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Atualizado às: 21 de março, 2008 - 10h15 GMT (07h15 Brasília)
 
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Dinheiro: vivo e morto
 

 
 
Ivan Lessa
É um lugar-comum, se você estiver escrevendo em inglês, citar o célebre diálogo entre F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, cuja primeira parte, aliás, acabou encontrando seu nicho num conto do primeiro.

Disse Scott para Hemingway:

- Os muito ricos são muito diferentes de mim e de você.

Hemingway baixou por uns instantes a carabina de caça e respondeu à queima-
roupa de arma de mão:

- É verdade. Eles têm mais dinheiro.

A norma é dar pontos para Hemingway e deixar Fitzgerald caidão no asfalto. Nunca entendi isso. Para mim os muito ricos eram diferentes.

Nas colunas e revistas e nas poucas vezes que os via a uma certa distância. Na roupa, no andar, no lidar com os outros, como se fossem todos mais ou menos subalternos.

Os pouquíssimos com quem desfrutei da augusta companhia, por minutos que fossem, eram definitivamente diferentes. Diferentes de mim, de Scott Fitzgerald, de Ernest Hemingway. Diferentes, atrevo-me a arriscar, de você, leitor amigo. Diferentes, acrescente-se de forma não das mais lisonjeiras.

Os muito ricos podem fazer uma porção de coisas que os outros não podem. Têm uma espécie de imunidade. O que não os impede de um ocasional suicídio, tornado ainda mais misterioso que outros suicídios, por ser o “indigitado indivíduo” supostamente pertencente a uma casta que pode comprar o quê e quem bem entender.

Sim, admitamos, a felicidade pode ser comprada. Pergunte a um muito rico, se a um muito rico você tiver acesso, se não é verdade. Não juro, mas creio que ele riria e, caso tivesse senso de humor e alguma inteligência (ambas qualidades não vêm automaticamente com o acúmulo de riquezas), diria que, no que diz respeito às suas compras, ele mesmo as faz.

Deixando subentendido, claro, que se quiser comprar 1 quilo de felicidade, como eu e você compramos feijão, pode deixar por conta dele.

Pausa para retificação

Um batalhão armado de leitores escreve para a BBC reclamando do fato de eu ter dado os poloneses trabalhando aqui no Reino Unido como “imigrantes ilegais”.

Claro que não são ilegais. A Polônia faz parte da União Européia. Foi erro de digitação. Eu quis escrever Bolônia. A Bolônia ainda não faz parte da EU. Estão na fila o país e seus habitantes, os desagradáveis boloneses.

McCartney x Mills

Essas pequenas e tolas considerações sobre o vil metal me vieram à mente porque, na semana que passou, quando da publicação da decisão do juiz do quanto caberia à futura ex-senhora Paul McCartney (até quinta-feira, dia 20, 19, o divórcio ainda não havia sido homologado), as assustadoras quantias envolvidas no processo não saíram das primeiras páginas, juntamente, e pau a pau, por assim dizer, com a crise financeira que assola o globo. Parece praga jogada por ambientalistas. A crise, digo.

Era impossível você não ouvir no metrô ou nos bares gente opinando sobre a questão. Não freqüento os mesmos lugares dos muito ricos, portanto não sei o que acham da crise nas fortunas de sir Paul McCartney e Heather Mills. Talvez só tenham se detido nas idas e vindas dos mercados.

Guardei apenas um mínimo de números e cifras divulgados no litígio das celebridades. A fortuna de McCartney era calculada aí por volta da casa (ou luxuoso palácio) dos US$ 1,6 bilhão. Calculada, diga-se, por muitos e, principalmente, Heather Mills.

O meritíssimo que julgou a ação judicial, avaliou-a (a fortuna e não Heather) em apenas – apenas!... -- US$ 800 milhões de dólares. Como no poema de W.H. Auden, “as criancinhas choraram pelas ruas quando souberam do fato”.

Pobre (lato sensu) senhor sir Paul, de 65 anos, muito, muito rico e muito, muito diferente dos ricos dos dois escritores americanos citados no início deste espaço.

Dona Heather, pegou também seu “apenas” entre aspas: por volta dos US$ 50 milhões. Queria US$ 250 milhões. Sempre em dólares, ainda que desvalorizado. Queria mais uns trocados de alguns milhares para as verduras. Mesmo assim, a jovem senhora em questão não deu os saltos de alegria, salvo seja, que a ocasião e a tuturama mereciam. Reclamou às pampas.

Sir Paul McCartney manteve um discreto silêncio midiático. Não citou a letra de nenhuma das canções que o fizeram bilionário. Os muito, muito ricos são muito diferentes de mim e de você: sabem direitinho quando é hora de fazer boca de siri. Só se confundem um pouco na hora da cirurgia plástica e no dia de tingir de acaju os cabelos.

Conclusão

Nada tenho contra os Beatles. Deram sorte de pegar a primeira geração de uma garotada com dinheiro no bolso para gastar em disco. Conforme continua acontecendo. Os muito jovens de hoje são muito diferentes do muito jovem que fui. Dinheiro para disco? Você está brincando, menino.

Eu gostava, como ainda gosto, de jazz. Andei, como os ligeiramente remediados, fazendo minhas contas. Boto minha mão no fogo que a fortuna de McCartney, além de possivelmente ir muito além dos propalados 800 milhões de dólares (os muito ricos sabem cuidar dessas coisas, senhores Fitz e Hem), constitui muito, mas muito mais do que ganharam todos os músicos de jazz do mundo inteiro entre os anos de 1910 e 1962, para ficar no ano em que começou a louca escalada do sucesso dos quatro rapazes de Liverpool.

Repito, trocando em miúdos, quantia de que eu e os músicos de jazz melhor entendemos: mais, muito mais que todos os componentes de todas as orquestras, todos os solistas, todos os cantores, tudo e todos de todas as partes do globo que tiveram de lidar, no século que passou, com o que de melhor se fez no mundo em matéria de música popular.

Conforme Louis Armstrong disse para Duke Ellington … Ah, deixa pra lá. Ninguém quer saber de diálogo entre os dois. Entre acordes ou biritas. Os muito, muito mortos – esses imensos mortos – estão muito, muito calados.

 
 
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