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Atualizado às: 03 de março, 2008 - 10h00 GMT (07h00 Brasília)
 
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Ainda os jornais
 

 
 
Ivan Lessa
Semana passada, antes de me retirarem uma catarata do olho direito, justamente a que me fornecia a pouca energia que ainda me resta, andei falando de jornais, brasileiros e estrangeiros, e seu relacionamento ambíguo com a internet.

Volto ao assunto, por ausência de venda negra sobre o olho, na melhor maneira de John Ford, Fritz Lang e Nicholas Ray. Confesso que, durante 35 segundos, encarei a possibilidade de, pelo menos durante uma semana, empregar o charmoso adereço em questão.

Como estou lendo tudo que posso, nesta afobação pós-cataratense, resolvi conferir, via Google, o que vem sendo publicado a respeito de leitores na linha, feito boizinhos, ou, melhor dizendo, online.

Resultados surpreendentes, no meu ignorante saber. Eu entro num jornal – grátis, se não for brasileiro – e lá fico a ciscar manchetes. Li em alguma parte, nesta minha obsessão de ler, que a média de tempo que um internauta passa diante do palavrório todo aberto diante de si na telinha do computador não vai além dos 40 segundos. Acredito que, se tiver mulher pelada na jogada, o boneco fica mais um tempinho. Talvez uns 90 segundos.

A vida informática é breve, muito breve, amigos e desafetos meus. Eu, como sou do contra, paro e fico por um pouquinho mais de 40 ou 90 segundos. Fico no mínimo dois minutos e meio. Dois minutos e meio para ler o editorial do New York Times. Dois minutos e meio para saber o que o comentarista esportivo de El País achou do jogo do Atlético Madrid de ontem. Dois minutos e meio para absorver o pensamento tortuoso daqueles filósofos que abundam no Le Monde.

Muito raramente, imprimo as tolas voltas que o mundo dá, segundo o registro midiático. Sou um unique visitor em toda extensão da palavra. Traduzo porque já foi traduzido: visitante único. Embora me saiba nada único em coisíssima alguma. Visitante único é aquele camarada que… Olha, não dá para eu passar a informação adiante. Li em várias publicações informatizadas as devidas definições.

Numa ou noutra, cheguei a me deter por mais que dois minutos e meio. Nada entendi. Culpem a catarata. Ou sua ausência, de que já começo a sentir falta. Vocês querem saber o que é precisamente visitante único? Virem-se. Sejam os primeiros de sua rua e bairro a travar conhecimento com essa espécie de E.T (“O Extra-Terrestre”, confere?) da idade da comunicação em massa e antipasto misto.

Números espantosos

A imprensa britânica pulula de visitantes únicos. Esse o dado que, qual flor rara, colhi na… na imprensa britânica, ora pílulas de vida do Dr. Ross! Preparem-se para um bruta susto.

Atenção para a versão online (grátis, sempre grátis, publishers de meu Brasil!) e integral dos principais jornais britânicos.

O Daily Mail, jornal ora publicado em formato de tablóide, conforme a moda, e de tendência conservadora, com forte ênfase nas andanças ou tropeções daqueles que passam por “celebridades” (aspas neles), tem uma circulação de fazer babar de inveja nossos jornalões: perto dos 2,5 milhões de exemplares diários.

Sua versão informatizada (grátis, berro de novo!) conta com 17,9 milhões de visitantes únicos por dia. Um dado importante: desses, 72% vivem fora do Reino Unido. Você aí, em Dores do Indaiá, cá entre nós, confesse: lê ou não lê o Daily Mail no computadorzinho? Hem? Hem? Quer ou não quer saber se Amy Whitehouse voltou a usar drogas, visitante freqüente delas, que, tudo indica, parece ser?

O tradicional The Times, sempre em formato tablóide, vendendo quase que 800 mil exemplares por dia, recebe – e parece que até oferece cafezinho – a 15,1 milhões de visitantes únicos por dia. A editora-chefe da versão informatizada do jornal, Anne Spackman, a que já chamamos de “prestigioso matutino”, explica o fenômeno como resultado de sua política de cobrir fartamente eventos políticos, principalmente neste ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos. Anne Spackman acrescenta que, no seu entender, conta o fato de seus leitores valorizarem o que chama de “a voz britânica”.

O meu jornal de porta e interior de metrô, o The Guardian, que de tanto citar parece que estou pegando meus habituais 10% (não estou), tem o número máximo da turma em matéria de visitantes únicos: 19,7 milhões.

O que é que esse camaradas querem? Saber das coisas. Nem que seja por uns 40 segundinhos. Ou então têm dinheiro pra gastar com impressora e, principalmente, conforme sabemos nós, com os cartuchos de tintas. Daí, como todo mundo, continuar na mesma. Sendo espectador. Acreditando-se bem informado e em sintonia com a vida hodierna e seus dissabores. Ora!

Conclusão

Há uma outra teoria. Que as pessoas se sentem importantes “folheando” na net esses jornais tão badalados. Um visitante único é também isso que o nome indica. Sem igual, exclusivo, singular. Num mundo sem graça e triste, isso conta. Conta muito.

 
 
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