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Atualizado às: 27 de outubro, 2008 - 08h09 GMT (06h09 Brasília)
 
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Deus que se acuda
 

 
 
Ivan Lessa
O meu aparelho de som está pifando. O computador recusa-se a ser validado pela Windows. Minha gata está muito gorda e com umas perebinhas marotas na papada.

A administradora do imóvel em que moro ainda não cuidou da pintura externa da casa e nem resolveu o problema das luzes na escada que vivem pifando. O jornaleiro em frente ao meu metrô foi desaforado comigo e eu deixei de ser seu freguês, sendo por isso obrigado a ler os péssimos jornais grátis distribuídos na porta da estação.

O outono deixa cair. Folhas. Que irão entupir o encanamento externo da casa e possivelmente provocar enchentes como as que derrubaram o teto de minha cozinha em 1987. O outono continua deixando cair. Folhas.

Temperatura em baixa. Meus pulmões agem como duas folhas prestes a abandonarem suas árvores de origem e, presas como que por fios invisíveis, cutucam aurículos e ventrículos de meu coração, que bate ainda mais descompassado que o comum.

A cada rua e esquina, senhoras e senhoritas dirigem incessantemente inanidades a seus celulares. A crise econômica mundial prossegue e olha com cobiça para minhas parcas e suadas poupanças. Pungentes eleições me perseguem em cada jornal virtual brasileiro que, o computador permitindo, abro e dou uma xeretada.

Na mídia local, qual seja, a britânica, além do raio da crise financeira, só dá as eleições americanas, onde dois vendedores medíocres de enciclopédia (aqueles do tempo em que estas eram vendidas de porta em porta e seus representantes tacavam o pé nas ditas cujas impedindo donos e donas de casa de as fecharem e irem cuidar de seus afazeres domésticos) preparam-se para liderar o mundo livre e mostrar para os britânicos qual o próximo país a ser invadido e ocupado.

Durma-se com um barulho desses.

Não durmo. Deveria ter mencionado a insônia. Esqueci. O esquecimento é o sr. Dr. Al Zheimer lembrando do encontro marcado que temos para dia vai, dia vem. Em compensação, acordo com o corpo dorido e que só vai normalizando com a passagem do dia, ou seja, lá pelas 3 da tarde. Normalizando. Essa acabou há séculos.

Meu “normalizando” eu não o desejo a meu pior inimigo. Minto. Desejo sim.

Já rezei reza à bessa, fiz muita promessa. Em mais de uma sexta-feira, deixei na encruzilhada de Earl's Court Road com Old Brompton marafo, farofa, canjerê, cachaça Ypióca e charutos Suerdick. De nada, tudo adiantou.

Como nos tempos do rádio, feito uma doméstica chamada Petronilha ou Ildoclécia, pergunto ao vento outonal, a ninguém enfim: "Senhor Júlio Louzada, o que devo de fazer?"

Eu deveria processar alguém. Macumba, candomblé, essas baianices não funcionam em Londres, se é que funcionavam em Salvador ou Rio de Janeiro, antes mesmo da fusão. Quando em dúvida, já dizia Oscar Wilde, processe alguém.

Sim, mas quem?

Deus, ora essa.

Embora agnóstico, tenho esse direito. Vou consultar meus advogados. Claro que não vai dar em nada.

Nos Estados Unidos, onde há mais coisas dando em alguma coisa e acontecendo que vendedores de enciclopédia se vendendo a preços extraordinários, um cidadão fez precisamente isso: foi e tacou um processo para cima de Deus.

Entrou com ele na Justiça, tudo direitinho, tudo oficial, nos conformes, firmas reconhecidas, coisa e tal. Embora o indivíduo processador em questão também venda suas enciclopédias ou, vá lá que seja, um liquidificador de baixa qualidade: é senador do distrito de Omaha, no Estado de Nebraska.

Triste é o mundo, concordo, companheiros. O senador Ernie Chambers entrou com um mandado contra o Todo Poderoso por, conforme reza (e ora pro nobis) os autos do processo, “pela morte alastrada e indiscriminada além da destruição e do espalhar de terror por milhões e milhões de habitantes do planeta em que vivemos.”

O Supremo Tribunal de Nebraska (quantos votos no colégio eleitoral, hem, Obama? Hem, McCain?) decidiu que Deus Nosso Senhor foge à sua jurisdição.

Deus, pois, escapou das algemas e do macacão cor de abóbora.

É isso aí. Na hora do pau puro, tudo mundo foge a uma jurisdição. Sem exceções. Quero ver agora como é que fica aquela história do “livre arbítrio”.

Enquanto isso, senhoras e senhorinhas caminham fumando, falando e rindo de celulares em riste, todos apontados para mim.

 
 
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