Por que orcas em cativeiro são perigosas

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Image caption Parque americano SeaWorld anunciou encerramento gradual de shows com orcas

Na semana passada, depois de muitos anos sob pressão de acadêmicos e organizações de defesa dos animais, o parque temático americano SeaWorld anunciou que o término gradual dos espetáculos com orcas adestradas.

A decisão ocorre em meio a uma enxurrada de histórias, divulgadas pela imprensa, sobre os graves problemas de saúde que atingem orcas em cativeiro, ou sobre casos em que os animais atacaram – e até mataram – seus treinadores.

Muitas das notícias dos últimos tempos se concentraram em uma orca chamada Tilikum, que vive no SeaWorld de Orlando, na Flórida. O animal já esteve envolvido em três mortes e agora, segundo a administração da franquia, está muito doente por causa de uma infecção bacteriana em seus pulmões.

Mas será que casos como o de Tilikum são realmente provocados pela vida em cativeiro?

Condições estressantes

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Image caption Na natureza, orcas vivem em grupos unidos por códigos em comum

O assunto é polêmico há muitas décadas, mas foi um incidente em 2010 que trouxe o problema à tona. Em frente a uma multidão de visitantes, Tilikum arrastou a treinadora Dawn Brancheau para o fundo do tanque e a matou.

A orca já tinha participado de um ataque junto com outros dois animais que resultou no afogamento de um adestrador, em 1991. Em 1999, Tilikum também teria afogado um homem que invadiu o parque.

Apesar da reação de choque aos incidentes, inclusive com a opinião pública pedindo que Tilikum fosse sacrificada, especialistas em mamíferos marinhos se apressaram em culpar o parque e seus funcionários.

O documentário Blackfish, lançado em 2013, argumentava que os rompantes violentos da orca eram resultado direto das condições estressantes de sua vida em cativeiro.

A tese ganhou força quando, depois de décadas de observações de orcas em seu habitat natural, cientistas concluíram que o animal não é naturalmente violento com o homem. Não há casos registrados de mortes humanas provocadas por orcas, por exemplo.

“No cativeiro, nós forçamos essa proximidade artificial com o ser humano. Então as orcas às vezes reagem e acabam matando quem estiver por perto. Elas são muito grandes para ficarem presas”, afirma Naomi Rose, bióloga especialista em mamíferos marinhos do Animal Welfare Institute, em Washington.

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Image caption Captura de orcas para espetáculos começou na década de 60 e ainda ocorre

A orca (Orcinus orca) também é conhecida como “baleia assassina”. Mas, na realidade, elas são golfinhos e não baleias – apesar de essas espécies pertencerem à mesma sub-ordem, a dos cetáceos.

Segundo a ONG Whale and Dolphin Conservation, pelo menos 150 orcas foram capturadas e levadas a cativeiro desde 1961 em todo o mundo.

Há 35 anos, o SeaWorld deixou de capturá-las em seu habitat natural e investiu em um programa de reprodução em cativeiro. Mas, em outras partes do planeta, a prática continua. Na Rússia, 14 animais foram capturados desde 2002.

Hoje, de acordo com a Change for Animals Foundation, há 56 orcas em cativeiro – parte de um total de 2 mil golfinhos vivendo nessas condições.

'Mais sociáveis do mundo'

A vida das orcas em cativeiro é claramente diferente daquela em seu habitat natural. Muitos pesquisadores argumentam que o confinamento não atende às mais básicas necessidades do animal.

Basta pensarmos na vastidão dos oceanos, o habitat natural das orcas. “São animais que coordenam seus movimentos em uma escala de dezenas de quilômetros. É muito difícil reproduzir isso em um aquário”, afirma o biólogo conservacionista Rob Williams, da Oceans Initiative, em Seattle, nos Estados Unidos.

Muitas orcas se deslocam por mais de 100 quilômetros por dia. Ainda não se sabe a distância que elas percorrem em um ano, mas uma equipe de cientistas conseguiu rastrear um grupo de orcas que nadam frequentemente entre a Península Antártica e a costa do Brasil, depois voltam.

A situação das orcas se agrava ainda mais se considerarmos o comportamento típico desses animais na natureza. “Trata-se do mamífero mais sociável da Terra, mais até que o homem”, diz Williams.

Isso ocorre porque elas vivem em grupos formados por espécimes de várias gerações e que permanecem juntos praticamente durante toda a vida.

Uma orca macho nunca abandona sua mãe. Ele pode deixar o grupo para acasalar, mas sempre volta. As orcas são os únicos mamíferos em que esse comportamento é observado.

Comunicação e alimentação específicas

Além disso, cada família de orcas pode ser identificada por um chamado particular e costuma caçar presas diferentes, o que significa que esses grupos – ou “ecotipos” – têm uma cultura que é transmitida de geração a geração.

No cativeiro, o ecotipo ao qual uma orca pertence nem sempre é levado em consideração. Elas não são alimentadas com aquilo que preferem nem são cruzadas com espécimes do mesmo ecotipo.

Na natureza, ecotipos distintos não se unem, portanto a convivência forçada entre eles pode ser problemática. Em 1989, durante um show no SeaWorld de San Diego, uma fêmea dominante chamada Kandu investiu contra um novo membro do grupo, rompendo uma artéria e morrendo por hemorragia.

“Esse nível de agressividade nunca foi observado na natureza. Os dois animais envolvidos no incidente vinham de oceanos diferentes. Eles nunca teriam se encontrado se estivessem em seus habitats”, afirma Rose.

As organizações que mantêm orcas e golfinhos em cativeiro argumentam que a prática ajuda cientistas e membros do público a aprender mais sobre esses animais.

Mas muitos pesquisadores acreditam que o comportamento dessas espécies muda no cativeiro, o que é evidenciado por algumas atitudes repetitivas que estão ligadas ao estresse.

“As orcas estão constantemente se esfregando nas paredes dos tanques, e algumas até arruinaram seus dentes, sofrendo de dores e infecções. É o começo de um ciclo de danos físicos”, afirma Lori Marino, ativista de defesa dos direitos dos animais.

Além disso, dados coletados pelo órgão de administração oceânica e atmosférica dos Estados Unidos mostram que as orcas em cativeiro vivem menos que aquelas na natureza.

Qual a solução?

Devolver esses cetáceos ao oceano pode parecer uma solução simples. Mas na prática, a readaptação é muito difícil.

Apesar do famoso caso da orca Keiko, estrela do filme Free Willy, que morreu um ano depois de voltar para a natureza, outras histórias mostram que, com os cuidados corretos, o animal pode ser reintroduzido a seu habitat.

Hoje, algumas organizações estão investindo em santuários artificiais no mar onde as orcas possam se habituar antes de serem libertadas. “É um processo que leva tempo e que necessita de muito conhecimento”, afirma Marino.