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Atualizado às: 07 de maio, 2008 - 08h58 GMT (05h58 Brasília)
 
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A questão lésbica
 

 
 
Ivan Lessa
Antes de mais nada, é preciso cuidado para não seguir pelos caminhos enganosos da misoginia. Os lésbicos têm uma certa razão. Com ênfase no “certa”.

As lésbicas do mundo inteiro, praticantes do que pessoas pouca esclarecidas entendem ou aceitam, têm mais do que razão: têm direito adquirido, pode-se dizer sem medo de errar. A luta pelas conquistas sociais foi dura e, após muitos espinhos, rendeu frutos. O ativismo, sabemos, não importa sua forma, seja globalização ou verdeação, exige calma e ponderação, sem falar em know-how.

Esse o caso dos ativistas da ilha grega de Lesbos, que, e vamos fazer uma certa justiça a eles, beiram o heróico, qualidade histórica da Grécia, país dito o berço da democracia e com uma plêiade de patrimônios que passaram a pertencer finalmente a todos nós, toda a Humanidade.

Militantes da ilha em questão, a ilha de Lesbos, situada no mar Egeu, pretendem levar aos tribunais gregos o problema, já que para eles problema é, da nomenclatura correta para os habitantes de Lesbos e as praticantes do patrimônio até bem pouco controvertido e apenas sussurrado nos salões e vielas escuras da sociedade: o lesbianismo.

O lesbianismo se origina com a poetisa Safo, que teria – a coisa é vaga, como toda boa celeuma – por volta do 6º e do 7º século anteriores a Cristo, deixado um mais do que razoável número de poemas íntimos exaltando o amor físico e espiritual entre as mulheres. Mulheres do mesmo sexo, nunca é demais frisar.

Isso numa época em que a moda (poetizante) aceita e praticada era a épica, com versos exaltando supostos feitos heróicos de supostos deuses gregos. Safo escapuliu, fugiu de seu tempo. Era uma inovadora. Deixou seu nome como aval e sinônimo do que antes era proibido e, em muitos casos, tal como ainda hoje, nos países mais atrasados, continua a ser punido com prisão e morte, muitas vezes as duas coisas seguidas.

Agora, segundo ativistas liderados pelo cidadão Dimitris Lambrou, um lésbico de nos jours irado, a coisa deve ir aos tribunais gregos para decidir a espinhosa questão: terá a Comunidade Homossexual e Lésbica da Grécia, uma organização que, conforme está óbvio, cuida dos direitos gay, o direito de empregar a palavrinha “lésbica” em seu título? Segundo Lambrou, de jeito nenhum.

Para ele, o uso do termo para se referir a um tipo de prática sexual viola os direitos humanos dos ilhéus lésbicos, de ambos os sexos, deles fazendo “objeto de galhofa” (estou adivinhando seus intolerantes propósitos) pelo mundo afora.

Caso seja bem sucedido, Dimitris Lambrou pretende levar a questão aos tribunais globais. Vamos torcer para que a coisa não vá adiante nem mesmo na ilha em que a poetisa clássica pontificou versejando e amando, amando, amando muito e de todo corpo e coração..

Mas...

... e se Lambrou e seu bando de militantes sairem vencedores? Neste ponto, vale a pena lembrar que a ilha de Lesbos possui uma população de perto de 100 mil habitantes, entre homens e mulheres (todos lésbicos e lésbicas), ocupando uma área de 1,630 metros quadrados, sendo que, juntamente com duas outras ilhas, de nomes menos controvertidos, forma um departamento importante da Grécia moderna. Uma barra, portanto.

Se a intolerância sair vencedora, o que não é raro, as praticantes da modalidade sexo-espiritual em questão vão se ver em sérias dificuldades. Adotar o nome de “Sáficas” ou “Tríbades”, agora, depois dessa luta toda para verem reconhecidos seus direitos sexuais, seria um desastroso passo atrás. Tanto no cotidiano lésbico quanto nos dicionários.

Também qualquer variação que tente manter a honra e tradição sexo-poética da ilha iria encontrar oposição entre os lésbicos mais exaltados.

“Lésbias”, “Lesbianas”, “Lesbíacas”, até mesmo“Safistas”, quero crer, tudo isso seria inaceitável para o ilhéu lésbico militante e ativista, para não acrescentarmos intolerante.

Conforme sugeriu em suas últimas linhas um editorial de importante jornal britânico: “No espírito de uma verdadeira amizade, alguém deveria explicar aos gregos que esse gosto atual pela indignação histórica gera não a simpatia, mas sim o ridículo.”

 
 
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