Como uma pequena cidade britânica virou exportadora de gelo a países mais frios

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Image caption Fábrica em South Kirkby produz 500 toneladas de gelo por dia

No interior do armazém, trabalhadores perambulam empurrando empilhadeiras. Usam luvas grossas e capacetes forrados com material isolante. Os casacos estão fechados até o pescoço.

Parece o cenário de uma fábrica na Sibéria, mas embora a temperatura no interior do complexo seja de 21 graus negativos, do lado de fora temos 10 graus e sol brilhando sobre pastagens verdes, onde três pôneis fazem um lanche.

Seja bem-vindo ao condado de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Mais precisamente a South Kirkby, cidade de 11 mil habitantes que detém um estranho título: trata-se da capital europeia da produção de gelo.

Tudo graças à companhia The Ice Co, que produz 500 toneladas de gelo por dia e exporta o produto para uma série de países - incluindo Suécia e Dinamarca, vizinhos europeus conhecidos pelos invernos bem mais rigorosos que o britânico.

Em uma era repleta de conveniências, poucos de nós pensamos em gelo. Mesmo que usemos o produto frequentemente - seja para gelar bebidas, diminuir inchaços ou fazer milkshakes – sua fabricação parece evidente: coloque água em uma forma. Coloque a forma no freezer. Remova-a. Repita a operação.

Expedições

Mas essa operação self-service é recente. Durante séculos o gelo foi um produto valioso e que não podia ser fabricado em casa. E para uma pequena população europeia, o gelo está novamente se tornando um luxo – dessa vez, em sua forma empacotada.

Os primeiros países a produzir gelo na Europa, ainda na Idade Média, foram Espanha, França e Itália, explica Maryse Prior, secretária da Associação Europeia de Gelo Empacotado.

“Antigamente, homens eram enviados para regiões geladas do Mar Negro para quebrar blocos e trazê-los para serem vendidos”, explica Prior. O gelo era mantido ou flutuando em água gelada ou enterrado bem fundo, sendo coberto de neve.

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Image caption De conservante, gelo virou até material de arte

A Ice Co começou de forma semelhante. Foi fundada em 1860 por Joseph Marr, antepassado da atual diretora-executiva da companhia, Polly Marr. O negócio começou no ramo do transporte de peixes: o desafio era manter a carga fresca.

Assim como as gerações anteriores, pescadores de Yorkshire usavam os recursos naturais que tinham a seu dispor. “Os pescadores navegavam até a Noruega e rebocavam de volta pedaços de geleiras”, explica Marr.

Em 1927, os Marr criaram sua primeira fábrica de gelo, mas foi apenas em 1960, quando um dos diretores da companhia esteve nos EUA e viu o produto sendo vendido em sacos nos supermercados, que a família resolveu investir no ramo atual.

Em 2006, o negócio pesqueiro foi vendido e os fundos aplicados no desenvolvimento do complexo de South Kirkby, o que incluiu a compra de diversos concorrentes, lançados como uma marca única em 2010.

Desde então, a Ice Co domina o mercado – nas Olimpíadas de Londres (2012), por exemplo, não apenas gelou os drinques, mas forneceu até o gelo para o tratamento médico dos atletas. De 2010 até o ano passado, as vendas internacionais, embora representem apenas 10% da produção da empresa, cresceram 770%, atingindo mercados como Austrália e Hong Kong.

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Image caption Processo na fábrica é totalmente automatizado

A demanda por gelo na Europa está crescendo. Até alguns anos, o uso de cubos de gelo em bebidas ainda era visto como algo feito apenas por americanos.

“Na França, encontramos sacos de gelo em todo lugar”, afirma Prior. E mesmo em pub bem tradicionais de Londres, como o Mayflower, clientes britânicos são vistos colocando gelo em suas canecas de sidra.

Graças à demanda de espanhóis, belgas e irlandeses, países da União Europeia hoje compram 88% mais gelo britânico do que em 2013, de acordo com o DEFRA, equivalente britânico ao Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente. A China, por exemplo, triplicou suas importações nos últimos dois anos.

E empresas como a Ice Co investem pesado no quesito higiene para impulsionar as vendas: para visitar a fábrica de South Kirkby, é preciso usar jalecos, toucas e botas especiais. Há critérios rigorosos de assepsia para os funcionários e a proibição do uso de vidro nas instalações.

Depois de cortado e empacotado, o gelo passa por detectores de metais para evitar que anéis ou pulseiras perdidas sejam enviadas como “brindes”. Isso apesar de que os funcionários sequer tocam no gelo. Nem mesmo os sacos plásticos.

Todo o processo é automatizado.

Mas a Ice Co acena com mais do que produtos limpos: um deles é o Super Cubo, lançado em 2014 e que promete derretimento cinco vezes mais lento que o do gelo convencional. O Ice and Slice é uma combinação de gelo e pedaços de fruta congeladas – muito usadas para fazer vitaminas.

O produto mais recente são sacos de 250ml de coquetéis congelados – do daiquiri ao mojito, o primo mais famoso da caipirinha. Basta adicionar um pouco de água quente.

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