio.

Atenção, se segurem: ao que parece o “quilograma referencial”, com o passar dos anos, perdeu 50 microgramas, ou seja, o peso, por assim dizer, de uma impressão digital.

É chato, bem sei. Mas se forem comprar algo que tiver que ir a uma balança no meio das negociações, discutam e descontem uma impressão digital. Só não malhem. Não malhem quilo ou gramota. É coisa de francês. Respeitem.

 
 
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