Internada por câncer, minha professora escreveu: 'Lute como se eu estivesse aí com você'

#UmProfessorMudouMinhaVida
Image caption #UmProfessorMudouMinhaVida reúne histórias de nossos leitores sobre mestres que tenham deixado lições muito além do currículo escolar

A BBC Brasil criou a hashtag #UmProfessorMudouMinhaVida para reunir histórias de nossos leitores sobre mestres que tenham deixado lições muito além do currículo escolar. A ideia surgiu com a enorme repercussão do vídeo, gravado em uma escola pública de São Paulo, em que o professor de Ciência Luis Antônio Jarcovis é aplaudido por alunos e professores em uma surpresa em seu último dia de trabalho.

O vídeo, gravado pela diretora da escola, emocionou milhões de brasileiros. Foi visto por muitos como um reconhecimento muito aquém do devido ao magistério, mas simbólico de uma necessidade urgente.

Em entrevista à BBC Brasil (leia aqui), Jarcovis se lembrou de alguém que, em sua infância, teve um papel decisivo para que ele, apesar das dificuldades da família, continuasse estudando.

A homenagem ao professor Edson Souto Ramos, que lecionava em uma escola da Zona Leste de São Paulo nos anos 60, era, para Jarcovis, como um fechamento de um ciclo. Foi nele que, aluno, se espelhou para virar professor e a ele reservou seus aplausos no momento em que ganhou os "holofotes".

A jornalista Mayra Sartorato, da BBC Brasil, dá partida à nossa iniciativa com este relato:

Direito de imagem Mayra Sartorato
Image caption 'Aos 7 anos e aos 25, as lições da Dona Eliete continuam comigo'

"Tinha sete anos, estava na primeira série e, com meus 1,55 metros, era, de longe, a mais alta sala. Imediatamente, me tornei o alvo das piadas. 'Girafa, está frio aí em cima' era uma pergunta comum. Minha mãe, professora, tentou me preparar para isso, mas eu não aprendi com a rapidez que precisava. Era choro todos os dias.

No meu primeiro dia no novo ciclo, minha professora, a Dona Eliete, me fascinou. Parecia um anjo com suas roupas floridas, seus cabelos pretos e o sempre presente batom vermelho. E ela sabia como conduzir a turminha. Sempre que minhas lágrimas escorriam, estava ali para me socorrer e brigar com qualquer um que tivesse me magoado.

Em um momento do ano, no entanto, ela deixou de dar aulas - uma substituta assumiu o seu lugar. Eliete estava doente, com câncer de mama. Fiquei arrasada, embora não entendesse muito bem o peso do câncer.

Sem poder visitá-la no hospital, mandei um bilhete desejando melhoras. Não esperava que ela me respondesse, mas respondeu: 'lute como se eu estivesse aí com você'.

Meses depois, a vimos, muito magra e sem cabelos. Mesmo assim, ainda era o anjo que me protegeria quando eu precisasse.

Embora tenha voltado por um tempo às aulas, segundo me recordo, ela não resistiu à doença.

Hoje, uma escola da cidade leva seu nome. A altura, que antes me fazia chorar, me levou ao basquete. Como jornalista ou como atleta, nunca me esqueci das palavras de Dona Eliete. Elas fazem parte de quem sou hoje." #UmProfessorMudouMinhaVida

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