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Atualizado às: 13 de fevereiro, 2008 - 08h52 GMT (06h52 Brasília)
 
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Esporte das multidinhas
 
Ivan Lessa
Muito difícil você dar de cara com uma bala perdida aqui em Londres. As que tiveram que se mandar, encontram geralmente o endereço do destinatário.

De perdido mesmo, um casal que quer saber o caminho do museu. Deles não tenho medo.

A coisa agora parece que vai mudar de figura. Assim como nós tiramos do currículo escolar o inglês, o francês, o latim e, acho, até mesmo o português, os ingleses fazem exatamente o contrário: acrescentam.

Nem sempre o mais indicado. Acabo de ser informado que há um grande número de escolas e colégios introduzindo o tiro ao alvo como matéria. Não sei se há exame de pontaria para passar de ano.

Também não consegui descobrir se no jardim-de-infância vai ter bangue-bangue. Possível, e mais apropriado, que fiquem apenas apontando os dedinhos um para os outros e fazendo o detonar da bala com a boca. Tadinhos. São analfabetos.

A coisa não foi bolação dos próprios alunos. Absolutamente. Partiu dos ministérios britânicos que, em 2007, deram em alto e bom som (Bam!) seu sinal verde para o que chamam de “esporte”.

Para justificar, citam os Jogos Olímpicos, que incluem o tiro ao alvo como competição oficial. Tudo para se ir ao pódio e pegar uma medalhinha de ouro, confere, ingleses, já que nos 200 metros rasos nem pensar, né mesmo?

Idade da razão e da mira

Parece que querem estabelecer os 16 anos para a iniciação acadêmica nos exercícios. Uma academia, a ser inaugurada em Bristol, deverá ser o primeiro dos locais de ensino patrocinados pelo governo a contar com um campo de tiro ao alvo.

E o alvo? Pois é. Rifle, fuzil, carabina, revólver, tudo isso exige um alvo. Não adianta olhar para mim que eu não topo. Até onde pude pesquisar, os alvos vão ser aqueles tediosos de sempre: um círculo dentro de um círculo etc. e tal e a bala, ou seja lá o que for, que chegar mais perto do centro, ou idealmente no próprio centro, será a vencedora, com direito a um urso de pelúcia ou uma garrafa de vinho vagabundo de framboesa, como nas feiras de diversões locais.

Desde o anúncio da nova matéria, houve um aumento de 6% no número de inscrições nos estabelecimentos de ensino que oferecem arma, munição e campo de tiro com alvo inanimado.

Aguardem para breve, avisam os mais precavidos, ou pessimistas, se preferirem chamá-los assim, aguardem para breve um surto daquela modalidade americana que goza, no país-irmão, de imensa popularidade: o dia em que um garotão se invoca, arma-se da cabeça aos pés e vai para o colégio dar uma “estudada” legal à bala nos professores, colegas ou quem estiver nas imediações. Todo mês com R tem uma dessas chacinas. Que em geral acabam com o rapazola enfiando o rifle, ou que for, na boca e estourando os miolos.

Uma retificação

Por falar em estourar os miolos, foi o que me deu vontade de fazer esta semana mesmo depois de receber dois educados bilhetes eletrônicos de leitores amigos (o outro, meu terceiro leitor, se fechou em copas, não sei porquê) apontando para um erro de julgamento meu. Trata-se dos dotes profissionais do baterista Ringo Starr.

Eu debochei dizendo que ele era o pior baterista do mundo, chamei de narigudo, pintei o diabo, enfim, com o ex-Beatle. Pois errei. Redondamente, quadradamente.

Fui informado pelos distintos que ele é um dos expoentes máximos do instrumento que escolheu para tocar. Eu já sei o motivo de meu erro imperdoável: li em qualquer parte palavras debochadas de John Lennon a respeito dos méritos do liverpudliano Rei do Ritmo e do Nariz.

Quem manda eu acreditar em palavras daquele que foi o pior letrista e músico da era do “roquendirôu”. Não foi por nada que aquele leitor do J.D. Salinger mandou-lhe bala e estourou-lhe os miolos. Deve ter se formado com distinção na matéria tiro-ao-alvo, o Mark Chapman.

Enfim, viremos essa página, viremos esse canhão para lá, Pernambuco, que você é meu, conforme cantou, e muito bem, Jorge Veiga, o Caricaturista do Samba.

Voltando à vaca fria

Defensores da nova modalidade a ser ensinada, o lidar com armas de longo e pequeno alcance, grosso e modesto calibre, afirmam que se trata de um esporte que exige daqueles que o praticam respeito ao próximo, controle, calma e concentração.

Acrescentam os mesmos educadores que os professores de outras matérias que não o tiro ao alvo – matérias como o latim e a álgebra – notaram uma sensível melhora no aproveitamento acadêmico dos alunos que praticavam a remessa ultra-expressa de balas nos alvos, moventes ou estáticos.

O esquema de ensinar a atirar e lidar com todos os tipos mais adiantados de armas deverá ser adotado ainda pelas escoteiras do país, além dos cadetes, como é natural.

Conclusão

São 1.360.800 o número de rifles e carabinas legais no Reino Unido. 200 mil, no mínimo, o número de armas ilegais, embora haja uma turma que jura que a coisa é mais lá por volta dos 4 milhões. 10.182 crimes foram registrados pela polícia até setembro do ano passado. 4.284 dessas transgressões envolvem armas de pequeno porte.

Isso quer dizer que dar um rifle, fuzil ou carabina para o garotão ou a garotona, assim que estes completarem 16 anos, tudo bem, tudo azul com bolinhas cor-de-rosa. Mandem bala.

 
 
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