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Atualizado às: 26 de novembro, 2008 - 08h14 GMT (06h14 Brasília)
 
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Meu caro Estripador
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Entendo da solidão humana. Tenho uma vaga idéia do que seja ficar na chuva em Leicester Square para tirar uma foto do George Clooney ou da Jennifer Anniston.

Compreendo até as cartas dos fãs. Já que Clooney, e outros astros de sua grandeza, não estão por aí alardeando seus endereços eletrônicos.

Fui levemente tocado pelo fãzismo. Cantores, atores e atrizes americanos. Um ou outro jogador do Botafogo. Passei ao longe, no entanto, do assédio. O stalker, decididamente, não fixou residência em minha alma.

Sim, parei na rua mais de uma vez para ver a Ava Gardner passar, já que ela morava perto de mim e eu mantinha a maior discrição possível. Idem Ingrid Bergman. E Marcello Mastroianni e Clint Eastwood, numa manhã de sol de inverno atravessndo em vastos, imensos passos a Old Compton Street no Soho.

Compreendo até cartas para senadores baianos reivindicando emprego ou nomeação. Embora não esteja nessa.

Uma coisa nunca me fascinou: escrever cartas para assassino seqüencial, para serial killer, enfim. A sociedade, e as sociedades, que aqui as há para todos os fins, incentivam as pessoas, principalmente as senhoras e senhoritas solitárias, a manter correspondência com um prisioneiro. Supostamente a troca de idéias fará bem a um e outro.

Não se fala, contudo, do cara que pegou de um cacho de banana na venda e saiu sem pagar. Não, essas pessoas ditas solitárias, querem sangue. Muito sangue. Há que se tomar muito cuidado com gente quieta e solitária, sempre me avisaram, antes de entrar numa roda de pôquer. Sem dúvida.

Dados recentemente divulgados, já que não passa dia em que não se divulgue alguns neste Reino Unido, dão conta de que, em todos os tempos, o mais popular dos prisioneiros com o carteiro da prisão de Broadmoor, em Berkshire, é o cidadão Peter Sutcliffe, ex-motorista de caminhão e até onde conseguiu ser, entre 1975 e 1981, assassino contumaz de prostitutas.

Levou 13 delas, com uma chave de fenda, e semeou o pânico no país. Sem contar sete ataques violentos, sempre lá no norte da Inglaterra (ah, os nortes dos países...) Alguns contra mesmo quem não exercia a chamada “mais antiga das profissões”. Jornal foi feito para vender essas coisas. É o que o povo quer ler, pombas! Ao cabo de mil bobeadas da polícia, o que era mais raro, há cerca de três décadas, acabaram prendendo o homem.

Quase por acaso, sem querer. Há poucos fotos dele. Os britânicos respeitam a privacidade dos assassinos mais berrantes. A de gente razoavelmente inocente como o Cristiano Ronaldo ou a Angelina Jolie, não. A do Sutcliffe, sim. Depois não sabem porque sobre eles se abateu uma crise financeira do tamanho de um bonde.

Mas à Peter Sutcliffe. Não, ele não tem direito a celulares. Nem às variantes em torno dos telefones de Graham Bell. Agora, carta, tudo bem. Pode mandar que é bem vinda. E há recorde para se bater e tentar a glória que é comparecer à próxima edição do Livro Guinness.

Quem escreve ao assassino? Na minha opinião, uma assassina em potencial. De prostitutos ou homens de bem. O sentar-se para escrever em letrinha redonda e contar quem você é, como você é, de que música gosta, que programas de TV assiste, que filmes assistiu, isso tudo é a única coisa que impede a senhorita ou madame de ser uma estripadora. De Yorkshire, de Barkshire, de Devon. O escrever aos assassinos nos poupou a nós, cidadãos inocentes, de embarcar em seus caminhões ou “baratinhas” de luxo. Pelo que somos gratos.

Vamos aos dados, que sem dados nada existe na Grã-Bretanha. A sua principal remetente chama-se Diane Simpson. Já trocou cerca de 500 cartas com o Estripador e passou 400 horas visitando-o num período de 10 anos. A última que se soube de Diane, é que ela tinha se casado e mudado. Com um chofer de caminhão? Corre tudo bem com o casalzinho?

Correndo por fora, Olive Curry. Trocou 500 cartas com Sutcliffe. Depois, sumiu, foi ser serial killer na Austrália. O que é mentira minha. Há que se buscar uma lógica para este mundo ilógico em que vivemos, povoado só de gente ilógica.

Chato foi o que aconteceu com Sandra Lester. Lá do Norte também. Não quis bater recorde nenhuma com suas cartas, que não chegaram a 100. Suas intenções, no entanto, eram honradas. Tinha o casamento em vista. Peter Sutcliffe, como com tantas fizera em outras circunstâncias, tirou o corpo fora. Alegou querer manter abertas suas opções. Quer dizer, Peter queria mais do que as 13 que matou e estuprou e as 7 que “apenas” tentou violentar. Uma vez serial, sempre serial.

Eu só me preocupo com uma coisa: e essas mil moças que passam todo dia por mim andando enquanto dependuradas num celular, um sorriso alvar as cobrindo da cabeça aos pés? Quem são? De que serão capazes? Haverá uma chave de fenda guardada em suas bolsas?

 
 
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