O que está por trás do ‘beijo’ viral de Trump e Putin?

Painel em Vilnius Direito de imagem Getty Images
Image caption Fotos de painel com 'beijo' entre Putin e Trump se tornaram virais

Ele não está muito a fim de você. Essa parece ser a conclusão de quem observa este inesperado "beijo" entre Vladimir Putin e Donald Trump, imaginado por um grafiteiro de Vilna, capital da Lituânia.

Nas últimas semanas, as fotos de um muro pintado com o "contato íntimo" entre o presidente da Rússia e o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos se tornaram virais.

À primeira vista, o painel (instalado no muro dos fundos de um restaurante de Vilna) satiriza o lisonjeiro e curioso relacionamento surgido entre os dois políticos, depois que cada um deles fez uma série de elogios ao outro nos últimos meses.

Putin afirmou que Trump é "inteligente e cheio de talento", enquanto o americano respondeu que o russo "é um verdadeiro líder, diferentemente do que temos aqui (nos Estados Unidos)".

A pintura, criada pelo grafiteiro Mindaugas Bonanu, parece apimentar essa admiração recíproca, transformando-a em um momento de intensa intimidade física.

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'Calor e desconfiança'

Direito de imagem Getty Images
Image caption Em 1990, artista russo pinto sobre trecho do Muro de Berlim um beijo entre Brejnev e Honecker

Mas será que é isso mesmo?

Uma vez passado o susto de ver esses dois sobreviventes da Guerra Fria de lábios unidos, um olhar mais atento sobre o grafitti revela uma crítica política mais sutil.

Muitos especialistas em arte de rua e historiadores notaram as semelhanças entre o painel de Bonanu e a famosa imagem do artista russo Dmitri Vrubel, pintada em 1990 em um fragmento do Muro de Berlim, que mostrava o líder da Alemanha Oriental, Erich Honecker, beijando o premiê soviético Leonid Brejnev.

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Mas, enquanto a obra de Vrubel se baseia em uma fotografia autêntica de um cumprimento entre Brejnev e Honecker em 1979, o novo mural na Lituânia é uma fantasia subversiva que, de maneira inteligente, enfraquece a ternura fraterna capturada na imagem de Berlim.

Direito de imagem Wikimedia Commons
Image caption `O Beijo` de Brancusi (1912) pode ter sido inspiração para o grafitti em Vilnius

Diferentemente do beijo mais relaxado e convincente entre Brejnev e Honecker, o encontro entre Putin e Trup parece ser um gesto envolto em suspeita, já que os dois homens mantêm seus olhos bem abertos.

Afinal, independentemente de o quanto Putin e Trump trocaram elogios mutuamente, a verdadeira compatibilidade de seus temperamentos políticos ainda precisa ser comprovada.

Na realidade, as obras em Vilnius e em Berlim são tão divergentes que até nos perguntamos se não seria mais conveniente fazer uma analogia entre a pintura de Putin e Trump e a escultura cubista O Beijo, do artista romeno Constantin Brancusi, de 1912.

Unidas em um mesmo bloco, as duas figuras se beijam ambiguamente de olhos abertos, em um corpo-a-corpo primitivo e rígido, em que o calor e a desconfiança, e a adoração e a dúvida, são impossíveis de separar.

*Kelly Grovier é autora do livro 100 Works of Art That Will Define Our Age.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Culture.