O peculiar mosquito que se adaptou para viver no metrô de Londres

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Image caption Subespécie tem comportamento diferente de seus parentes na superfície

Os usuários do metrô de Londres já estão habituados aos destemidos camundongos que vivem nos túneis e estações.

Mas é um mosquito o animal que provavelmente mais se sente em casa no sistema subterrâneo da capital britânica, já que evoluiu nas condições especiais desse habitat único.

Trata-se de uma subespécie geneticamente distinta das demais, descoberta pela primeira vez durante a Blitz da Segunda Guerra Mundial, quando os túneis do metrô eram usados como abrigos antiaéreos. Durante toda a guerra, quase 180 mil pessoas recorreram a esses refúgios – e eram atacadas por todos os tipos de insetos.

“O metrô naquela época era muito diferente do que é hoje”, afirma Steven Judd, diretor de meio ambiente da London Underground, empresa que gerencia a rede metroviária de Londres. “As águas paradas e as dedetizações usadas antigamente tornavam moscas, carrapatos, piolhos e pulgas muito mais comuns do que hoje.”

Gosto por sangue humano

Image caption Para cientistas, mosquito evoluiu primeiro no metrô de Londres, iniciado em 1863

Depois da guerra, apesar de uma ou outra reclamação de funcionários que tinham sido picados, os mosquitos do metrô foram esquecidos. Até que, quase 50 anos depois, uma estudante de medicina de Londres resolveu observá-los mais a fundo.

Katharine Byrne recolheu espécimes de sete diferentes locais ao longo da rede metroviária, que tem 180 quilômetros de extensão. E descobriu que eles eram muito diferentes de seus parentes que vivem acima da terra: batizados de Culex pipiens molestus, eles demonstraram uma preferência por sangue humano.

“O Culex é um mosquito muito comum”, afirma o biólogo Bruno Gomes, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, na Grã-Bretanha. “Há centenas ou milhares de tipos e eles não são muito nocivos.”

O mosquito molestus se parece com seus parentes que vivem na superfície, os Culex pipiens. Mas seus comportamentos são bastante distintos: o pipiens se alimenta de aves e hiberna no inverno, além de precisar de sangue para colocar seus ovos e usar muito espaço na hora do acasalamento; a subespécie subterrânea não necessita de nada disso.

“A grosso modo, essas diferenças podem ser interpretadas como adaptações à vida subterrânea”, explica Byrne. Como não dispõem de aves para se alimentar, o mosquito do metrô passou a atacar mamíferos, principalmente ratazanas e seres humanos.

O acasalamento é feito em espaços fechados e eles perderam a tendência a hibernar no inverno porque não há estações do ano no mundo subterrâneo.

Byrne descobriu ainda que esses mosquitos hoje são tão diferentes genética e morfologicamente que não conseguem cruzar com outras subespécies, por terem uma biologia reprodutiva distinta.

Evolução ‘forçada’

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Image caption Subespécie também foi encontrada nos metrôs de Nova York e Tóquio

Depois da construção da rede metroviária, iniciada em 1863, os túneis foram lacrados e isolados da superfície, e muitos mosquitos acabaram “presos” ali. “Foi essa barreira física que provocou a evolução divergente das duas populações”, diz Byrne.

Com uma espécie se reproduzindo sobre a superfície e outra se procriando no subsolo por quase cem anos, o cenário estava pronto para a evolução de uma nova subespécie. Segundo cientistas, o processo pode ter ocorrido durante algumas centenas de gerações.

Camundongos, raposas e até cágados já foram encontrados no sistema de metrô de Londres. Eles vivem em meio à poeira de carvão emitida pelos freios dos trens e à felpa que se forma nos túneis a partir de pelos humanos e fibras de roupas.

Segundo Judd, em 2015 a London Underground não recebeu nenhuma reclamação de picadas por parte dos usuários. A rede transportou 1,3 bilhão de passageiros durante todo o ano passado.

Tóquio e Nova York

De acordo com Gomes, o mosquito molestus também é encontrado em outras construções subterrâneas feitas pelo homem, como porões e redes de água e esgoto. A subespécie já foi detectada nos metrôs de Tóquio e Nova York.

Ainda assim, há alguns fatores genéticos que sugerem que esse mosquito surgiu primeiro em Londres.

Byrne comparou a composição genética desses insetos com seus parentes que vivem acima da terra e descobriu que seus alelos (ou variantes genéticas) são incrivelmente semelhantes.

“Se esses mosquitos tivessem vindo de outros países, seus alelos seriam bem diferentes dos do mosquito que vive na superfície”, afirma David Reznick, biólogo da Universidade da Califórnia.

Além disso, os mosquitos do metrô são bastante parecidos geneticamente, o que sugere que um pequeno número de indivíduos criou essa população. “Algumas centenas de anos sob as circunstâncias certas pode ajudar a formar uma nova espécie”, explica Reznick.