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Atualizado às: 21 de setembro, 2007 - 08h10 GMT (05h10 Brasília)
 
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Calheiros/Campbell
 
Ivan Lessa
Eu não entendo 76% do que se passa no Brasil. Os restantes 24%, faço feito todo mundo: vou e ignoro. Passo os olhos nos jornais. Olho, olho, olho. Ler é mais complicado, sou modesto.

Demonstro, no entanto, para mim mesmo, distante de qualquer torcida na arquibancada, enorme interesse. Afinal não estou fazendo embaixada no meio do campo. Vinte minutos depois tudo aquilo que passou por debaixo de meus olhos é como aquela bola que passou entre nossas pernas, ou nossas mãos, se estivermos pegando no gol: passou, está esquecido, deixa pra lá.

Suponho que sejam desses troços que só se dão com expatriados. Aquela gente toda, que brilhou intensamente, qual bólidos em chamas nos céus midiáticos da parte que nos cabe no hemisfério sul, passa para o limbo num abrir e fechar os olhos (ou abrir e fechar as pernas, ou mãos). Ficam apenas alguns nomes, vagos todos, mal pronunciados, quase sempre truncados: Collor de Menezes, FNC, Kátia Perez, Clodogildo Velloso, Perebão, Ed Caterva e por aí afora.

Invocado que sou, passo adiante minha falha para meus compatriotas que – bem feito! – preferiram ficar aí gozando das maravilhas tropicais oferecidos pelo agito incessante de nossos lábaros estrelados e calculo que, mesmo a essa distância toda (mais de 9 mil km), 65% de todos os brasileiros nos Brasis residentes também não entendem patavinas, bulhufas, blicas do que aconteceu, está acontecendo ou deverá (pouco provável: o futuro a Deus e não a nós pertence) acontecer.

Renan Calheiros

Renan Calheiros. Exatamente. Um nome sonoro. Ainda se batendo, como vagas poéticas, na concha de meus ouvidos. Passei algumas semanas vendo esse nome em tudo quanto é página de tudo quanto é jornal brasileiro.

Talvez, se me perguntassem quando eu estivesse entretido no meio de um parágrafo, fosse capaz de dar uma vaga (muito vaga mesmo) idéia do que e de quem se tratava. Hoje, impossível. Qualquer coisa a ver com Fórmula Um, confere? Não sei.

Devo ter sabido e dado tanta importância quanto à greve de carteiros em Bradford, no norte da Inglaterra na primeira semana de setembro. Exagero. Sei que Renan Calheiros foi eleito qualquer coisa por um bom número de seus pares, ou talvez até mesmo de seus ímpares, pelo que parabenizo todos os envolvidos nas comemorações e festividades. Como parabenizo o time pelo qual já torci, o Botafogo, que depois de apanhar de todo mundo, deu uma sova num desavisado. Talvez, espero, o Curíntia, de São Paulo.

O mundo é exatamente isso que sabemos: tudo é passageiro. Menos o condutor e o motorneiro. E esses, coitados, já não existem mais, foram, como se diz, deletados.

Fiquei, talvez ainda esteja, fulo da vida. Por vocês aí estarem envolvidos em coisas quiçá interessantíssimas, como é o caso de l´affaire Renan Calheiros, para batizar de forma chique e em arrondissement elegante o protagonista desses misteriosos acontecimentos. Tem nada, não. Tem forra, isso sim. Digo um nome para calar todos esses íntimos do caso ou affaire Calheiros: Menzies Campbell. Tomaram? Só para tripudiar ainda dou o título a que o homem fez e faz jus (não confundir com jus francês, orange ou citron): sir! Sir Menzies Campbell. Estamos, pois, empatados, brasileiros dos Brasis.

Sir Menzies Campbell

Sir Menzies Campbell é membro do Parlamento Britânico e líder dos chamados liberais democratas, qual seja, do Partido Liberal- Democrata, ora em semana de convenção, com todos os partidários discutindo os futuros do partido e quiçá da nação britânica.

Ele é mais conhecido como Ming, pois seu nome é pronunciado Ming-is, já que se trata de escocês, nascido inclusive, como se não bastasse, em Glasgow, no dia 22 de maio de 1941, para ser preciso. Ming (nunca o chamem de O Implacável. Nem o gibi nem o seriado de Flash Gordon pegaram aqui) assumiu a liderança do partido em março de 2006, o que foi considerado muito justo embora de pouquíssima importância num mundo, ou país, dividido então entre Tony Blair, Gordon Brown e, em escala menor, David Cameron.

Viram? Vocês não tem a menor idéia do que estou falando nem de quem são. Eu disse que iria à forra. Voltando a Ming Campbell, declarou na quinta-feira, em seu discurso para os convencionais liberal-democratas, ou liberais democratas, tanto faz, que está mais do que satisfeito em ficar num território situado à esquerda do centro.

O centro é… Bem, nós todos sabemos o que é um centro. Lá onde baixam os espíritos e caboclos de esquerda e de direita, conforme atesta o povão em sua eterna ignorância e ineptidão.

No mesmo dia, quinta-feira, Ming foi implacável (eu posso ir de “implacável”: li os quadrinhos, assisti ao seriado) com o chamado consenso entre seguidores do partido Labour (em inglês da Inglaterra é com U, ao contrário de inglês dos EUA que é sem o U.

Eles, britânicos e americanos, ainda não conhecem a lenha e os rigores de uma boa reforma ortográfica no lombo) e do partido Conservative, que muitos, eu inclusive, traduziria para Conservador, mas com C maiúsculo, por uma questão de respeito às regras da casa, do país, que tão bem vem me acolhendo pelos últimos 29 anos e caquerada.

Resumo e tento não me perder mais: Ming é contra o confortável consenso entre os dois partidos cujas filosofias dissequei nas linhas acima. Ming foi mais além ainda em seu eloquente discurso: afirmou ser de centro-esquerda num partido de centro-esquerda onde militam pessoas de centro-esquerda seguindo uma política de centro-esquerda.

Ou seja, Ming Campbell é de centro-esquerda. Para quem ainda tinha dúvidas. Essa clareza de exposição valeu uma saraivada de palmas entre os convencionais participantes dos trabalhos de centro-esquerda realizados nesta semana que passou.

Síntese

Depois da tese (Renan Calheiros) e a antítese (sir Menzies Campbell) chegamos, vocês comigo, à almejada síntese: o mundo é para aqueles que sabem conquistá-lo e, se a vida nos deu um limão, façamos uma limonada e não um frappé de coco, que esse não dá, mas não dá mesmo, meus queridos, embora seja muito mais gostoso.

 
 
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