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Atualizado às: 08 de outubro, 2007 - 07h44 GMT (04h44 Brasília)
 
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Entropando elitizado
 
Ivan Lessa
Na sexta-feira, 5 de outubro, eu também, como cariocas e paulistanos, estive presente à estréia do controvertido filme nacional Tropa de Elite, do diretor José Padilha, cineasta que admiro desde que assisti, no conforto de minha casa, ao supremo desconforto do documentário Ônibus 174, aquele do ônibus seqüestrado no Jardim Botânico.

A estréia, na verdade, tanto para Rio e São Paulo, estava marcada para sexta-feira, 12 de outubro. Deu-se porém que, por um desses mistérios que só os filmes de ficção e documentários brasileiros explicam, os camelôs, a serviço de alguma misteriosa e por certo poderosa organização, venderam adoidados cópias piratas em DVD do filme em questão.

Segundo os jornais, só em São Paulo cerca de 1,5 milhão assistiram ao longa antes de sua entrada em cartaz. Contando o Rio – e nunca se deve descontar o Rio em coisa alguma – esse número chegaria fácil aos 5 milhões, teria declarado o diretor do filme, José Padilha.

Há, pois, uma demanda por esse tipo de filme, li em outro lugar. Ou vários lugares. Que tipo de filme é esse? Um filme sobre nós mesmos, coisa rara e recente. Um filme sobre a terrível realidade da luta, melhor dizendo guerra, entre a lei e a desordem, ou seja, entre polícia e criminosos. Estes últimos, favelados traficantes de drogas.

Presença em espírito

O filme foi para as telas de salas de exibição do Rio e São Paulo com 140 cópias. No dia 12, será exibido no resto do país. É mais do que possível que aqueles que viram Tropa de Elite em DVD, por certo em cópias mal ajambradas, paguem mais alguns reais para assisti-lo em tela grande, com som estereofônico e pipoca. Em certas cidades – quem sabe? – talvez um baseadinho.

Estou entre os que compareceram apenas em espírito à noite de estréia do filme de Padilha. Um amigo do peito, de passagem por Londres, cedeu-me uma das tais cópias piratas de Tropa.

Em memória dos bons tempos passados no Rio, e em sinal de respeito aos dias amargos que a mesma cidade vive hoje, praticamente cronometrei a exibição de meu DVD para o que seria a primeira sessão do Roxy, ali na esquina da Bolivar: 8 da noite no Rio, meia-noite em Londres.

Minha cópia tinha 159 minutos e umas poucas palavras introdutórias em inglês. Felizmente não era dublado. Os trechos em inglês são uma pista para onde se deu o vazamento original do filme, se vazamento houve.

Sem cigarrinho, mesmo o “comercial” (deixei há 6 anos), quase que naquela perfilação dos jogadores de nossa seleção antes do início da contenda, assisti atento às quase três horas de filme.

Foi bom. O fato de me saber em estado de transgressão, colocou-me no espírito da coisa, além de me trazer à mente lembranças amargas mas caras, bem caras. Uns oito contos o papelote, se é que me lembro bem. Estava eu no estado ideal para enfrentar uma tropa de elite.

Tudo certinho

Na verdade, passados uns 70 minutos, comecei a me dar conta que era exatamente um filme sobre aquilo que se dizia ser, uma tropa policial de elite.

Vieram-me à mente, conturbada como de hábito, vários outros filmes ou séries de televisão, de Os Intocáveis a Nascido para matar, de Stanley Kubrik, principalmente na primeira metade, a do treinamento da scuderie, digo, esquadrão motorizado, digo, tropa de elite.

O filme enfatiza o treinamento intenso e rigoroso, sobre-humano mesmo, de soldados da Polícia Militar que formam o BOPE – e paro por aqui já que não deve haver brasileiro vivo que não saiba de que se trata.

Achei tudo certinho. Quer dizer, a câmera estava quase sempre no lugar certo, os atores tinham suas falas decoradas, muitas obviamente improvisadas, a narração fluía, inda que, como num riacho (de sangue?) encontrasse, aqui e ali, uma obstrução.

Só que faltava qualquer coisa. E não era a minha presença no Brasil pelos últimos 30 anos. Daí me deu o estalo de cinéfilo viciado como os fregueses da turma do morro.

Eu queria era ver sangue. Muito sangue mesmo. Jorrando como nos Saw 1, 2, e 3, que espero que vocês conheçam. Queria assistir maldades horrendas. Queria torturas horripilantes. Gente estourando, miolos espalhados pelas paredes, olhos sendo vazados, estampidos de balas sacudindo minha sala.

Um sujeito só carbonizado numa pira de pneus e dois ou três caras sufocando com a cabeça em sacos plásticos era pouco. Qualquer Tarantino, John Carpenter, Robert Rodriguez ou George A. Romero dariam um banho – sempre de sangue – em matéria de tortura e maldade. Cadê as degolas? Cadê o arrancar de unhas? Os olhos furados? As vísceras expostas? O garrote-vil? Problemas meus apenas?

Ou do espectador acostumado às manipulações do moderno cinema americano? Vá lá que seja, o culpado sou eu apenas. Feito um mordomo em livro inexistente da Agatha Christie. Tinha mais um trocinho, no entanto. Ou menos um trocinho.

Cadê gente?

Em nenhum momento, eu consegui me interessar por pessoa alguma que passou pelo filme pirata que vi na tela de minha televisão. Um homem tenso diante do espelho, ou terno diante da mulherzinha grávida é pouco, muito pouco. “They are all dead”, como diria, com seu fiapo de voz, Clint Eastwood, os olhos semi-cerrados, a boca crispada.

Nenhum dos presentes atuantes foi agraciado com o propalado “sopro de vida”. Ninguém me despertou interesse. Pena ou asco. Do lado do “Bem” ou do lado do “Mal”.

Achei tudo de um cinza anódino. Os bandidos, os traficantes, viviam daquilo, e naquela, como num faroeste do Sergio Leone. Poderiam estar no saloon derramando umas e outras enquanto as balas do mocinho não chegam.

Faltou gente, sobrou patente. Fiquei esperando os cartões postais do Rio. Nem esses tinham. Não reconheci nada nem ninguém. A não ser a Figueiredo de Magalhães e assim mesmo porque numa cena mostravam a placa com o nome da rua. Foucault foi mencionado, única hora em que senti um frio na boca do estômago.

Devo estar fora há muito tempo. Essa a única explicação para minha ausência instintiva e intelectual. Deus, que é brasileiro, e joga por nossa seleção, como todos sabem, além de castigar quem abandona por muito tempo o país, passa a bola entre as pernas daqueles que compram ou aceitam de presente DVD pirata.

Ou então foi o tempo que fez de mim esse troço de que tanto falam: “fascistóide”.

 
 
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