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Atualizado às: 04 de junho, 2008 - 10h58 GMT (07h58 Brasília)
 
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Objetificações sexuais
 

 
 
Ivan Lessa
Foi há muito tempo, quando as mulheres ainda não falavam, e, quando falavam, só mesmo com a permissão dos senhores seus mestres, os homens. De um dia para outro, surgiu o feminismo.

Elas que já haviam conquistado o direito do voto e o acesso sem empecilhos a toda sorte de cosméticos de repente cismaram em se livrar de seus grilhões. Foram todas então queimar sutiã na esquina e escrever livros de auto-ajuda.

Deve ter uns quarenta anos que acabou essa história de “sexo frágil” e “não se bater em mulher nem com flor”. Veio mais ou menos com os sonhos rompidos dos jovens burgueses franceses, a barra pesada que a garotada brasileira resolveu enfrentar e o vexame americano diário no sudeste asiático.

Formaram-se, em todo mundo, versões de frentes femininas de liberação. E tome Germaine Greer, Betty Friedan, Gloria Steinem e o culto da desbravadora Simone de Beauvoir. Um tempo interessante. Principalmente se você não pertencesse a sexo algum. Os pregos de parede, as amebas e certos tipos exóticos de tartarugas, quero crer, foram quem mais se divertiram com as tensões e falações da época.

E assim se passaram 40 anos

Hoje tem mulher perdendo na candidatura à Presidência da República nos Estados Unidos para um negro. Tem até (essa ninguém nem sonhou) mulher no exclusivo clube exclusivo masculino que era a Academia Brasileira de Letras.

Tem mulher de todos os tamanhos e para todos os gostos fazendo tudo e todos. Basta não esmiuçar muito a questão e se contentar com o sucesso internacional, na TV e no cinema, de Sex and the City, sempre sem entrar em maiores detalhes.

Não há dia que passe que não tenha um novo produto de beleza na farmácia da esquina. Todos resolvem mesmo. O quê? Deixa pra lá.

O feminismo chegou e vive dizendo para o povo que fica. Com o feminismo, essa Lei Áurea das mulheres, tudo passou a ser muito natural. Deve ser por isso que prolifera também a cirurgia plástica estética.

Amar, no entanto, é preciso. Feito navegar. No primeiro afã de se liberarem de séculos de preconceito, esqueceram-se, as liberadas, do amor, sublime amor. Como quem deixou o batom no banheiro do restaurante da moda. O amor continua. E agora, como num carteado, vale o coringa.

De torres e muros

Há duas semanas que a televisão britânica vem exibindo uma série sobre amores excepcionais. E não me refiro a Romeu e Julieta ou Laura e Petrarca. Os programas enfileiram os depoimentos de mulheres apaixonadas por objetos inanimados e não me refiro a Keanu Reeves. Inanimados para valer. O amor não conhece, nem deve conhecer, fronteiras, diria uma feminista exaltada.

Naisho, ou Erika la Tour Eiffel, como prefere ser conhecida, desconhece fronteiras. Naisho-Erika conta em alto e bom som que se apaixonou e, segundo ela, afirma ter se casado com a torre Eiffel. Naisho-Erika tem 36 anos, foi soldado (“soldada” é politicamente incorreto, pois não?) e mora na cidade onde tudo pode acontecer, e em geral acontece: San Francisco, nos Estados Unidos.

Antes, Naisho-Erika, que também é uma arqueira das boas, foi apaixonada por “Lance”, seu arco. Hoje esquecido, deixado de lado. Mas não falemos de águas passadas. No momento, é a Torre Eiffel que ocupa lugar na tribuna de honra de seu coração. Ela afirma que se casou com a Torre Eiffel na semana passada, após uma cerimônia íntima à qual compareceram apenas alguns conhecidos.

Na ocasião, Erika-Naisho jurou amor eterno ao monumento e mudou legalmente o nome para Erika La Tour Eiffel. Confessa, no entanto, com uma ponta de tristeza na voz, que “é um problema imenso amar um objeto público”. Acrescentando que “a questão da intimidade, ou sua falta, está presente o tempo todo”. Tudo isso estava e está lá no documentário para a tevê. Mais ainda.

Uma mulher e um muro

Os espectadores tivemos o prazer de ser apresentados ainda a Eija-Riita Berliner Mauer, uma sueca vanguardista que há mais de 30 anos cunhou o termo “objectum sexual” (sim, o latim não é seu forte), ou “OA”, como é conhecido nas rodas em questão.

Eijaa-Riita tem todos os documentos para provar seu amor e subseqüente “casamento” com o velho muro de Berlim, hoje em desuso, a não ser no coração de Eija-Riita, que também mudou seu nome legalmente para “Berliner Mauer”, ou “Muro de Berlim”. Confiram sua história toda em www.berlinermauer.se.

No grupo, não poderia deixar de faltar uma britânica. “Emma”, um pseudônimo, pois ainda não se liberou de todo a tolinha de 43 anos. Ela só vai de rádio e aparelhos de som de alta-fidelidade. Seu amor atual ela o batizou de Jake, que, segundo ela, é “sólido, merecedor de confiança e lindo”. De morrer, suponho.

E uma americana vidrada em modelos da Torres Gêmeas que se foram no dia 11 de setembro de 2001. Essa, que preferiu o anonimato, é vivida. Mulher com passado, diríamos em outros tempos mais incorretos e menos esclarecidos. Já teve caso com órgão de igreja, corrimão e uma modalidade de parque de diversões no estado de Nova York.

Tem mais, muito mais. Um psicólogo disse que isso tudo não passa de uma síndrome, a de Asperger. Da qual sofrem, ou se extasiam, quase que exclusivamente mulheres. Eu não teria coragem de usar de terminologia pseudo-científica para nenhuma das senhoras que mencionei até aqui e as outras que depuseram nos dois programas a que assisti.

Inclusive porque não vi ninguém até agora mencionar “mouse” de computador. Não sabem o que é bom. Nem o que estão perdendo.

 
 
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