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Atualizado às: 09 de maio, 2008 - 08h36 GMT (05h36 Brasília)
 
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Socorro! Um médico quer me pegar!
 

 
 
Ivan Lessa
A coisa vem desde os tempos de menino. É de pequeno que se torce a goela do pepino. Isso é o que ficou do tempo em que me ameaçavam com uma ida ao médico.

Se eu me comportasse mal, iriam chamar um médico para me pegar. Se eu não queria ir para a cama cedo, o médico me levaria para o hospital. O médico era um só e mais assustador que qualquer bicho-papão. O médico só perdia para o lobisomem do Lon Chaney Jr em minha demonologia pessoal.

Por quê?

Não sei. Criança é um bicho meio idiota. Algumas temem os ciganos, outras o monstro que vive debaixo de suas camas. O médico me fazia ficar na linha: não matar aula, não jogar pedra nas velhinhas passantes, não fumar escondido.

Até a adolescência, achei que era ignorância infantil. Com a idade da razão, veio, claro, a razão. O médico, todos os médicos, constituíam um perigo. Para mim e para toda a sociedade. Eu atingira a idade das certezas absolutas e das generalizações.

Primeiros embates

Foi a operação de apendicite. Erraram qualquer coisa. Peguei uma infecção que quase me leva. Eu não devia ter 10 anos. Logo depois, operação de amígdalas. Erraram na anestesia. Doeu horrores. Houve um bafafá (nessa época ainda os havia) em torno. Passei a tomar ainda mais cuidado com os médicos. Deixaram o terreno mitológico e passaram para a problemática existencial. E prática.

Atravessar a rua, sempre olhando para os dois lados. Na praia, cuidado em dia de bandeira vermelha. Não passar a mão nas moças desconhecidas (as conhecidas, e que deixassem, tudo bem). E por aí afora. Brincar de médico? O mesmo que brincar de Hiroshima e Nagasaki. De jeito nenhum.

Assim se passaram os anos. Dei sorte. Não tive que ir a médico e nem eles a mim, que me lembre. E eu não me esqueceria. Vezes por outra, numa gripe mais enfezada, chamavam o homem da farmácia para me dar uma injeção. Não sei de quê. Antibiótico, conforme nossa praxe.

O “homem da farmácia” dava um certo medo, sem dúvida, mas tinha, como todos têm, um jeito pobre e triste que, por tabela, avisa logo que não irá nos fazer mal. Uma picada só, um ligeiro desconforto, logo passa. Nosso “homem da farmácia”, para os mais jovens, usava de lança-perfume em vez de álcool. Vinha o carnaval e, entre confete e serpentina, o cheiro de lança-perfume não me trazia à memória rebolantes havaianas ou sedutoras ciganas. Só dava o “homem da farmácia”.

Espero que ele tenha sido muito feliz por toda sua vida. Eu que nunca mais tive a ventura de lhe empinar o rabito.

Atualização

Sei que tudo isso é pouco para justificar minha ojeriza àqueles a quem, num dia mais empombado, apelidei, no pasquim (literalmente um pasquim), os nossos médicos de “máfia de branco”.

Pra que, meu senhor, pra quê? O que choveu de reclamação, processo, desaforo, telefonema anônimo altas horas da noite ameaçando a mim e minha família.

Os médicos, e essa é quase (quase) a verdade, me chatearam mais do que a milicalha, com suas apreensões e processos por atentado à moral e aos bons costumes e, por mais de uma vez, violação da lei de segurança nacional. Não pedi, e nem pedirei, indenização a quem de verdade devia: os médicos, a “máfia de branco”.

Corte no tempo e no espaço. Séculos 20 e 21 em Londres. Aborrecimentos físicos. Arritmia, enfisema, diabetes, e, infelizmente, pode-se botar um et cetera nisso. Mais de um, para ser franco. Corri, ou me arrastei, de médico em médico. Medicina socializada. O que só assusta mais a criança soterrada em mim. Não acertaram uma.

Parti para a medicina paga. O mesmo que pagar a Lon Chaney Jr. para botar a cabelada na cara e vir me pegar no pé. Neca, neris, nada. Tomo uma remediarada diária que, ao menos, não me custa um único centavo. Sobre o efeito psicológico. Que também não regula. Feito acupuntura, homeopatia ou aromoterapia. Tudo lenda urbana e rural.

Vou vivendo, na medida do possível, se isso é vida. Sempre evitando, até onde posso, o contato com médicos.

Agora, um aval

Lá estava, neste maio, começo de primavera, em mais de um jornal, o anúncio de página inteira vendendo um livro como se fosse mais quente que o último daquele cara do código Da Vinci.

Nome do volume: Como impedir que seu médico lhe mate. Da autoria – vejam vocês – de um médico, o dr. Vernon Coleman, MB ChB DSc, siglas cabalísticas que devem valer seu peso em… tetraciclina? Por aí. O livro custa uns US$ 26, tem 254 páginas e garante que mudará sua vida. Endosso que não acaba mais de publicações abalizadas. O dr. Coleman, com todas aquelas siglas, há 30 anos que publica livros sobre questões ligadas à saúde. Escreveu mais de 100 livros. Pelo que entendi, todos eles destinados a impedir que os médicos façam a nós de palhaços.

Folgo em saber da existência desse médico e desse livro. Aproveitem, britânicos. Traduzam, brasileiros. Escolado que sou, continuarei mantendo minha distância de tudo quanto é médico. Seguro morreu (toque, toque, toque) de velho.

 
 
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