BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 23 de abril, 2008 - 09h05 GMT (06h05 Brasília)
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
Primas e genituras
 

 
 
Ivan Lessa
Rei, rei posto. O som é bom. Rainha morta, rei posto. Piorou. Rainha morta, rainha posta. Melhorou de novo.

Negócio seguinte: como vocês estão cansados de saber, aqui no Reino Unido é assim: morreu o rei ou a rainha, sobe para o trono o filho mais velho. Mesmo que haja uma filha mais velha. É o que chamam de primogenitura. Ou ainda, anacronismo.

Homem, em matéria de ascensão ao trono, tem preferência. Sucessão, em inglês, é masculino. A concordância, como se demonstrou, não é lá muito forte por estas bandas.

Essa real tradição de “homem primeiro”, em se tratando de ir de coroa, não funciona como diante da porta do elevador, por exemplo, onde é sempre “mulher primeiro”.

Muito antes mesmo da invenção do elevador e, dirão alguns, até mesmo da invenção da porta. Tem mil anos. Qualquer coisa com mil anos é bacanérrimo. Tem tudo para funcionar.

O Brasil, com toda essa pujança, esse lábaro estrelado, esses coqueiros que dão coco, onde o céu azul, ôô, mal passou dos 500 anos. Ainda paga meia-entrada no cinema. Em compensação, é uma república.

Elegemos presidente de tantos em tantos anos (esse troço varia muito; coisas do vácuo monarquista) e, agora mesmo, já se fala em mandato novo para o atual líder dos destinos da nação, blablablá.

Mandato novo quebraria uma das poucas tradições que temos há quase dez anos. Acho. Ninguém sabe direito. No Brasil, nada se perde: tudo se acha.

Ao que interessa: o Brasil é um dos 18 países do mundo onde qualquer coisa com mais de 10 anos de idade vira tradição.

Um garoto passando de ano no primário é uma tradição brasileira. Mais: em certos Estados, completar 10 anos de idade não só é tradição como inspira a maior admiração.

Só não é justo, e vai ao arrepio de nossa índole republicana libertária, se o filho, ou mesmo filha (nesta era de igualdades sexuais), do presidente for para o trono (presidência tem trono, pois não?), quando do falecimento do dito cujo líder.

Eu me afastei de propósito destas ilhas. Não sei. Me deu uma coisa. Saudades por certo.

Pais e filhos

Uma tradição de mil anos aqui no Reino Unido é o filho mais velho subir ao trono no caso da subida para o céu do rei ou rainha.

O filho. A filha, não. Acho que ao menos isso deixei claro. Pois bem, a coisa agora vai mudar de figura.

Vera Baird, que neste país é solicitor-general (não confundir com general solicitador de forma alguma; trata-se de uma espécie de advogada-geral da União) declarou que a tradição da primogenitura é uma boa “load of rubbish”, ou seja, “um monte de besteira”.

Rematou acrescentando que vai tomar as devidas providências no sentido de acabar com essa besteirada.

Em suas próprias palavras, chegadíssimas ao chão, disse Vera Baird que é mais do que hora da Família Real (as maiúsculas são minhas e, por sinal, friso, mais do que respeitosas) “entrar para a raça humana”.

Ou seja, até agora, nestes mil anos de primogenitura, a realeza foge, escapa, escapole, se esconde da “raça humana”.

Já começou a arregimentação de ministros no sentido de abolir a lei que data de 1701 e que também, entre várias outras “besteiras” (uso a terminologia da solicitor-general), impede os reais do reino de se casarem com católicos. Principalmente se forem apostólicos e romanos.

O debate sobre primogenitura, embora em termos menos enérgicos, já tem alguns anos de existência. No Brasil, já seria tradição.

Há dez anos, lorde Archer (é, ele mesmo, o autor daquela bobajada toda; o ex-presidiário que já cumpriu pena, quase tradicional, por fraude e peculato, ou coisa que o valha), ou Jeffrey Archer, que é seu “nome de pluma”, tentou levar adiante um projeto de lei que daria a homem e mulher termos de igualdade na hora de pegar num cetro, tacar uma coroa na cabeça e ir tirar uma pestana no trono. Não deu em nada. Apenas prisão para o (risos) escritor.

No decorrer do debate então desencadeado, um par do reino mais sério, e que nunca viu o sol nascer quadrado, lorde Williams de Mostyn, na época ministro do governo, revelou a um país indiferente que a própria rainha Elizabeth, a quem consultara, não fazia qualquer objeção ao projeto. Muito pelo contrário, era inteiramente a favor de uma igualdade entre filhos e filhas.

O projeto naufragou. Desta vez, parece que zarpará pelos mares plácidos de um Parlamento sem muito que fazer.

Um editorial no último Sunday Times lembrava que, nos últimos 30 anos, a sucessão masculina fora abolida em países esclarecidos como a Suécia, a Noruega, a Holanda e a Bélgica.

Na Espanha e na Dinamarca, galopam planos de seguir o exemplo dos países mais ou menos irmãos.

O mesmo editorial termina como a “solicitadora geral” começou: dizendo que esta relíquia deveria ter sido consignada à lata de lixo da História, que é o lugar a que pertence.

Monarca no lixo. Desperdício. Como na velha piada, ainda daria para, pelo menos, mais uns 10 anos de uso.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Comes e bebes corretos
21 abril, 2008 | BBC Report
Cafezinho raro e caro
18 abril, 2008 | BBC Report
Esquadrão da morte virtual
16 abril, 2008 | BBC Report
Conversão e conversa de Salman Rushdie
14 abril, 2008 | BBC Report
Sexo, chicos e maratonas
11 abril, 2008 | BBC Report
Justiça: ligeiras e pesadas
09 abril, 2008 | BBC Report
Notas de segunda
07 abril, 2008 | BBC Report
É fogo
04 abril, 2008 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade