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Atualizado às: 14 de novembro, 2007 - 08h30 GMT (06h30 Brasília)
 
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Um reino por um moto
 
Ivan Lessa
O novo governo do Reino Unido, liderado por Gordon Brown, escocês de nascimento, sotaque e aspecto geral, embora fale um inglês dos mais razoáveis, mostra-se disposto a uma inovação. Parece que estão em busca de um novo lema ou moto para as ilhas.

Quando governo procura moto, lema ou senha é sempre sinal de que as coisas estão mais para lá do que para cá. Para lá de Bagdá, seria a pilhéria sem jeito de um britânico a par de nossos bordões antigos.

O governo acha, ao que parece, que um moto (fiquemos nisso) seria uma boa solução para a atual cacofonia que se ouve mesmo distante das bandas roqueiras. Mil pessoas serão consultadas a respeito. Querem sugestões.

O Times correu na frente e pediu ao distinto público leitor uns palpites. Estão chegando e sendo publicados.

Leitor também é gente

Pelo menos é o que dizem. Tanto que estão chegando aos borbotões à redação e ao sítio na rede do tradicional e algo conservador jornal, que, de vez em quando, chega-se à plebe rude e enfrenta as coisas pelo viés do bom humor (Sempre quis usar a palavra “viés”. Sou grato a Gordon Brown e toda a redação do Times).

Em editorial, na segunda-feira, o jornal sugere que, até agora, não surgiu nada de empolgante, nada que sequer tangesse as cordas vibrantes da unidade e do patriotismo.

Queixa-se o editorialista de que muitos concorrentes, embora ninguém tenha falado em prêmio, estão indo firmes de anticlímax e falta de graça, em seu mais amplo sentido. E exemplificam. “Muita bondade sua”, traduzo eu, com impudente liberdade, o “That´s really most awfully kind”, que ouvi a minha vida inteira nestas paragens, nunca achando graça mas beirando o comovido.

O editorial prossegue queixando-se de outra sugestão. “Pedimos desculpas por qualquer inconveniência”. É verdade. Não digo como lema de um país, mas há cada vez mais inconveniências soltas por aí, mas, ao menos, pedem desculpas. Retrata um dos aspectos britânicos, mas nada enaltecem. Lema é para enaltecer.

Recordar é mais ou menos viver

Vejam o Brasil. Mas vejam mesmo. Parem de falar mal. Olhem esse petróleo jorrando como água de nossas águas. Olhem essas fontes murmurantes. Esses coqueiros que dão coco, e mais sua água interna, que o compositor, distraído, esqueceu, o que é imperdoável, de mencionar em seus versos comovidos.

Quantos motos roncando a pedir vida, quantas senhas aguardando a hora de virar passe, quantos lemas prestes a se tornarem nome de bairro ou mesmo estátua, conforme é moda?

Alguém se lembra do que já passamos e por cima de nós foi passado? Ninguém me diz nada do “Conosco ninguém podemos”? “Deus é brasileiro”? “Brasil em tempo grande”? “O petróleo é nosso”? “Brasil: ame-o ou deixe-o”? O simples “Viva o Brasil!” de cada dia e hora, com ou sem milico no poder?

Basta de interrogações. Vocês confessarão tudo. Diminuirei a voltagem. Retirarei os aparelhinhos em formato de boca de jacaré dos órgãos genitais gerais. Basta de recordar. O Brasil é o país do futuro.

De volta à Grã-Bretanha

O Times queixa-se de que, até agora, não surgiu nada à altura do Per ardua ad astra (Pelo trabalho ruma aos astros) da RAF, a Real Força Aérea, ou o garboso e eloqüente Quocunque jeceris stabit da Ilha de Man (não se referir a ela jamais como a Ilha do Homem, do Ómi, ou dos Ómi), que quer dizer, em latim vulgar, que permanecerá de pé não importa o que joguem nele ou nela.

Vejam só. Não é que funcionou? Ninguém jamais, nunca, em tempo algum, pensou em jogar qualquer coisa em Man.

Não vale também o deboche, a auto-flagelação, por mais verdadeira que esta seja, tal como Na América confiamos, graciosa gozação com o In God we trust dos americanos. Essa é pra lá de… mas eu já ia me repetir, não é mesmo?

O jornal, e eu do meu estrangeiro canto, sugiro que escolham o coloquial mas não muito. Nada de abocanhar as sandices berradas por torcidas de futebol (“Manda brasa, Rooney!”), ou mesmo de tênis, esporte bem mais nobre: “Pau neles, Tim Henman!”.

Não, não. Posso não estar com o leitor que, algo em amarelo canarinho e tons de azul, surgiu com “Já somos Grande não precisamos de motos.” Pouco inventivo e fanfarrão jogo de palavras com Grã-Bretanha, para quem não sabia o que quer dizer Grã. (Minha condescendência não vem ao caso. Pelo menos o atual.) Estou mais para as bandas do leitor que enviou a seguinte sugestão: “Somos britânicos, não lidamos com motos”.

Vroom… vroom…

 
 
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