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Atualizado às: 04 de janeiro, 2008 - 08h03 GMT (06h03 Brasília)
 
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Arte? Uma piada
 
Ivan Lessa
A galeria Hayward, para comemorar o ano que apenas se inicia, e já chegou de cara amarrada, deverá abrir suas portas em fevereiro para uma das coisas mais difíceis do mundo: arte com humor.

Nome da empreitada: Rindo em Língua Estrangeira. Em inglês, seria duro. Depois de Bernard Shaw e Oscar Wilde ninguém mais fez humor voluntário, e com arte, aqui por estas ilhas.

Tiveram que recorrer à globalização que faz fila todos os dias nas alfândegas do Reino Unido.

Arte sozinha já é barra. Acompanhada de humor, vou te contar. Imaginem polonês ou paquistanês contando piada de papagaio ou de fanho. Pois é.

Mas para os fariseus, entre os quais vou logo me incluindo, toda arte moderna é uma piada (no pior sentido).

Esse sentimento vem acompanhado da invariável observação: “Isso eu faria com os pés”. Ou então: “Meu filho de quatro anos faria melhor”.

Não vou entrar no mérito da questão. Não tenho as credenciais necessárias. Afinal de contas, eu sou aquele que, no Louvre, praticamente rolou no chão de tanto rir diante de lugares-comuns feito a Mona Lisa.

Degas e Matisse? Quá, quá, quá. O Museu Picasso me provocou frouxos de riso (sim, sou uma das últimas pessoas vivas a tê-los) como o Woody Allen de sua melhor fase.

Problema, se problema é, mais simples não pode ser: não tenho sensibilidade para as artes pictóricas. A não ser no caso daquelas estátuas de cronistas sociais que espalharam pela Zona Sul do Rio.

Felizmente, não venho ao caso. Não ser ou vir ao caso, conforme entendi, é o que o mundo, e aqueles que o habitam, acham e esperam de mim. Limito-me a passar os olhos nos jornais e copiar aquilo que por um motivo ou outro me chamou a atenção.

A arte do riso

Quem for hoje mesmo à Hayward, na margem esquerda do Tâmisa, agora que a turistália voltou para seus modestos países, encontrará numa das paredes o que pode ou não ser chamado daquilo que os entendidos entendem como “uma instalação”.

Trata-se da Joke Master Júnior Joke Box 2 (absolutamente intraduzível), do norte-americano Doug Fishbone.

Trata-se de uma cara de palhaço com a bocarra aberta onde os visitantes em busca da experiência transcendental da arte podem deixar, num papelzinho, suas piadas prediletas.

Feito aqueles biscoitinhos que, nos restaurantes chineses, vêm com a conta depois da refeição e, uma vez quebrados, revelam uma frase nunca hilariante ou profunda mas perfeitamente adequadas depois de algumas cumbuquinhas de dim sum e um bom prato de Singapore Noodles, tudo acompanhado de chá preto gunpowder e nunca, jamais, em tempo algum, vinho branco, tinto ou rosé.

Deixemos a mesa de nosso china-pau favorito e voltemos à ala onde se encontra o palhaço-instalação de Fishbone.

Se o visitante, de bom ou mau humor, der um murro no gordo nariz vermelho da figurinha, ela expelirá via oral (sim, podia ser pior) um papelzinho com uma gracinha.

Graça, aliás, secundária. O importante é que a chiste faz parte do repertório favorito do artista americano.

Um exemplo: você conhece aquela do psíquico que fugiu da prisão? Os jornais deram a notícia com a manchete “Pequeno médium à solta”. Pegaram? Em inglês, "medium" tem dois significados: mediano, isto é de estatura média, e, claro, nosso médium, ou espírita. Não é impagável?

De qualquer forma, o importante não é ser tão engraçado quanto quadro pendurado em parede do Louvre em Paris. O importante é o gesto criativo, aquela noção lúdica que se instala e é passada adiante num museu.

E mais, muito mais

A exposição contará com as obras, ou anedotário, e ainda outras brincadeiras jocosas, de mais de 30 países representados por 80 artistas em estado hilário.

Vale vídeo e fotografia além das inevitáveis instalações. Vídeo do Gordo e do Magro ou Carlitos, não vale. Isso porque são impagáveis e nunca que na vida pensaram estar fazendo arte, apenas queriam que se risse com eles ou deles.

Mesmo uma fotografia dos Irmãos Marx tem a entrada vedada: até paradões são de morrer de rir.

O diretor da prestigiosa (todo museu ou galeria de arte é “prestigiosa” ou “prestigioso”) galeria, Ralph Rugoff, procurado pela reportagem dos outros (nunca a minha, que eu não as tenho nem sei fazer) disse o seguinte:

“O riso é universal. Algo com que pessoas de qualquer cultura podem se relacionar. O humor, no entanto, é socialmente específico.”

O que constitui uma das declarações de diretor de museu mais engraçadas que eu já ouvi em minha vida.

“Riso universal”. “Pessoas de qualquer cultura”. “Se relacionar” (por que não “se identificar” logo de uma vez, que é para botar pra quebrar). “Humor socialmente específico”.

A instalação verbal do cavalheiro bate de pau no melhor James Thurber e Robert Benchley, para citar dois humoristas americanos como o Fishbone, mas que saíram de moda e ninguém, dentro ou fora de uma galeria de arte, sabe direito, ou mesmo errado, quem eram e o que fizeram.

Conclusão 2008

Uma das minhas resoluções de ano novo é de tudo tirar uma conclusão. Desta forma, tentarei encapsular as mais complicadas ou sórdidas empreitadas humanas.

Do esquema “artístico”, que ronda e ameaça toda a cidade de Londres e seus arredores, inauguro a seguinte bem humorada jocosidade, pedindo emprestada, com a devida vênia, a frase-arte de Barthélémy Toguo, da República dos Camarões, participante exponencial da festividade criativa em questão e cuja contribuição deverá ser posta à venda pela Galeria Hayward no decorrer da exposição:

“Quem engole um coco confia em seu próprio ânus”.

 
 
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