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Atualizado às: 10 de outubro, 2007 - 08h08 GMT (05h08 Brasília)
 
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Como ficar doente
 
Ivan Lessa
De estalo, que fique claro: não pode nem deve ser doença muito séria. Já que por aqui o outono nos ronda, as temperaturas sobem e descem e não sabem direito o que fazer, igualzinho ao governo de Gordon Brown.

Digamos que seja uma gripe. Uma gripe um pouquinho mais séria do que as outras. Você acordou, sentiu o corpo dolorido, o nariz entupido (logo, logo ele vai correr), dorzinha na garganta, calafrios, a febre praticamente implorando um termômetro para quebrar-lhe a cara ou bater um recorde. Assim que você pôs os pés no chão, veio-lhe uma fraqueza acompanhada de náuseas.

Você volta a se deitar. Tudo menos ter que ir até a cozinha preparar café com leite, tirar os biscoitinhos da lata. O resto da casa – mulheres: cônjuge e a de limpeza, que hoje é dia dela – não lhe dá a atenção que você lhe julga devida. A gripe, ou começo de resfriado, é um passeio amargo pela infância passada. Uma pergunta emerge, como o balão sem ninguém que o pronuncie numa história em quadrinhos:

- Você não vai se levantar hoje, não?

O que em nada melhora seu estado. Responde então com uns gemidos. Alguns sentidos, outros não. No código dos acamados, você está dizendo que não, não vai levantar, que está péssimo e a vida é um horror que não vale a pena ser vivido.

Você se volta para o outro lado (as camas, tragicamente, tem dois lados, ao menos em seu estado natural) e se lamenta em grunhidos altos.

Vale em inglês, já que são quase 30 anos de Londres. Salpica suas imprecações de “woe is me”, oh, dear!” e tolices semelhantes dignas das piores telenovelas das sete horas da noite.

Meras afetações na vã tentativa que lhe tragam um chazinho na cama. De jeito nenhum. A casa prossegue como sempre: saudável, esperando aspirador, roupa na máquina de lavar, lençol, toalhas e camisas a serem passadas. Quem sabe? Talvez até lenços.

Primeiras escaramuças

Uma vez inteiramente só em casa, sem mulher alguma – nem a sua nem a dos outros – você se levanta e se arrasta até o banheiro. Sempre gemendo, tossindo, assoando e rosnando no primeiro lenço que lhe caiu nas mãos.

Abluções, escovar de dentes. Arrumar um pouquinho a fachada que lá por dentro está uma desgraça. Faz um nescafé bem forte. Toma paracetamol, que aspirina o médico proibiu (outras doenças, todas de maior gravidade. O perigo está no acúmulo).

Tenta ver o noticiário na televisão. Nada faz sentido. Computador? Nem pensar. Pelo menos nisso, tudo está igualzinho aos outros dias. Nada no correio. Carteiros em férias. Desejar a todos ele uma gripe das bravas.

Hoje era dia de chegar revista assinada. Você bota uma roupa de ficar em casa. Como se isso existisse. Toda roupa é para se ir à rua, ao trabalho, visitar amigos, chegar até a esquina e comprar refrigerante e comida para a gata. Não, não. São dez da manhã e você ainda tem o dia todo a enfrentar.

Providências e previdências

Você fecha bem direitinho todas as janelas da casa. Sim, é tarde, mas o notório vento encanado, contra o qual nos previniram todas as mães, avós e tias do mundo, continua a espalhar pelos aposentos seu bafo maligno. Fiquemos na gripe, ao menos. Há que se evitar a todo custo a pneumonia.

Bobagem ligar de novo a televisão. Ou o desk top. Não há nada que interesse a um gripado nessa hora do dia (estamos perto do meio-dia) em todos os 187 canais ou 7235 sites. A um bom livrinho, pois. Terminar o novo romance do Philip Roth, por exemplo.

Seguramente eu devo estar mais que febril. Meus olhos lacrimejam Nilos, Tâmisas e Amazonas. Quem sabe ouvir uns disquinhos? Aquela excepcional antologia em 3 CDs só com composições do Wlson Baptista? Não dá para chegar à vitrola. Não daria mesmo que fosse sistema de som. Além do mais, a cabeça já começou a ratear: pois eu não ouvi tudo, quase 100 músicas, há mais de um mês?

Olho para a gata. A gata olha para mim. Eu não sabia o que ela fazia com tempo dela em tarde de dia de semana. Ela não entende o que eu faço aqui também em dia de semana. Perplexos e desconfiados, nos olhando de soslaio, vamos deixando o tempo escorrer (ah, meu nariz! Preciso de outro lenço. Um lençol!) até quase a hora do lanche.

Depressões beirando o suicídio nos cantos escuros do apartamento. Que são muitos. Ir de um quarto para outro, bem devagar, arrastando os pés e falando sozinho (não muito alto) é recomendável. Pensamentos deprimentes no lugar do xarope Fontoura.

Chove lá fora

Uma chegada na janela para ver o mundo normal lá fora. Chove, Tudo me leva à cama. Menos o sono. Como não dá para dormir, deito-me no sofá da sala e fico besteando de olhos fechados. Cama de tarde, em dia de semana, aborrece não só gatos como gente também.

Brinco com minha cabeça. Faço o que faço nas viagens mais longas de avião: vou “produzindo” álbuns de música popular, aqueles que muita gente boa gosta de chamar de “conceituais”.

Um álbum de 12 faixas só com a chuva como tema. Mole. Tito Madi ganhando disparado. Promessa, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy (“pedi pra chover...”), abre o lado B (em gripes, trabalho com vinil). Depois vou de nome de mulher. Brasileiras e americanas. De Nancy (com Orlando Silva) a Nancy (com Sinatra). Presentes Stella by starlight, Aurora e Cadê Mimi.

Meio sem notar, puxo um ronco. Ou caio no sono. "Have a kip", já que estou em terra de Inglaterra. Sim, é verdade, chove lá fora. Desafio gramáticas (por que não?) e chovo eu também.

Doente é um tipinho chato, metido a besta. Não. É besta mesmo. Merecem ficar sozinhos passando mal. Para aprender. O que, não sei, ninguém sabe. Isso tudo passará. Do jeito que estou me sentindo, quando digo “tudo” é “tudo” mesmo” que eu quero dizer.

Snif, Atchim. Snif.

 
 
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