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Atualizado às: 01 de fevereiro, 2008 - 08h43 GMT (06h43 Brasília)
 
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Carnavália
 
Ivan Lessa
A última marchinha que cantei foi aquela do diabo. Uma que eu ensinei à Narinha Leão e, infelizmente, apesar de minha insistência, ela não chegou a gravar, embora tenha apreciado o engenho, a arte e a malícia empregados em sua confecção.

Assim dizia a tal marchinha que cantarolei para a cantora às vésperas do carnaval de 1965, nas areias então sem quiosque de Ipanema:

“Eu este ano vou sair de diabo
Só falta o rabo, só falta o rabo (bis)
Já botei meu anúncio no jornal
Precisa-se de um rabo pra brincar o carnaval.”

Não minto, apesar de ser brasileiro e me encontrar em época de – arram! -- tríduo momesco. A marchinha existe, não sei quem gravou e eu a considero mais animada e poética do que O teu cabelo não nega, do Lamartine Babo.

Saí, saímos todos – eu, Danuza e Narinha, mais uma francesa de férias no Rio, a Josée, coitada – de índios. Fantasias preparadas com esmero pelas referidas moças fazendo uso apenas de material adquirido num armarinho da praça General Osório (Onde estão os armarinhos de outrora?). Fomos a um baile só, o de sábado, no Copacabana.

Era uma época em que carnaval ainda se brincava, ou se pulava (“Onde é que você pulou no domingo?”). Nos bailes, claro. Sobrara um quase nada de blocos na avenida. Já tinham ido para a proverbial cucuia juntamente com os banhos de mar à fantasia, entrudos e préstitos (como eram feiosos e tristes, Senhor!). Os bailes, não muitos, continuavam.

Pena que pouquíssimas pessoas saíssem de diabo. Diabo com rabo.

Carnaval 2008 em Londres

Não. Não tem. Os ingleses não brincam carnaval. Os ingleses não pulam carnaval. Também se fantasiam pouquíssimo. Principalmente de diabo. Não botam anúncio no jornal. Não precisam procurar um rabo.

Eles ficam por aí, zanzando, fingindo serem britânicos. O fingimento é o equivalente do “Pirata Rico” e “Catedral Submersa” nos bailes que metaforicamente freqüentam o ano inteiro. Ou, o que está mais na moda, sendo imigrantes legais e ilegais: indianos, paquistaneses, bengaleses, poloneses, estas suas fantasias. Com elas, como nos anos 30, viram-se para os passantes, ou ficantes, e fazem a pergunta que já foi clássica: “Você me conhece?”
Ser estrangeiro é uma espécie de máscara que jamais se arranca da face. Ou da alma.

Brasil 2008 também em Londres

A colônia brasileira comemora o evento. Não tenho a menor idéia como. Não quero saber. Tenho medo de me chatear. Nós brasileiros somos estranhos. Mesmo sem fantasia de diabo, mesmo sem rabo.

Se ao menos houvesse lança-perfume para se comprar nessas mil bibocas que as várias luxuosas revistas para expatriados anunciam em suas ricas páginas impressas em papel couché. Mas não. É anúncio de loja para se mandar dinheiro para o Brasil, restaurantes e esoterismos pseudo-religiosos. Não oferecem confete, serpentina ou xarope de groselha (excelente para qualquer festejo, seja ou não de Momo).

Minha hora da saudade

Eu vou botar meu anúncio não num jornal mas sim numa dessas revistas. Precisa-se de um rabo pra brincar o carnaval. Já me vejo: fantasiado de diabo, todo vermelho, chifre, malha justíssima, o longo rabo dobrado e aninhado no colo, como rubra serpente adormecida, vendo DVDs alemães e franceses alugados a preço de ocasião e sendo, ao mesmo tempo, enigmático, instigante e qualificado entre os finalistas do concurso de fantasias, categoria originalidade. Uma espécie de Clóvis Bornay de nos jours, conforme o próprio diria.

Gostaria também, se possível fosse, de sair assim na revista que vai para as bancas na quarta-feira de cinzas. Numa página par, eu, de diabo com rabo e tudo, em meu estúdio, vendo com a maior atenção qualquer film dirigido pelo Michael Haneke (Caché, por exemplo), enquanto na outra página, a ímpar, como nos velhos tempos de O Cruzeiro e Manchete, um cafajeste carrega nos ombros uma mulher boazuda, mordendo uma de suas coxas gordotas só para “fazer farol” (conforme se dizia) para as objetivas dos fotógrafos presentes às festividades de Baco.

Conclusão

Vão caindo serpentinas, umas grossas, outras finas.

 
 
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