Como o apetite pelas séries de TV ressuscitou o 'final em aberto'

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Image caption Séries de TV como 'Breaking Bad' e 'Homeland' fizeram muita gente parar de esnobar os 'cliffhangers', recurso típico de folhetim

Há uma pistola carregada em uma sala lotada. As luzes se apagam segundos antes de os primeiros tiros ecoarem. Um carro para na garagem de uma casa em que uma trilha de roupas leva até o quarto, onde uma esposa infiel está na cama com seu amante. Uma questão ou uma revelação de alguma coisa que foi subitamente lembrada no momento em que o trem deixa a estação.

São cenas de clímax interrompido.

Você pode não ver um ponto de suspense chegar, mas certamente fica à espera de algo mais.

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Como recurso literário, o suspense tende a ser menosprezado por autores. Ele é visto como ficção de gênero e algo que tem desempenho melhor em romances que fazem partes de séries cujos autores precisam manter leitores curiosos durante os meses necessários para escrever a continuação.

Espera

Não é surpresa que este tipo de história surgiu no século 19, quando ficção era um produto principalmente consumido de forma serial, em revistas - o chamado folhetim. Um dos principais autores da época, Charles Reade, ficou famoso com a frase "Faça-os rir, faça-os chorar, faça-os esperar - exatamente neste ordem".

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Image caption Charles Dickens fez fama com folhetins

Mas os chamados cliffhangers ("à beira do precipício", expressão usada para descrever cenas finais de livros e filmes que terminam com uma situação extrema "a ser continuada") são um negócio sério. Pergunte à princesa Scheherazade, cuja vida dependia das histórias que contava para o sultão, que a mataria se não gostasse delas. E foi este tipo de literatura que catapultou para a fama internacional o escritor britânico Charles Dickens e trouxe fortuna para uma certa J.K. Rowling.

Um homem que aprecia o poder do cliffhanger é Julian Fellowes. Depois de cinco anos transformando em obsessivos os fãs da série de TV Dowton Abbey, o mestre da manipulação agora se prepara para uma nova "sessão de tortura" no papel.

Ou melhor, na forma do e-book Belgravia, que será publicado em partes, como um aplicativo. Tecnófobos podem esperar até julho, quando o romance sairá completo em papel. O resto de nós, porém, poderá ler (ou ouvir) um capítulo por semana durante três meses.

A história começa no famoso baile dado pela Duquesa de Richmond, em Londres, na véspera da Batalha de Quatre Bras, já no apagar das luzes das Guerras Napoleônicas, em 1815. De acordo com o website de Fellowes, cada capítulo promete reviravolta e suspense. Isso é fundamental para o sucesso da empreitada, pois o autor precisará manter os fãs curiosos o suficiente para assinar todos os 11 capítulos.

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Nos últimos anos, o surgimento de séries de TV extremamente bem escritas fez muita gente parar de esnobar os cliffhangers. Shows como Breaking Bad e Homeland são um exemplo.

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Image caption A princesa Sheherazade precisa de suspense para salvar sua vida, de acordo com a lenda

É fácil esquecer o quão literárias são as origens do suspense. O termo que usamos para descrever os truques de Scheherazade foi, na verdade, criado em resposta a um romance escrito por Thomas Hardy. A Pair of Blue Eyes foi publicado em série na revista Tinsley, em 1873. No final de um dos capítulos, Henry Knight, um dos vértices de um triângulo amoroso, é visto pela última vez segurando-se à beira de um precipício. Literalmente (hanging from a cliff, em inglês).

Leitores tiveram que esperar um mês para saber se ele tinha sobrevivido. Três décadas antes, fãs de Dickens à espera de um novo capítulo de A Loja de Antiguidades, fizeram um quebra-quebra no porto de Nova York, à espera do navio carregando a revista em que ele tinha sido publicado. O personagem Litte Nell estava gravemente doente no capítulo anterior e o suspense foi tão grande que fãs sequer esperaram o navio atracar e gritavam para os marinheiros, pedindo spoilers (que "entregassem" a trama).

Shakespeare também usou cliffhangers - pense, por exemplo, em Romeu e Julieta ou no começo de A Tempestade.

Na psicologia, o desejo por suspense é conhecido como o efeito Zeigarnik, batizado em homenagem à psicóloga soviética Bluma Zeigarnik. Observando garçons em um restaurante de Viena, ela notou que, apesar de os garçons poderem lembrar de pedidos próximos a serem servidos, eles não conseguiam manter na memória os já completados. Ela concluiu que faz parte do instinto humano ter "vício" em resolução.

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No entanto, em história com cliffhangers, sabemos que essa resolução nos será negada diversas vezes. Embora saibamos que, no fim das contas, a história é construída e fictícia, isso faz dela algo mais emocionante. Nossas imaginações correm soltas, agora alimentadas pela mídia social, e nos encoraja a personalizar a narrativa e aprofundar a conexão com os personagens.

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Image caption Versão cinematográfica de "A Loja de Antiguidades"

Queremos desesperadamente saber o que acontece, mas não estamos preparados para o fim ainda. Existe uma frase mais frustrante do que "continua no próximo episódio"? Por vezes, mesmo o final de uma série de TV nos nega um encerramento definitivo - os roteiristas resistem, à espera de uma nova série, por menores que sejam as esperanças.

Embora a tecnologia esteja por trás da aventura de Julian Fellowes pela ficção serializada, essa mesma força tem alterado a forma como o suspense atua sobre nós, diminuindo sua importância para quem quer ser uma "nova Scheherazade".

Nos dias de Dickens, audiências tinham que esperar um mês para descobrir o que acontecia depois. Em 2016, quando estamos assistindo séries de TV ou mesmo lendo ficção praticamente à medida em que é escrita, Belgravia terá trabalho dobrado para capturar as atenções.

Mas talvez a abundância de gratificação vá justamente estimular nosso apetite por suspense. Ou seja, nossa história de amor por cliffhangers terá continuação...

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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