O que pensam as pessoas que culpam tramas sinistras pelos rastros que os aviões deixam no céu

Placa denuncia as supostas 'trilhas químicas'
Image caption Algumas pessoas estão convencidas de que a fumaça branca deixada por aviões é evidência da pulverização de produtos químicos | Foto: Suzanne Maher

Os rastros brancos que se vê no céu quando um avião passa são "plumas" de vapor d'água. Na internet, porém, algumas pessoas dizem não acreditar nisso. Para elas, tal fenômeno é na verdade evidência de um plano secreto que tenta envenenar o planeta e até a promover um extermínio populacional.

Mas Por que essas e outras teorias estão tão presentes nas redes sociais?

Suzanne Maher não gosta do termo "teoria da conspiração". Quando a reportagem usa esse termo em uma ligação para solicitar uma entrevista, ela diz que a expressão foi criada pela CIA (agência de inteligência dos EUA) para desacreditar todos aqueles que questionam o governo.

No entanto, como fundadora do grupo Bye Bye Blue Sky ("Tchau Tchau Céu Azul"), que se dedica a ampliar as discussões sobre o que chamam de "chemtrails" ("trilhas químicas"), ela está acostumada a ouvi-la.

"O que peço é que deixemos para trás a ideia de que esta é uma teoria da conspiração", diz a canadense, moradora de Toronto. "Há 20 ou 30 anos, não víamos estes rastros. Tínhamos um belíssimo céu azul."

Maher é uma entre um número significativo de pessoas que usam as redes sociais para espalhar essa mensagem. Elas têm explicações diferentes para quais seriam os objetivos das supostas "chemtrails" ("trilhas químicas") - uma das mais populares é a crença de que os governos estão controlando o clima em larga escala.

Image caption Suzanne Maher é fundadora do grupo Bye Bye Blue Sky ('Tchau Tchau Céu Azul') | Foto: Suzanne Maher

Outra é que os cientistas que conduzem pesquisas legítimas sobre como lidar com os efeitos das mudanças climáticas por meio de um processo chamado geoengenharia estão, na verdade, nos envenenando secretamente.

Há também aqueles que acreditam que grupos secretos poderosos estão pulverizando produtos químicos para nos tornar mais obedientes e fáceis de controlar - um conluio que envolveria as Nações Unidas, militares, governos, cientistas, pilotos, empresários e até mesmo a família Rothschild (clã de origem judaica que criou um império bancário na Alemanha).

História e ciência

Certamente você já viu os rastros a que essas pessoas se referem. São aquelas aparentes fumaças brancas que se formam atrás dos aviões - resultado da condensação do vapor de água que sai dos motores, transformando-o em cristais de gelo sob certas condições atmosféricas.

Suzanne Maher não está certa quando diz que são um fenômeno novo. Há imagens que mostram esse tipo de rastro em aviões que lutaram na Segunda Guerra Mundial, por exemplo.

Direito de imagem AFP
Image caption Autoridades chinesas atuaram para evitar que chovesse na cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim, em 2008

Já as tentativas de se modificar o clima, apontadas por algumas dessas pessoas como razão desses sinais, têm um longo histórico.

Em 1932, durante a era da União Soviética, foi criado o Instituto Leningrado para Fazer Chover. Outro caso é mais recente - as autoridades chinesas usaram uma técnica conhecida como "semeadura de nuvens" para garantir que não chovesse durante a cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim, em 2008.

Por outro lado, existe um novo campo de pesquisa dedicado especificamente a intervir nos sistemas naturais da Terra de forma a lidar com as mudanças climáticas: a geoengenharia.

Hoje, porém, ela ainda está mais para uma ciência teórica - com a maior parte do trabalho sendo feita em modelos computacionais.

Mas um dos cientistas mais proeminentes dessa especialidade, o professor David Keith, da Universidade Harvard, disse ao jornal The New York Times que soube sobre testes de uma das mais controversas técnicas do ramo: a geoengenharia solar, que consiste na injeção com aerossol de pequenas partículas refletoras na atmosfera - o objetivo é reduzir a quantidade de luz solar que chega ao solo e, assim, resfriar o planeta.

Outras tentativas bem-sucedidas de modificar o clima foram feitas a nível local, mas certamente nenhuma na escala denunciada por aqueles que acreditam em teorias da conspiração.

Mais gente do que se imagina

Uma pesquisa internacional publicada no site IOPScience apontou que 17% das pessoas consultadas acreditavam que as teorias de conspiração sobre as "chemtrails" eram verdadeiras ou parcialmente verdadeiras.

