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Atualizado às: 22 de fevereiro, 2008 - 09h08 GMT (06h08 Brasília)
 
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Todo mundo nu!
 

 
 
Ivan Lessa
Nas festinhas de outrora, mas muito outrora mesmo, tinha sempre um engraçadinho que dava o grito:

- Todo mundo nu!

Nunca ninguém ficou nu. O engraçadinho ficou. Uma vez só. Foi expulso e nunca mais voltamos a convidá-lo para o que chamávamos então de thé dansant, embora não houvesse chá e fosse de noite. Agora, que se dançava, ah isso se dançava, sim senhor. Música americana, que jovens e ignorantes chamávamos de fox-blue, muito bolero e samba-canção.

Sim, houve festinha em que, na privacidade de um quarto, andou, por assim dizer, gente nua. Não vou falar nisso agora. Não é nem a hora nem o lugar.

As pessoas nuas estavam nas revistas naturistas importadas que alguns dos rapazes compravam para apurar seus instintos estéticos. Pelo menos é o que diziam. Nudista mesmo, nunca vimos um. Ao menos em carne e osso. Exibicionista é outro papo. Mesmo com o passar dos anos e a chegada da esperada (e logo decepcionante) maturidade, nunca vimos um nudista em pelada pessoa.

Deve ter sido melhor assim. Afinal de conta não éramos comunistas alemães.

Comunistas alemães! E nus!

O comunismo, tido e havido como prática exótica, provou sê-lo nas décadas em que foi adotado pela ex-República Democrática Alemã, se é que estão lembrados dela. Nunca ninguém se deu ao trabalho de explicar o fenômeno de sua popularidade entre os seguidores dos ensinamentos de Marx e Lênin.

Infelizmente, nem Gramsci ou Hannah Arendt se encontram entre nós para jogar uma luz nesse história. História. É sabido fato histórico que, nos tempos da Alemanha comunista, os feriados naturistas eram popularíssimos. Iam todos á praia sem calção, sem nada.

Jogavam vôlei, medicine ball, peteca, corriam, pulavam, entravam e saíam da água, sempre com as vergonhas à mostra, sempre com aquele sorriso meio safado que os nudistas cultivam quando diante de máquina fotográfica ou pessoa vestida, mesmo em traje esporte. O nudismo como parte de uma ideologia – taí um bom tema para uma dissertação inútil.

Freikörperkultur, ou, em bom português, Cultura do Corpo Livre, era o nome do movimento que se espalhou pela República Democrática Alemã comunista no que muitos ainda se referem, sem ironia, como “os bons tempos”. FKK, siglando entre os entendidos. Você chegava numa praia e se encontrasse lá, num pedaço de pau, as três letrinhas, era bom ou ir tirando toda roupinha ou ir tirando o corpinho fora, pra bem longe de lá. Nudistas em ação, era o recado.

Hoje em dia, o FKK é um saudável remanescente dos tempos da ditadura do proletariado. Tanto no leste quanto no oeste da Alemanha, há praias ostentando as iniciais claramente que, também, entre o povão chamam de “praias têxteis”, para evitar confusão. Também não entendo por que “têxteis”. Uma referência à textura da pela, quiçá? Se os alemães já são estranhos, que dirá os nudistas alemães.

Charter jóia

Um agente de viagens alemão, por dentro das coisas, bolou vôos charter para passageiros que preferem voar apenas com a roupa com que vieram ao mundo. Nuzinhos em pelo. O nome da companhia inovadora é OssiUrlaub.

Ela se especializou em fretar vôos para ex-comunistas em estado de férias. A primeira vez que se dá isso no país, pré- ou pós-unificado. Segundo Enrico Haas, diretor da organização inovadora, “as pessoas poderão gozar do prazer de voar tal como Deus as criou”.

Os vôos são curtos. Farão apenas o percurso entre a cidade de Erfurt à ilha de Usedom, no mar Báltico. Um nada. Ida e volta no mesmo dia. O preço é meio caro: uns 750 dólares por cabeça (sem chapéu). Sim, haverá o habitual protocolo dos dias de hoje: no aeroporto, cada passageiro será revistado para se certificarem que não portam armas ou explosivos.

Nudista não faz essas bobagens. Uma vez a bordo, os passageiros poderão tirar toda sua roupa e começar a gozar, nas alturas, dos prazeres do naturismo dentro do mais pesado que o ar. Os pilotos e toda a equipe de bordo, enfim, manterão suas roupinhas. “Por motivos de segurança”, alega Haas.

Como assim? E se eles estiverem armados? Eu exigiria que, ao menos, comissárias e comissários de bordo se despissem ficando, como queria aquele sem-vergonha das festinhas que eu mencionei no início desta palestra.

Conclusão

Todo mundo nu! Todo mundo nu!

 
 
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