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Atualizado às: 29 de outubro, 2007 - 09h18 GMT (07h18 Brasília)
 
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Troca-troca de horários
 
Ivan Lessa
Nunca entendi essa história de adiantar ou atrasar relógio. A dignidade do relógio, a trabalheira que deu aos homens de ciência chegarem a essa pequena mas indispensável peça de nosso vestuário – ou instrumento de trabalho e marcador de nossos passos trôpegos na Terra – sempre me pareceu violada quando, a uma certa altura do ano, os governos deste mundo, que afinal é de Deus e da ordem dos planetas em relação ao sol, resolvem que é para atrasar uma hora ou adiantar outra.

Por que duas? Por que não três? Quatro? Não sejam mesquinhos com as horas e nossas vidas por elas atravessadas e a elas atravessando.

Tem mais. Só vejo falar em horário de verão. Aqui, por estas bandas européias, até onde sei, na madrugada de sábado para domingo acabou o horário de verão. Isso em pleno outono. Aí no Brasil, vocês já vêm convivendo com as delícias do horário de verão. Pergunta: qual a diferença que faz um “horário de verão” no Nordeste do Brasil ou no sudeste da Nigéria? Resposta: nenhuma.

Nunca vi falarem de “horário de outono”, “horário de inverno”, “horário de primavera”. Afinal, são estações, dignas em sua maioria, algumas delas em várias partes do mundo com particularidades irreproduzíveis em outras.

No Brasil, houve uma época em que, ao menos no sul do país, dava para se usar suéter, acender uma lareira. Parece que o golpe de 64 (ou terá sido Jânio Quadros?) acabou com essas frescuras. Agora, mesmo de volta às instituições democráticas, aí está de novo o “horário de verão”. Para quê?

Lendas campestres

Até onde consegui pesquisar (Marco Aurélio, um mineiro que trabalha de garçom num restaurante barato em South Kensington, me garantiu, quando expus minha tese sobre a inutilidade dos horários de verão), trata-se de medida das mais inteligentes e úteis para os camponeses, aqueles que vivem de cuidar de carneiros e vaquinhas.

Os pescadores, mesmo em suas precárias jangadas, também lucram, explicou-me o Marco Aurélio. Segundo ele, o objetivo é que as camadas rurais melhor possam se aproveitar da luz do verão - dias mais longos - , quando os irracionais de que cuidam ficam mais alegres, mais brincalhões e, por conseqüência, mais tenros ao nosso paladar.

Ponderei que tudo isso ia por água abaixo, como em março nos morros do Rio e do Brasil, nas outras três estações do ano. Campônios e seus animais ficariam mais tempo no escuro e, por conseguinte, de pior humor: suas carnes mais duras, fibrosas, desagradáveis ao olhar e ao toque.

Fui mais longe (eu sempre vou mais longe) e argumentei que não havia nada de científico nisso, que era feito o mistério da aspirina ou a maldição do lobisomem. Lenda, enfim. Mentira, tudo mentira. Alguém, em alguma parte, deve estar ganhando uma nota preta acertando, de acordo com seu parecer e autoridade, os ponteiros tristes de nossas vidas.

Por falar em ponteiros

Duas vezes por ano, todo ano, é o mesmo inferno aqui em casa. Obcecado que sou, no outono começo no sábado à tarde a atrasar em uma hora todos os relógios existentes em nossa residência. Eles acabam oficialmente com o tal do horário de verão às duas da manhã. Um desatino.

Quem vai ficar esperando até as duas da manhã de um sábado para acertar (melhor dizendo, violentar) relógio, aqueles que marcam o tempo que Deus de colher de chá nos deu? Aliás, agorinha, espero que tenha sido atrasar e não adiantar.

Se não for, estou frito e nossa vida, até a da gata, vai virar de cabeça para o ar. Já contei: são nove relógios a atrasar em uma hora. Só dois se acertam sozinhos, graças à tecnologia de ponta: o da televisão e o do computador.

O resto é tudo na mão. No peito, na raça, na valentia e na minha lendária falta de jeito. O meu grande desafeto é o relógio do microondas. Para mudar as horas é calcar por três segundos num botão, para mudar os minutos em outro, os segundos num terceiro e mais umas três ou quatro operações complicadas.

Todos botões diferentes, todos difíceis de enxergar. E eu sempre aperto mais do que o número de vezes necessário e, na solidão e imensidão de nosso mundo, vejo-me só como um animal no campo em horário que é meu e só meu, sem uma vaquinha ou carneirinho do lado pastando e despastando.

Vamos ser honestos, vamos respeitar as leis do monoteísmo. Só há um horário no mundo inteiro. Esse que o seu e o meu Timex vagabundos (o meu custou 20 libras há 14 anos. Ou vice-versa) marcam. O resto é enganação. Basta um horário até chegar a hora de bater o derradeiro ponto.

 
 
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