Image caption Suzanne diz que a descoberta sobre os rastros de fumaça 'mudou a sua vida' | Foto: Suzanne Maher

Maher diz que teve conhecimento dessas teorias há seis anos, quando leu o blog de uma menina de menos de dez anos - a criança não queria mais brincar fora de casa porque o céu estaria contaminado, "não era mais azul".

"Seu relato me intrigou, e então comecei a investigar o problema. Essa revelação mudou minha vida", diz ela.

Esse processo a levou a criar a Bye Bye Blue Sky. Ela administra um grupo fechado no Facebook, no qual cerca de 5 mil pessoas trocam informações e coletam dinheiro para campanhas. Ela pessoalmente aprova cada novo membro.

"Nesse grupo, não debatemos se isso está acontecendo. Todos sabemos que é o caso", afirma.

Os grupos fechados de pessoas que pensam a mesma coisa - típicos das redes sociais e da internet - são uma das principais razões pelas quais as teorias da conspiração ganham corpo.

"As pessoas tendem a compartilhar informações, mas também a consumir o que é consistente com o que elas já acreditavam", explica Karen Douglas, especialista em psicologia das teorias de conspiração da Universidade de Kent, no Reino Unido.

"As pessoas acabam vivendo nessas bolhas de informação, ou câmaras de eco, onde compartilham ideias com pessoas com as mesmas crenças. E elas leem informações que confirmam o que elas acreditam", explica.

'O maior crime contra a humanidade em toda a história'

Russ Tanner administra o que ele diz ser o maior grupo dedicado às "chemtrails" no Facebook: o Chemtrails Global Skywatch, com mais de 140 mil membros.

Ele chama essas trilhas de "o maior crime contra a humanidade em toda a história".

Um meme que postou é um exemplo típico da paranoia compartilhada por esses grupos: a peça sugere que os rastros são "a versão moderna da eugenia e do despovoamento forçado".

Image caption Russ e Suzanne asseguram terem detectado níveis anormais de químicos relacionados aos rastros dos aviões

Russ pediu que a reportagem ligasse para sua casa no Estado do Maine, nos EUA, de madrugada, às 3h.

Ele justifica o horário dizendo que, onde mora, seriam "acionados muito aerossóis à noite", impedindo-o de dormir com o "ar tão concentrado" de produtos químicos.

"Isso queima minhas narinas, causa inflamação, aumenta a pressão arterial, causa problemas de estômago e dores de cabeça", diz ele.

Tanto Russ como Mahler dizem ter feito seus próprios estudos.

"Comecei a analisar meu solo e meu cabelo. Havia traços de alumínio, bário, estrôncio, arsênico, manganês. Hoje, vivo de maneira muito saudável", afirma ela.

Mahler analisou até mesmo seu cachorro - diz ter descoberto que o animal estava contaminado com um metal radioativo.

Russ, por sua vez, conta ter encontrado na água da chuva uma quantidade de alumínio seis vezes maior do que o normal.

Ambos consideram essas análises como evidências sólidas de que a atmosfera está sendo contaminada.

O que dizem os cientistas

Não foi possível verificar esses testes de forma independente e não se sabe o que está por trás deles. E é claro que os cientistas refutam que os governos estejam pulverizando produtos químicos na atmosfera do planeta.

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Image caption Em um estudo, 98,7% dos cientistas descartaram que rastros de fumaça de aviões sejam parte de um enredo sinistro

Em 2016, um estudo do Instituto de Ciência Carnegie e da Universidade da Califórnia Irvine consultou 77 cientistas dedicados a questões atmosféricas e geoquímicas. Todos, exceto um - isto é, 98,7% - disseram que não há existem provas de uma conspiração atrás dos rastros dos aviões.

Aquele que discordou constatou níveis excepcionalmente elevados de bário atmosférico em uma zona remota. Mas concluir por esse único resultado que produtos químicos estão sendo secretamente pulverizados requer um grande salto de fé.

"Nosso objetivo não é convencer aqueles que já acreditam que existe um programa secreto de pulverização em larga escala e que tendem a rejeitar qualquer evidência contrária às suas teorias", escreveram os autores do estudo da universidade.

"Queremos é estabelecer uma fonte científica objetiva que possa informar o público."

Mas aqueles que acreditam nas "chemtrails" não se deixam convencer.

"Há um longo histórico em todos os países de cientistas que acreditavam em coisas que mais tarde percebemos serem falsas", diz Russ. "É preciso ter alguém corajoso para ir contra a corrente".

"Se as pessoas concordam ou não é outra história. Mas para mim, está acontecendo."

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