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Atualizado às: 03 de dezembro, 2008 - 08h31 GMT (06h31 Brasília)
 
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Nós, os maiorais
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Mais uma vez a Europa – Europa? O mundo! – se curva diante do Brasil. Os números são indisputáveis. As fontes fidedignas. Numa hora em que a crise financeira assola as até ontem grandes cidades das finanças e do luxo - Nova York, Londres, Roma, Paris -, o nosso Brasil, assim como quem não quer nada, dá uma lição de moral e compostura a todos. Quinau geral.

Quem o diz é a Boston Consulting Estimatives (BCE), organização de reputação acima de qualquer suspeita e há mais de 100 anos labutando nas estimativas e consultorias de onde anda e com quem andam os dinheiros desta Terra. Saibam todos, e podem bater no peito (o próprio, claro), que o Brasil é o país no mundo que mais cresce em número de milionários. Arábia Saudita? Emirados Árabes? Tudo isso é pinto perto do galo que agora canta mais alto no poleiro dos cifrões.

Lá está para quem quiser ver. Um dado histórico que deveria constar do currículo de todas as instituições brasileiras de estudo, já que em nossa tradicional modéstia relutamos em alardear o fato: são agora 220 mil brasileiros com pelo menos mais de US$ 1 milhão investidos. Isso agorinha mesmo, neste ano que se despede de sua torcida auri-verde distribuindo beijos para a tribuna de honra, arquibancada e geral.

220 mil brasileiros que ainda ontem, por assim dizer, não tinham onde caberem vivos, quando mais caírem mortos, e que, agora, num piscar de olhos, à vista dos séculos, conseguiram o suficiente para investir. E investir e investir. O Brasil não é apenas matas, mico-leões-dourados e Corcovados. O Brasil é uma catarata do Iguaçu de investimentos. Há de tudo e para todos. Só não passa para o clube do milhão quem for muito preguiçoso ou burro. Duas qualidades aliás que deixaram de pertencer ao léxico da má vontade nossa para com nós mesmos. Estigma que até há bem pouco nos marcava.

O BCE não deixa parado aí, aberto no meio da sala, o saco de presentes e surpresas natalinas. Como o bom velhinho de vermelho bordoado de arminho, ele faz seu “ho, ho, ho” (afinal é bostoniano), e tira mais lá de dentro. Envolto em brilhante papel dourado e ostentando um vasto laço vermelho, lá está o presentaço: ao todo, cá entre nossas terras e por meio de nossas gentes, há mais de US$ 1,2 trilhões aplicados nos empreendimentos mais sui generis: da pipoca na entrada no jogo de futebol à exploração de testículos de bode para fins industriais.

É a imaginação industrial finalmente no poder.

Eu disse tratar-se de presente e surpresa. Pois disse-o mal. O presente foi conquistado no braço, na base do peito e da marra e do muque, conforme se dizia, por homens e mulheres de visão, capacidade de liderança e indomável persistência. O presente foi por eles armado e a eles mesmos doados. Não se esqueceram, porém, de nós outros, remediados, ou lutadores ambicionando lá chegar (e chegaremos) onde eles chegaram. Deram-nos, ou devolveram-nos, aquilo que se convencionou chamar, nos meios letrados, a “auto-estima”, essa que já foi um dia o amor próprio mesclado ao orgulho.

220 mil milionários? Qual! 250 milhões, isso sim. Que essas coisas pertencem, num sentido poético mas real - e que os distintos não me compreendam mal -, a todos.

O BCE ressalta ainda o fato de um crescimento espantoso. O crescimento no número de milionários brasileiros foi de 70% em apenas dois anos. O equivalente a vir lá de baixo, por fora, deixando esses alazões arábicos todos para trás, a todo e elegante galope.

Haverá mais fogos de artifício a estourar numa festa iluminada em torno dos condomínios de luxo que, qual bestas no cio, não param de se reproduzir. Digo isso no melhor sentido possível. Me entendam.

Um adendo triste e inútil.

O Instituto dos Pobres do Brasil (IPB), organização bissexta, que não possui local ou recursos para se reunir, ou mesmo dispõe do número suficiente de pessoas versadas em aritmética, língua portuguesa ou sapatos, não teve mais uma vez o que comentar a respeito.

Um de seus poucos membros, Fagundes de Tal, possivelmente meliante, ou feirante, algo assim, mandou um crioulinho descalço à redação de um semanário nacional e um jornal carioca, que, após esperar algumas horas, conseguiu se avistar com uma secretária a quem passou o recado que lhe fora confiado. Desconhece-se o nome do petiz, mas o que ele declarou – e era declaração oficial – foi o seguinte:

"Óia aí, nóis não tâmo entendendo nada não, num tá sabendo?"

E ainda acrescentou:

"Num pódi sê uns trocado?"

 
 
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