BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 03 de novembro, 2008 - 07h58 GMT (05h58 Brasília)
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
O poder e a negritude
 

 
 
Ivan Lessa
Impressionante. Batuco estas mal digitadas algumas horas antes de o presidente Barack Hussein Obama ser eleito o presidente Barack Hussein Obama.

Parece feitiço, mandinga, não sei bem o quê. Devo ter sido influenciado pelo comercial de 30 minutos exibido na noite de quinta-feira nos Estados Unidos. Aqui, num gesto inaudito, não passaram. Qualquer coisa a ver com a proibição de “comerciais estrangeiros”. Todos aqueles CSI não são, por natureza e feitio, comerciais. Meros reflexos filosóficos da nação irmã desta aqui que tão carinhosamente me acolheu. A mim e a muita outra gente que não presta também.

Monteiro Lobato, como Balzac, na marchinha, atirou na pinta: mulher só depois dos trinta. Não é isso que eu queria dizer. Minha mente se confunde com a profusão de sentimentos diante da inédita eleição. Monteiro Lobato atirou na pinta, sim. Só que foi quando escreveu, em 1926, um livro, seu único romance, chamado O Presidente Negro.

Era passado no ano de 2228. Incrível, o bruxo paulista acertou o 8 final! De resto, a obra não tinha absolutamente nada, mas ab-so-lu-ta-men-te nada, de profético. Nem a mais remota semelhança com um mínimo de situações políticas relativas às terras do Tio Sam, como a chamava o esplêndido autor de O Sítio do Picapau Amarelo.

O livro não chegava a ser um argumento. Nem convidava à polêmica. Empolgados com o título, todas as editoras brasileiras reeditaram-no. Agora, Os Doze Trabalhos de Hércules ou A Chave do Tamanho, que são bons demais, nada, neca, neris de petibiriba.

O presidente negro. Continuo meio sem entender a empolgação tanto de leigos quanto da crítica especializada com o fato. Olhem para a Nigéria. Passem os olhos na República Democrática do Congo. Examinem a Rodésia. Analisem a África do Sul. Confiram a Somália. Chequem a Ruanda. Lupa no Quênia. Todos esses países têm presidentes negros. Ou líderes negros.

Não vejo primeira página de jornal destacando ou enaltecendo o fato. Isso é muito natural. Nem é preciso atravessar o Atlântico de oeste para leste ou de norte para sul, conforme vaticinou, agradecido por ausência de crises financeiras, o presidente Lula da Silva, em pronunciamento recente. Nós mesmos, brasileiros, esquecidos que somos, já tivemos presidente negro. Ou beirando o negro. Fernando Henrique Cardoso não disse para toda a nação ouvir que “tinha um pé na cozinha”? Disse. Foi um belo e corajoso pronunciamento. Só entenderam o lado maldoso da frase. Se podemos chamar de lado maldoso.

Como exclamaria o quase (que lacuna, que vazio esses meses até a posse de Obama…) ex-presidente George W. Bush: "O quê? Como? Hem?"

***

Acima mencionei de passagem Ruanda. Injustiça minha. Deveria ter ficado por lá ao menos uma semana, até melhor entender essa desavença entre hutsis e tutus, ou hutus e tutsis, dependendo do ponto de vista, moral étnico e filológico.

Pois só agora soube, quando eu já estava de malas prontas, que Ruanda e os ruandeses, liderados pelo presidente (negro, sim senhor, e com muita honra) Kagame, prenome Paul, que eles todos, por uma vez unidos, preferiram passar para o inglês como língua oficial, deixando para lá as decantadas belezas do idioma francês. Cansaram-se, os ruandeses de parlevú pra cima e pra baixo. Agora é na base do espiquingres. No que fizeram muito bem. A história julgará e inocentará, estou certo, os responsáveis pela escolha.

Após a Primeira Guerra Mundial (lembram-se?), os europeus partiram de garfo e faca para cima daquele que muitos preconceituosos insistem em chamar de “O Continente Negro” e foram dividindo as partes mais saborosas entre si. Como se fosse um peru de Natal.

A Alemanha ficou com Ruanda e Burundi e uniu os dois países, outrora orgulhosamente soberanos, sob o pouco eufônico nome de Ruanda-Urundi. Ah, esses alemães! Por essas e por outras é que perderam a Segunda, e esperemos a última, Guerra Mundial. Kyniarwanda, belíssima língua local, ainda presta testemunho ao legado teutônico: criança lá vai para ishuli, como preferiam os descendentes de Goethe e Martinho Lutero quando iam para a sua Schule.

Depois da Segunda Guerra, o espólio ruandês ficou com a Bélgica, coitada. Bélgica, um paisete inventado especialmente para servir de caminho para a França, cada vez que a Alemanha quisesse dar uma chegada ao Champs-Elysées para as compras.

A Bélgica não sabia o que fazer com o país. Chegou a tentar negociá-lo com os portugueses, que por sua vez também mostraram desinteresse. Vira e mexe, a coisa, digo, e peço perdão, Ruanda, acabou ficando com os franceses, numa tentativa de acalmá-los depois da farra (sim, farra) que patrocinaram no decorrer da Segundona Guerra Mundial. Como é fato sabido, entre 1939 e 1945, Paris era a única cidade do mundo onde um cidadão poderia levar uma boa vida. Mas isso é outra História.

Resumo desta história: durante décadas os hutus e os tutsis, e os hutsis e tutus, tiveram que oscilar entre o francês e o flamengo. Não a equipe rubro-negra que já foi da Gávea e do marinheiro Popeye. Refiro-me ao outro flamengo. O flamengo falado por alguns bélgicos, se é assim que se diz. Agora, com Obama já diante do espelho experimentando a faixa presidencial, Ruanda mandou brasa e, como nós e o resto do mundo, escolheu o inglês.

Well done, digo eu.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Buu! Truque ou Trato?
31 outubro, 2008 | BBC Report
Efemericidades
29 outubro, 2008 | BBC Report
Deus que se acuda
27 outubro, 2008 | BBC Report
Como ser britânico (ou estrangeiro)
24 outubro, 2008 | BBC Report
Escalafobeticidades
22 outubro, 2008 | BBC Report
Cuecas secas e encharcadas
20 outubro, 2008 | BBC Report
Psss, silêncio! (ou oba, todo mundo nu?)
17 outubro, 2008 | BBC Report
Barracão de bêbados virtuais
15 outubro, 2008 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade