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Atualizado às: 25 de janeiro, 2008 - 07h52 GMT (05h52 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Luz de Inverno
 
Ivan Lessa
"A chuva, a neblina e os ventos continuam a desempenhar seu papel habitual no tempo de janeiro, mas temos sempre o momento ocasional de compensação graças à luz de inverno, a mais límpida e bela do ano inteiro. O ar seco e o sol brilhando manso e baixinho no céu se combinam para criar uma claridade aquém do verão, cujo calor e umidade embaçam seu brilho e empanam seus efeitos.

A luz de inverno pode ser enganosa, no sentido de que a aparência quase que Mediterrânea que empresta à paisagem logo é traída no momento em que se põe o pé na rua e sente-se o frio a nos bicar a pele. No entanto, as condições límpidas da estação em geral coincidem com uma calma das mais raras.

Não é por nada que esta época era chamada por aqueles gregos, criadores de tantos mitos, de 'dias de Halcyon', ou seja, um tempo de calma e prosperidade, já que o mar se mostrava tão sereno que os pássaros, conhecidos como alciões, nele podiam até mesmo fazer seus ninhos.

Já mais recentemente, a poetisa norte-americana Emily Dickinson escreveu versos que mencionavam 'uma certa inclinação na luz das tardes de inverno', cuja súbita claridade trazia ao mundo uma certa pausa ('Quando chega, a paisagem ouve, / as sombras prendem sua respiração'), ao passo que o cineasta recentemente falecido, Ingmar Bergman, escolheu a frase 'Luz de Inverno' para o título de seu filme predileto.

Tanto um quanto outro, Dickinson e Bergman, invocaram o beleza natural e espontânea destes dias para criar obras-primas de reflexão a respeito das realidades por vezes impiedosas da condição humana. De forma mais modesta, nós todos podemos fazer o mesmo. Não há nada como uma tarde de inverno, com o sol manso no poente, para nos mostrar quanta poeira se acumulou sobre nossos móveis, quantas impurezas nos vidros de nossas janelas. Depois da luz de inverno, é claro, vêm os dias de primavera – época de limpeza."

Hein?

As linhas acima foram traduzidas, mal e porcamente por mim, de um editorial, o terceiro, do jornal que leio todos os dias, The Guardian. Trata-se de uma velha tradição britânica (mais uma) de, na página dos editoriais, que são quase sempre três, fazer do terceiro algo mais leve, às vezes brincalhão, às vezes propositadamente leviano.

O tom e o tema variam. O que eu me dispus a reproduzir lembra, no original, não na minha paupérrima versão, um daqueles itens que há mais de 80 anos abrem a sofisticada revista americana The New Yorker, na seção "The Talk of The Town".

Acho reconfortante encontrar palavras amenas, às vezes doces mesmo, ou até brincalhonas, entre os habituais e infelizmente necessários editoriais sobre os dramáticos precipícios que nos cercam as vidas. Pouco importa que seja nas bolsas de valores, nos conflitos na África ou Oriente Médio, na falta de segurança dos parques e jardins das grandes cidades, nos índices de criminalidade, na desonestidade de políticos.

Muito bem, que venham as bombas, que a retórica demagógica nos arrebente os ouvidos, que se roube, que se mate, que se esfole: a vida está cada vez mais difícil, é duro e perigoso viver. Tudo de ruim nos ronda e ameaça nossa segurança, nosso conforto e de nossos entes queridos.

Parece que é assim mesmo. Necessário é, no entanto, em meio aos horrores habituais, encontrar uma pequena, mas valiosa pausa. Algo, por poucas linhas que tenha, que ao menos tente nos conter em nosso desespero. Noticiem infaustos acontecimentos, mas vamos, um dia ou outro, parar para ver, e louvar – o quê? – um solzinho muito do frouxo, que seja.

O terceiro editorial

O costume é comum também nos jornais norte-americanos. Não sei nem vou tentar me informar sobre quem chegou lá primeiro. Chamam de “third leader”, o terceiro editorial. Longa vida a ele, que a nossa é curta.

Há dias em que só os leio, uma vez que as demoniacamente complicadas palavras cruzadas inglesas, eu nunca consegui dominar ou com elas pegar a mais platônica intimidade. As tiras em quadrinhos? Não me dizem mais nada. Já disseram. Hoje estão mudas como os amigos que passaram ou se foram. Zé do Boné indeed.

Conclusão

Seria bom se pudéssemos editar nossas vidas em tempo de terceiro editorial, ignorando os dois primeiros. Pelo menos na hora de jornal aberto. Viver dia após dia? Sem nada ou ninguém para nos editar? Em terceiro tempo? Duro, muito duro.

 
 
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