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Atualizado às: 12 de março, 2008 - 09h07 GMT (06h07 Brasília)
 
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Fidelidade imigro-colegial
 

 
 
Ivan Lessa
Durante anos, quando eu fazia o primário, nós éramos obrigados a formar na quadra de esportes e cantar hinos patrióticos.

Em dias solenes, havia o juramento à bandeira. Estava eu, estávamos todos, em plena ditadura. A outra ditadura. A que hoje virou maravilhosa, sensacional, esplêndida. A ditadura de Getúlio Vargas.

Ninguém com menos de 18 anos pode ser levado a sério. Por isso, cantávamos a plenos pulmões o Hino à Bandeira ou o que desse na batuta e no metrônomo de nossos mestres. Depois, um golpe (manjam golpe?) derrubou o ditador e tivemos anos do marechal Eurico Gaspar Dutra. A cantoria e os juramentos continuaram. Acho que até hoje ainda tem. Ninguém me diz coisa com coisa.

Aqui no Reino Unido, em pleno 2008, sem sargento, general ou marechal no poder, os colegiais, ao que tudo indica, passarão a ser “encorajados” (ah, os eufemismos desses ingleses!) a jurar fidelidade à Rainha e a obedecer às leis em vigor no Reino. Igualzinho como são obrigados (aí, danou-se o verbo “encorajar”; afinal são meros estrangeiros) os novos imigrantes.

Lorde Goldsmith, ex-procurador-geral, em relatório por ele preparado, diz que a medida poderia auxiliar os jovens a entender o que significa ser um cidadão britânico.

Significado de um cidadão britânico

Portanto: um cidadão britânico é um camarada que jura fidelidade à rainha Elizabeth e, ainda por cima, cumprir com as leis do país. Esses camaradas presos antes, durante e depois do jogo de futebol em terras distantes da Europa, por estarem bêbados, criando arruaça, mexendo com mulheres e crianças, vomitando nos passantes e quebrando bares, caras de gente e os mais diversos tipos de condução, esses camaradas, frise-se, são cidadãos britânicos e cumprem as leis do país. Só que do país deles. Ninguém explicou pra eles que também fazia parte do esquema respeitar também as leis de outros países.

Uma das idéias ventiladas foi a de que a cerimônia colegial poderia ocorrer no mesmo dia, hora e local em que os imigrantes estivessem sendo lecionados na esotérica matéria da cidadania local. Seriam dois coelhos de uma só cajadada, para usar de uma péssima analogia: cajadada na garotada, cajadada nos bengaleses, nos poloneses, nos albaneses e até mesmo nos brasileiros que não conseguiram arribar “en tierra de España”, conforme a nova moda de exclusões, e para cá se mandaram, por vias complicadas demais para explicar.

Outra idéia, também ventilada, ou pelo menos abanada com leque de sândalo, foi a de que colegiais e imigrantes poderiam ter aulas de cidadania juntos, já os aproximando e, assim, mais uma vez, matando mais coelhos com outra cajadada única: a proximidade talvez (talvez, frisemos) evitasse futuros mal-entendidos em questões ligadas ao que certas línguas ferinas e mentes perturbadas convencionaram chamar de “xenofobia ufanista britânica”.

De quem foi essa idéia?

Essa idéia foi do ainda novo primeiro-ministro Gordon Brown, que, até agora, muitos juram não ter dito a que veio e por que veio a ocupar o alto posto que ocupa. Por trás disso tudo, mais eufemismos, que os eufemismos enchem a barriga, dependendo do ano colegial ou do estado de imigração.

Consta que, dest'arte (perdão, leitores), imigrantes e cidadãos britânicos natos estariam compartilhando dos mesmos valores e, assim, sentindo na pele e alma, de forma mais pronunciada, o milagre e a bênção, de pertencer a algo. Ou alguém. À Rainha talvez? Ao Gordon Brown? Ao dono do mercearia na esquina? Pouco importa, o importante é pertencer.

Como de hábito: os EUA

A modalidade a ser adotada é moldada na criançada norte-americanas que vive fazendo juramento à bandeira com as mãozinhas direitas cobrindo os coraçõezinhos. Lá não é obrigatório. Apenas prática comum. E nós sabemos o que isso significa em inglês dos EUA, certo? Acho que na ditadura Vargas deixavam nossa mão direita, e esquerda também, em paz. Não juro.

Ah. Tem mais. Segundo o relatório Goldsmith, as cerimônias poderiam ser realizadas em diversos lugares públicos. Especificou, de batata, só mesmo as galerias de arte. O que me parece formidável. Colegiais e imigrantes formando uma originalíssima “instalação”, conforme se diz no empulhador jargão artístico.

O relatório recomenda ainda a criação de mentores especiais para ensinar cidadania a jovens e recém-chegados ao país. Ninguém falou que isso é criação de cabide de emprego. Inclusive porque deve pagar uma miséria.

Críticas

Lynne Featherstone, porta-voz da juventude do partido Liberal Democrata, disse que isso não resolveria nenhum dos problemas dos jovens. E adiantaria muito pouco aos imigrantes, adianto eu.

Graham Smith, republicano moderado, seguindo firme o caminho do exaltado, ponderou bem. Quer saber o que vai acontecer com as crianças que se opõem à monarquia. Dirão a elas, pergunta ele, que são menos britânicos que os outros?

Conclusão

Eu que não tenho nada com o peixe, e que sou um dos poucos brasileiros que, no estrangeiro, continua com o passaporte aquele com as armas de nossa república, vou fazer no particular o meu próprio juramento, depois de dar uma repassada na leitura das leis do país. De uma certa forma, continuo formando e cantando na quadra de esportes do colégio primário.

 
 
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