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Atualizado às: 23 de janeiro, 2008 - 11h12 GMT (09h12 Brasília)
 
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Meu nome é ninguém
 
Ivan Lessa
Tinha um baiãozinho legal do Catulo de Paula que o próprio cantava nos anos 50 na boate Cangaceiro, logo ali, companheiro, na Fernando Mendes, Copacabana, do outro lado do Au Bon Gourmet. Vocês fingem que não, mas lembram, sim. Da boate, do bom Catulo, talvez até da música. Ela dizia assim:

"Depois dos bebum que tinha
Ainda tava chegando mais,
Chegando mais, chegando mais…"

No frio do papel, no gelo da tela do computador, não diz muito, mas acreditem em mim: era “pegajoso”, você ouvia, bebia, ia para casa, sozinho ou acompanhado, e, lá dentro da cachola, uma voz nordestina repetia cantarolando: “chegando mais, chegando mais…”

Chegou mais um

Acabo de completar, agora mesmo, no domingo dia 20, 30 anos de enfiada aqui em Londres, onde eu olho em torno, confiro ou, como aí, esqueço de todas as mudanças e só umas poucas coisas registram sua novidade.

Uma delas, além do serviço de metrô ter melhorado e o de saúde pública piorado, é o de que os imigrantes continuam chegando (feito em 1978, cheguei eu.)

Chegando mais, chegando mais. Do leste europeu, com menos visibilidade e mais sentidos no ouvido, prestando-se alguma atenção nos operários de pele muita clara a caminho ou vindo do trabalho.

Das arábias, em todas as partes da cidade. Do Brasil, se você passar diante de uma biboca onde, ao lado da invariável lábaro estrelado estendido na vitrina, você poderá mandar o dinheiro que quiser para quem bem entender a preços mais que razoáveis. Ponto e um parágrafo para minha perplexidade.

Ora, pois, pois. Quer dizer então que há entre 150 e 160 mil brasileiros em ação nesta cidade, segundo estimativas fidedignas. Brasileiros legais e ilegais. A maior parte deles, conforme fiquei sabendo através de uma excelente reportagem publicada aqui mesmo, na BBC Brasil, trabalha, ou dá duríssimo, em serviços de limpeza.

Meu senhor do Bonfim, como dizem os mineiros, onde é que essa gente encontra jeito de viver, comer e ainda economizar para mandar uns cobres para o pessoal que ficou?

Os brasileiros são misteriosos como aquele cavalo que o Paulinho Mendes Campos, num poema célebre, flagrou à noite comendo uma flor.

Indo em frente

Passo a outros migrantes, entre os quais me incluo, não com orgulho mas com o sentimento tépido da realidade dos fatos. Segundo consta, os que aqui chegam, para ficar, ou passar uns tempos em situação de labor, estão adotando nomes britânicos comuns para evitar a possibilidade de uma discriminação.

Ou simplesmente por má pronúncia, quando regularizam sua situação com as autoridades, ou ainda, no caso de ilegalidade, quando se apresentam para desentupir uma pia ou instalar uma máquina de lavar roupa.

Os nomes árabes, que os há em profusão arabesca, talvez sejam os que mais passem pelo processo de rebatizado a seco.O que há de Karim e Mohammad (louvado seja seu nome) virando Kevin e Michael não está no gibi. Ou melhor, está, estão, sim senhor.

Os indianos com sobrenome de Shital (que pode puxar pelo pior dos humores britânicos) viraram todos Smith, como num passe de mágica, ou num esfregar de lâmpada de Aladim.

Chineses? Fazem questão de manter os sobrenomes, mas rebatem com prenomes como John, Jason e Sue. Vi num jornal que um refugiado do Uzbesquistão chamado Avlar Jon Akherov acabou virando Adrian Barry Roberts. Na mesma reportagem, constava o caso de uma polonesa com um sobrenome de 18 letras que optou por uma brevidade típica destas ilhas: Hall.

A lista dos adaptados

Além dos já citados, aí vão alguns nomes bastante alterados, uma vez que seus portadores puseram os pés no Reino Unido, conforme pesquisas (ai, as pesquisas!) supostamente abalizadas: tem um Musamma que virou Ryan.

Tem um Abdullah Elfayoumi que virou Abdullah O'Fayoumi (não sei se adquiriu hábitos ou sotaque irlandês). Tem um Guang que virou Edward. Tem um Sergei que virou Benedict. Tem um Cakiqi que virou Reid. Tem um Carlos de Sousa (olá, Carlos de Sousa!) que virou Temple Tobins. Tem uma Awela que virou Evelyn. Tem um Aliaksei Vikhrou que virou Alex Vickrow.

Carlos de Sousa, ou Temple Tobins: sou seu admirador. Por favor, entre em contato comigo para troca de idiossincrasias.

Conclusão

Ivan é João em russo. Não troquei no Brasil. Não trocarei por John aqui e agora.

 
 
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