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Atualizado às: 09 de julho, 2008 - 09h37 GMT (06h37 Brasília)
 
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Coletes: à prova de facas e gatos
 

 
 
Ivan Lessa
Outro dia mesmo, eu estava aqui, encurralado de medo, falando do festival de facadas que assola esta cidade de Londres. Um pouco “por sobre o demais”, conforme se dizia, quando a escolha era risonha, franca e uma josta em matéria de ensino.

Desde o dia em que digitei as malfadadas (não confundir com “malfacadas”) linhas, as investidas com armas brancas prosseguiram no mesmo ritmo. Pouco importa os preocupados editoriais, seríssimos policiais e homens de vida pública dando conselho.

Se alguém quiser dar uma facada em outro alguém, é difícil dissuadi-lo do nefando propósito. Principalmente se os esfaqueadores, conforme se sabe, estão lá pelos 15 aos 24 anos. Mesma idade dos esfaqueados. Tudo gente a quem se destina mais de 85% da produção cinematográfica hollywoodiana.

Os garotos que querem ver a última aventura do Indiana Jones são os mesmos que saem por aí de arma branca (às vezes colorida) na mão. Ao contrário dos sociólogos que voltaram à moda nos jornais para opinar sobre o que está acontecendo, não tiro nenhuma conclusão. Acho que um garoto de faca na mão é um fenômeno tão natural quanto uma chuva de verão.

Então, vá lá que seja. A garotada tá solta e armada. Pergunta-se: que fazer?

***

De cara, as primeiras sugestões práticas. Colete à prova de facadas. Estão vendendo como “pãezinhos quentes”, para adaptar uma expressão popular anglo-saxônica.

Lá estava nas primeiras páginas dos jornais britânicos. Professores, trabalhadores sociais, clérigos, funcionários públicos, enfermeiros e enfermeiras e até mesmo lojistas voaram para os estabelecimentos onde os referidos coletes podem ser encontrados.

Não é fácil. Não pretendo sair por aí procurando colete. À prova de faca ou de balas. Tenho, como o Super-homem, minha defesa própria. Posso ser vulnerável à kriptonita (verde, vermelha e azul), não consigo correr mais que uma bala ou um trem nem salto por sobre edifícios num único salto gigante, mas fico em casa e ando com muito cuidado pelas ruas.

Sem olhar ninguém no olho, mas de olho em todo mundo. Não tenho, infelizmente, ações da Body Armour Company, a companhia que produz os coletes e que, agora, fatura alto.

Nestes tempos bicudos, ou, melhor dizendo, tecnicamente, inflacionários (ou serão estagflacionários?), só entendo que meu dinheiro anda curto e tudo cada vez mais caro.

O que resulta em outra conclusão chatíssima: a garotada com menos de 19 anos anda cortando gente não é para roubar nem nada. Boys just want to have fun, para repetir uma canção pop de alguns anos passados. Eu disse boys? Pois disse-o mal. Girls também não se satisfazem mais em passar as unhas num. Vão de faca e, li outro dia, caíram de taco de baseball num infeliz.

Os coletes custam cerca de 600 dólares e devem ser usados sob a camisa ou blusa comum. O ministério da Justiça aprovou os modelos mais em moda. London Fashion Show, como se diz no Brasil. Ou Semana da Moda de Londres, como se diz na Inglaterra.

Vida marota. Vida dura. Vida chata. Vida perigosa.

***

Os gatos também andam assanhados. Pondo as patinhas de fora, para cunhar (unhar?) uma expressão. The sea is not for fishes. Or for people either, for that matter. Traduzindo o que disse na segunda-feira. The sea also is not for cats. O mar também não está para gatos.

O senhor Tom Cox, um fanático por felinos, autor de vários livros a respeito dos até agora simpáticos animais, resolveu convidar o público britânico para participar de seu blog enviando fotos de bichanos fulos da vida.

Ele quer saber quais os gatos mais perigosos desta ilha. Gatos bandidos, por assim dizer. Pensou que ia obter aquela meia dúzia habitual de respostas. Que nada, sô! Foi inundado com fotos de felinos furiosos.

De cara feia, dentes à mostra, prontos para atacar e fazendo (pena que o blog não tenha som) aquele barulho feio que os gatos enfezados fazem quando empombam. Hissssss…, para aproveitar a onomatopéia das histórias em quadrinhos.

Ainda não há coletes à prova de gatos. Luvas especiais, há.

***

No meio dessa história toda, espalhando sangue por todos os lados, reconforta-me ver a gata lá de casa doce e meio boba só fazendo cara de gata mesmo. Sem querer arranhar, sem a menor vontade, ou idade, para atacar. Pelo menos enquanto eu encher a cumbuca de água e a dos biscoitinhos gatolinos especiais.

Filhos? Tenho uma filha. Já passou da idade da faca. Anda escrevendo e publicando livros. O terceiro sai agora em setembro. Encorujo-me, para finalizar cunhando outra expressão.

Mas mesmo quando teenager, essa idade perigosa, jamais me ameaçou de faca. Acho que uma vez, não juro, me mostrou a língua. Aí, com toda certeza, ela tinha toda razão e alguma besteira eu fizera.

 
 
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