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Atualizado às: 01 de outubro, 2008 - 08h06 GMT (05h06 Brasília)
 
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Dulce et decorum
 

 
 
Ivan Lessa
Os latinos sabiam das coisas. Que é doce e de bom-tom morrer pela pátria.

Nunca experimentei. Nem pretendo. O Brasil me pediu uma porção de coisas: CPF, carteira de identidade, título de eleitor, certificado de bons antecedentes, amá-lo ou deixá-lo (deixei, continuei gostando um pouquinho), mas nunca morrer por ele. Dei sorte. Puro acaso de data de nascimento.

Caso contrário, eu teria estourado com a FEB na Itália. Ou em navio da marinha mercante. Nem cheguei a fazer serviço militar. Já que eu, como toda classe média, tinha pistolão e não era pra turma pegar em rifle nem no Forte de Copacabana nem em São Cristóvão. Que é mais doce e decoroso ter um certificado de reservista de terceira categoria do que bater continência e, quem sabe o dia de amanhã? As botas.

Quero que fique claro que mesmo com 34 anos de Reino Unido, 30 dos quais de enfiada, não pretendo morrer por este país que tão bem me recebeu e continua abrigando. Eu pago os impostos, eles não me chateiam. Mais dulce et decorum que isso não pode e nem deve ser.

Mas andam discutindo por estas bandas (paratimbum, bum, bum) essa coisa de morrer, ou pelo menos sair mundo afora, defendendo essa pátria deles aqui, onde sou pouco mais que zero à esquerda, devido ao adiantado de minhas horas e o atraso de vida de meu coração e pulmões.

Coisa de exército. Botou farda, sabemos. Dá em besteira.

A discussão, lançada pelo equivalente local à gente boa do verde oliva (aqui é furta cor), gira em torno de quantos estrangeiros devem e podem ser permitidos servir no Exército Britânico.

Há mais estrangeiros do que nunca no Reino Unido. E nem pensar em fora do Reino Unido. Um mundão. Não há dia que passe em que não sejam fruto (goiaba, romã, açaí) de um bate-boca. O Exército Britânico, sempre em caixa alta, apesar de toda crise financeira, quer limitar o número de estrangeiros que vistam os devidos uniformes e saiam por aí, mundo afora, matando outros estrangeiros.

Estrangeiro matando estrangeiro em nome da Rainha e do país? For Queen and Country? É, essa é dura. Os militares locais, em geral descendentes de outros militares locais, acham que, afim de "salvaguardar a britanicidade" da gloriosa instituição, o número de estrangeiros, ou ex-estrangeiros, para ser mais preciso, não deve exceder os 15%.

Preocupa-os também, a eles, milicos (não estou ofendendo, apenas sendo 99% estrangeiro coberto de brasileiridades), o fato de que a tradicional eficácia marcial britânica (é o que dizem) poderia ficar comprometida se for depender em mais do que a cota mencionada, isto é, 15%, de soldados estrangeiros.

Não se esquece, a turma fardada, de que, na hora da cobra fumar e de se sentar a pua, para ficar apenas em dois de nossos slogans militares, os estrangeiros ostentando as cores da pátria ora adotada (idolatrada e salve, salve ela, na hora dos benefícios sociais, asseguram as más línguas), ora apenas na alça de mira, poderiam ser impedidos pelas potências de onde se originaram de servir em ação militar que, no entender dessas mesmas potências, possa ser maluquice, idiotice, ilegal, ou conforme observou um observador ladino, todas as três coisas juntas ao mesmo tempo, conforme eventos recentes deixaram razoavelmente patente, junto a altas, médias e baixas patentes.

Nos últimos cinco anos, do Zimbábue ao Caribe, aumentou o número de gente querendo servir no Exército Britânico – no Iraque, no Afeganistão, onde o pau estiver comendo. Nem todo mundo sabe servir direito uma mesa ou desentupir com desenvoltura uma pia.

A Comissão Para Igualdade e Direitos Humanos acha que estrangeiros paupérrimos, que mal conseguem se alimentar, devem ter o direito de pegar a bóia servida – ora! – no Iraque e no Afeganistão, claro. Morrer? Perder um braço ou uma perna? Ofícios da profissão, argumenta a mesmíssima Comissão, embora interiorizando o raciocínio.

Enquanto isso, tudo bem com as classes menos privilegiadas, aqui no Reino Unido nascidas e criadas, pegarem pela proa bala, bomba, granada, carro ou gente bomba.

 
 
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