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Atualizado às: 11 de fevereiro, 2008 - 09h15 GMT (07h15 Brasília)
 
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Mim Cheetah
 
Ivan Lessa
Sou um homem de letras. Sou também um comunicador. Sou, portanto, um indivíduo midiático. Por estes três motivos procuro me manter informado.
Creio que minha iniciação nos meios de comunicação começou muito antes da publicação dos escritos do pensador canadense Marshall MacLuhan. O meio era a mensagem. Eu vivia a frase cunhada por MacLuhan e não sabia.

Cinema e histórias em quadrinhos, lá pelos anos 40, eram o culto de minha devoção. No cinema, as mensagens vinham em baixo e mau som (ah, os cinemas brasileiros de então!).

Mesmo assim, lá da terceira ou quarta fila do poeira, eu me deslumbrava com os americanos legendados na tela. Os filmes em série, as comédias, os thrillers, tudo me encantava. Creio que até mesmo os jornais nacionais e internacionais capturavam toda minha atenção, povoavam a imaginação e a imensa solidão dos jovens.

Favoritismos

Eu era vidrado em filmes em série e, em longa-metragem, os de Tarzan. Seriados favoritos? Pois não, já digo, mesmo sabendo que ninguém saberá do que estou falando. O Terror dos Espiões, O Comando Negro e o Capitão Marvel. Nunca mais os vi. Não saíram em DVD, que eu saiba, mas, no YouTube, volta e meia eu dou um passeio pelo passado e cato lá pequenos clips (por que chamar de “post”?) desses mencionados e muitos outros.

Depois dos jornais cinematográficos, dos trailers, do documentário e do desenho animado, chegava enfim a hora da principal atração, invariavelmente atraente quando se tem 10 anos ou por aí.

Abro um pequeno parágrafo para confessar, e me desculpar junto à vasta legião dos curtidores do gênero, que os filmes de “faroeste”, de curta ou longa duração, não me entusiasmavam. Perdão, Ringo. Perdão, Django.
Mas atenção que o filme vai começar.

Eu era doido por filme de Tarzan. Tarzan com Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan (só Brenda Joyce a equiparou como Jane) e o chimpanzé Cheetah, que eu nunca consegui escrever, ou pensar, em termos escritos, como Chita ou Xita. Era Cheetah mesmo, com vogal repetida e terminando em agá. De nada me interessavam os Tarzans de Elmo Lincoln, Herman Bix e outros que antecederam Weissmuller. Nem os que o sucederam: Jock Mahoney, Lex Barker, Mike Henry – e já nem quero mais sequer pensar nisso.

- Mim Johnny Weissmuller.
- Mim Ivan Lessa.

Entendíamo-nos.

Felizes, eles lá na casa construída no alto de uma árvore na África, e eu, num apartamento de décimo andar da avenida Atlântica.

Meu assunto hoje, no entanto, é a Cheetah, que sempre encerrava os filmes com uma arte, pondo todos a rir: Tarzan, Jane e, mais tarde, Boy, o ator Johnny Sheffield, que, alguns anos depois, mais taludo, acabou fazendo seus filmes de produção B como Bomba, uma cópia pálida de Tarzan. Bomba talvez fosse mais, ou menos que produção B. Produção C, talvez.

Bomba era filho do alfaiate, conforme reza o sambinha, e nenhum parentesco com os pais da outra série de filmes. Não pegou, tem um “post” único no YouTube, só eu e mais um tipo estranho nos lembramos.
A vida é triste e não acaba com a Cheetah dando uma cambalhota para trás, arreganhando os dentes e divertindo a todos com uma tentativa frustrada de, digamos, quebrar um coco.

A realidade vai começar

Saia-se do cinema e a dura realidade da praia, dos picolés e das peladas, para ficar apenas nas aliterações cabíveis, nos invadia as alminhas, debaixo daquele sol todo, ao lado de tanta areia, à beira do vasto marzão. Não sabia então, mal quero saber hoje, que Johnny Weissmuller, Margaret O'Sullivan, Brenda Joyce e Johnny Sheffield há muito partiram desta vida, descontentes ou contentes.

Uma surpresa, no entanto.

Cheetah vive e acaba de publicar sua biografia.
Meu queixo caiu, meus olhos se arregalaram, quase que eu caio para trás e outros lugares-comuns se me acometeram. Cheetah lives! Direitinho o título de um filme.

Vamos aos fatos, que, coisa rara, desta vez não são de todo insuportáveis. Claro que a vida de Cheetah foi escrita por aquilo, ou aquele que, no metiê, é conhecido como ghostwriter (daria um bom super-herói de filme em série): um escritor fantasma, alguém que bota no papel as palavras de seja lá quem for o analfabeto.

O nome do livro é, evidentemente, Me Cheetah. Segurem-se para um tsunami de surpresas. Cheetah é macho e não fêmea. Seu nome verdadeiro é Jiggs, que, para quem manja de história em quadrinhos, feito eu, era o nome original do Pafúncio, da Marocas, da tira e página “Vida Apertada”, para quem sabe, ou não sabe (ficou sabendo) do que estou falando.

Cheetah, ou Jiggs, não só está viva, ou vivo, como já completou 75 anos, sendo natural da Libéria, e consta do Livro Guinness de Recordes como o mais velho primata em existência.

Cheetah foi capturada em 1932, expressamente para o primeiro filme de Tarzan do Weissmuller, por Tony Gentry, um treinador de animais em Hollywood, que, homem estranho como um gorila branco (Nabonga. Alguém viu?), deixou estipulado em seu testamento que, quando ele batesse as botas, deveriam bater as botas também do talentoso símio em questão. Botas de Gentry batidas em 1991.Felizmente, seu pedido não foi atendido.

A graça final

Cheetah, ou Jiggs, ou ainda Pafúncio, tem um neto, Jeeter, seu único descendente. Mora em Palm Springs, na Califórnia. Seu último filme foi aquele tremendo fracasso de bilheteria, Doutor Doolittle, com o pobre do Rex Harrison.
Em sua aposentadoria, Cheetah/Jiggs passou a dedicar-se à pintura, pertencendo assim à escola que se convencionou chamar de “apeism”, que poderíamos, ou eu posso, traduzir por “macaquice”. Suas obras estão à venda online, e toda renda, assim como da biografia, irá para a caridade. Googleiem, comprem.

Ah, sim. Cheetah/Jiggs gosta de tocar um pianinho e ver televisão, principalmente desenhos animados e documentários sobre animais selvagens.

Conclusão

Não sei se já mostraram algum de seus velhos filmes para Cheetah/Jiggs. Talvez se encabule de se ver tão jovem, e ainda mais “moça”. O livro foi publicado pela Editora Nicholas Pearson e a Amazon garante que meu exemplar já está a caminho.

 
 
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