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Atualizado às: 05 de maio, 2008 - 08h26 GMT (05h26 Brasília)
 
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Notas feriadais
 

 
 
Ivan Lessa
Segunda, 5 de maio. Feriado aqui.

Na sexta-feira, 2 de maio, na hora do almoço, dei uma chegadinha no pub aqui do prédio onde fica a BBC Brasil e tomei um pint, ou 0,570 de litro, de cerveja.

Quando bateram as 06h14 da tarde, dirigi-me para o pub mais próximo de casa e lá fiquei por precisamente 4 horas, aproveitando que aquele era o dia mais animado da semana, em matéria de birinaitagem pubiana, e que as animadas conversações girassem em torno da vitória em Londres, na eleição de seu prefeito, daquele que era meu candidato de coração e mente. Foi uma farra.

Faço questão de ser preciso nos horários (e impreciso no tocante à política) por serem resultado de uma vasta pesquisa realizada nesta capital.

Fora da capital, pelo país todo, outras pesquisas, todas razoavelmente sóbrias, frisemos, reportam que houve de 2003 para cá um aumento de 1.000 % no número de mulheres presas e fazendo bobagem pelas ruas devido ao excesso de álcool no sangue.

As mulheres, e mulheres jovens, estão bebendo cada vez mais neste país. Bebendo muito, muito mal. Caem no chão, vomitam se apoiando no poste, riem dos passantes e com eles puxam briga. Tremendo vexame. O nome, em inglês, até que é bacaninha: binge drinking. Quem diria.

A polícia culpa os empórios (saudades de ti, meu São Paulo!) e os supermercados que vendem bebidas alcoólicas nas horas em que deveriam estar vendendo bombom ou, forçando um pouco a barra, camisinha.

Talvez com a espetacular vitória do Partido Conservador nas eleições regionais, essas tolas desatinadas tomem jeito e se contentem com um licor de ovo aos sábados de tardinha. Exatamente às 17h23, eu recomendaria.

***

Após consumir a quantidade que consigo consumir nas minhas 4 horas de pub (uns 5 pints, ou por volta de 2 litros e meio de cerveja), fui para casa continuar a leitura de um velho livro que descobri na bagunça que são as estantes de meu flat.

Trata-se de O Presidente Negro, de Monteiro Lobato, que leva o subtítulo, ou, na edição que tenho, o título de O Choque das Raças. Não tem nada a ver com a Menina do Narizinho Arrebitado, Pedrinho, Emília ou o Visconde de Sabugosa. Não, não. Trata-se um romance publicado em 1926 em folhetins no jornal carioca A Manhã.

Minha edição é em formato de brochura e data de 1943. Está caindo aos pedaços. Assim são nossos livros. Fiz, no entanto, questão de enfrentá-lo, embora não tenha me causado impressão maior quando o li com 8 anos, na esperança de que o gênio de um de nossos cinco maiores escritores tivesse já previsto, há quase um século, a ascensão ao poder no país irmão, de um afro-americano, conforme virou moda dizer.

Uma decepção, o romance. Não tem a graça e a magia da série de livros infantis passados no sítio do Picapau Amarelo. Também não chega a ser ficção científica, na acepção em que os puristas adotaram para o gênero.

O herói da história é um funcionário paulista que adquire o dom de prever o futuro graças à invenção de um seu amigo, o professor Benson, o porviroscópio. Assim é que Ayrton, esse o nome do futurólogo, consegue devassar a 88ª. eleição presidencial norte-americana, realizada em 2228, e descobre que o negro Jim Roy supera em votos a outra candidata, essa também uma inovação (para 1926), a feminista Evelyn Astor. Com a vitória de Jim Roy, a raça branca encontra uma maneira nada sutil para enfrentar o perigo que para ela representa o novo alto mandatário: esterilizar todos os indivíduos de raça negra, vindo esta “solução final” camuflada num processo de alisamento de cabelos.

Como tudo de Lobato, o livro é legível. Infelizmente, não vejo paralelo entre sua visão e a realidade fascinante deste ano de 2008, quando Barack Hussein Obama (nome completo do candidato a candidato, conforme sua oponente não se cansa de lembrar aos eleitores) e Hillary Clinton disputam o cargo mais alto dos mundos livre, um pouco menos livre e escravo.

Para rebater, como rebato as birinaites diárias com alcacelça, irei nesta primeira semana de maio de “A Chave do Tamanho”, meu favorito daquele que fazia a alegria da petizada. Quando ainda havia alegria e sobravam petizes.

***

Outra pesquisa me informa que, para se imprimir 24 exemplares de qualquer livro, de Monteiro Lobato ou Noam Chomsky (o intelectual estrangeiro mais entrevistado no Brasil), é necessário o tombamento de uma árvore. Uma árvore = 24 livros.

Árvore é para dar jaca, sapoti, beterraba. Não sei se vale a pena derrubá-las em nome de uma suposta “cultura”. Por isso, estou com a turma verde que bolou essa história de ler o danado do livro, não importa qual livro, e passá-lo adiante.

De graça, ou quase de graça. Um bom assunto para se levantar, juntamente com o copo, pouco depois do primeiro gole no primeiro chope da tarde (às 18h21, para ser preciso).

***

No jornal gratuito distribuído no metrô, leio uma entrevista com nosso velho e querido Emerson Fittipaldi. Há quanto tempo, sô! Somos uns ingratos. De que vale a fama se logo nos esquecemos de quem tanta alegria nos deu.

Folgo em saber que Fittipaldi é avô, próspero, planta laranjas e coleciona – bidu! – automóveis. Hoje só se fala nesse tal de Felipe Master.

Mas… e amanhã? Não fosse Emerson e eu jamais teria conhecido os prazeres dos cigarros Marlboro, que fumei o máximo que pude durante o máximo de tempo que meus pulmões permitiram.

A Fórmula-1 me ensinou que a vida é uma louca correria e temos de aproveitar cada curva que ela nos oferece. Curva, reta e tragada.

 
 
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