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Atualizado às: 24 de março, 2008 - 09h03 GMT (06h03 Brasília)
 
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Seduzidos e acamados
 

 
 
Ivan Lessa
Há pouco passei algumas horas num hospital. Particular. Gastando uma nota alta. Porque me desiludi com o serviço nacional de saúde britânico. Andaram me tratando mal. Ou dei azar. Talvez uma mistura de ambos.

Parti para uma pequena intervenção cirúrgica. Retirada de catarata do olho direito. Eu devia ter deixado a bruta correndo lá. Quase que se vai toda minha poupança.

Menos de uma hora na mesa de operação (mais para intervenção, certo?), mais de duas no quarto. Duas enfermeiras me atenderam. Tivemos um problema de comunicação. Detonamos os três um inglês cheio de nove horas. E 37 minutos, só para complicar o que chegou a 5 segundos de se tornar um inferno, uma vez que eu estava tenso (eu estou sempre tenso) e louco pra partir para uma grossura.

O importante disso tudo, além do fato de que já me recuperei e estou vendo as coisas muito melhor, obrigado, embora elas não me pareçam merecer um exame mais detido, à exceção de filmes antigos na televisão, o importante, dizia eu, é que nenhuma das duas enfermeiras tentaram me seduzir.

Sexualmente, para ser brutalmente explícito. De nada lhes adiantaria, sublinho. A situação pré- e pós-operatória de um senhor na minha idade é pouco condizente com as artimanhas de Eros. Friso ainda que eu e as duas caribenhas deveríamos ter, somados, mais de 200 anos.

Enfrentar um hospital, eu topo. Agora, o ridículo não. Pelo menos enquanto minhas mazelas físicas o permitirem.

Anjos azuis do amor

Está em todos os jornais. Milhares de enfermeiras aqui na Grã-Bretanha acham que é preciso acabar com esse tabu, ou frescura, de que elas não devem ter “um caso” com os pacientes entregues a seus cuidados. As aspas em “um caso” são minhas. Quero crer que uma boa lida nas entrelinhas das notícias deixam claro: por “um caso” entenda-se “partir para um pif-paf pélvico”. Em matéria de eufemismos, sou mais o meu.

A publicação Nursing Times (Tempos de Enfermagem), responsável pela pesquisa e publicação dos resultados, alega que praticamente (como praticamente?) uma em cada 10 enfermeiras acha que dar início a um relacionamento (ah, é o pif-paf que mencionei, certo?) com um paciente é perfeitamente aceitável.

Uma em cada seis enfermeiras, assim como quem não quer nada, mas entregando às escancarras as colegas de profissão, afirma ter conhecimento de pelo menos uma colega que manteve relações sexuais (essa, ou essas, ao menos foram mais explícitas) com um paciente.

A revista não publica fotos que ilustrem a controvérsia. Seria uma boa. Também não juro que seja controvérsia. Tem gente, garanto, que acha não só muito natural, mas até mesmo excelente para a plena recuperação física e mental do paciente.

Não são mencionados os casos de pacientes com cataratas e enfermeiras caribenhas passadas e marcadamente incompetentes, ao menos na disciplina que fez a fama de Florence Nightingale (os neófitos que consultem o Google ou a Wikipédia).

A controvérsia

Há tempos, o par do reino lorde Mancroft, do Partido Conservador, disse, generalizando, que as enfermeiras eram “promíscuas” e “pouco profissionais”. A publicação da pesquisa feita pela Nursing Times tende a reforçar este ponto de vista, segundo pessoas supostamente esclarecidas.

Lorde Mancroft fez suas pouco lisongeiras observações após ser tratado, no verão do ano passado, no hospital Royal United, situado na histórica cidade de Bath.

Segundo ele, as enfermeiras locais discutiam, na sua frente, não só seus feitos sexuais como também sua ingestão de bebidas alcoólicas. Não está claro de que e por que lorde Mancroft estava entregue à “sanha” (vamos logo exagerar essa história) das mulheres que, por aqui, até bem pouco tempo, mereciam a alcunha de “anjos de azul”, uma vez que azul era a cor de seus uniformes e, muitas vezes, também de seus olhos, brilhando intensos no meio de rostinhos encantadores suaves como a pele de um pêssego e, assim, sugerindo, mais abaixo, seios e coxas ebúrneas e alabastrinas destinados a … Mas creio ter me afastado da objetividade necessária à composição destas mal digitadas linhas.

Conclusão

O número de enfermeiras em ação, em todos os sentidos, aqui no Reino Unido, é de 400 mil. A pesquisa da Nursing Times deixa bem claro que uma proporção significativa dos “anjos de azul” estaria disposta a enfrentar qualquer sanção a elas imposta contanto que não tivessem que abdicar de seu direito de irem para a cama – do hospital ou mesmo motel, concluo eu – com os doentes. Quer dizer, doente mas não muuuito doente, né mesmo? E vamos conferir direitinho que tipo de doença é a deles, hem?

O negócio delas é o negócio deles, ponhamos (hummm) as coisas assim. Cada uma que vá no e com o termômetro que bem entender, digo eu, e com ele faça o que julgar mais interessante. Idem com a seringa e os seringões. Taquem-nos onde melhor lhes parecerem, acrescento.

Agora, se desabar uma catarata desta vez no outro olho, o esquerdo, vou logo avisando que não admito confiança. Sou homem casado e sério.

 
 
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