Como demorar a chegar à TV fez bem a 'Game of Thrones'

Cena de "Game of Thrones" Direito de imagem HBO
Image caption Primeiro livro de "Game of Thrones" foi publicado em 1996

Em 1996, "Game of Thrones" já precisava enfrentar sua fama exacerbada.

O livro de George RR Martin, que inspirou a renomada série da HBO, foi lançado em agosto daquele ano. E já se falava em uma guerra pelos direitos de adaptá-lo para o cinema ou a TV.

Mas quase duas décadas se passariam antes que Game of Thrones saísse do papel.

De certa forma, foi algo positivo: se tivesse sido transformada em filmes nos anos 90, a história teria sofrido com restrições orçamentárias e sua história possivelmente seria diluída para evitar uma classificação muito severa pelas autoridades americanas, que poderiam tornar a obra imprópria para menores de 17 anos.

E naquela época a TV ainda não tinha ocupado o espaço preferencial que agora desfruta no que diz respeito à produção de conteúdo mais adulto e de orçamentos mais graúdos.

Uma situação ideal, apesar de Martin não conseguir mais acompanhar o ritmo imposto pela série - cuja sexta temporada acabou de ir ao ar.

Direito de imagem HBO
Image caption Série demorou 15 anos para ir ao ar

Martin começou a carreira de escritor em 1976, com a publicação de uma coleção de contos de fantasia - A Song for Lya and Other Stories. Foi bem recebida por crítica e público, mas não foi um sucesso comercial.

O americano então dedicou-se a escrever roteiros para a TV, trabalhando em episódios de Além da Imaginação e A Bela e a Fera.

Faz sentido, então, que sua volta aos livros tivesse uma influência para esse tipo de texto.

"Quando descrevo uma cena, vejo-a na minha cabeça da mesma maneira que um diretor enxerga uma tomada de cena", disse o escritor em uma entrevista de 2001.

"Eu consigo imaginar a luz, onde os personagens estão interagindo. Trabalhar com TV melhorou a maneira como escrevo diálogos."

Naquele momento, Martin já conversava com produtores interessados em Game of Thrones.

Quatro anos mais tarde, dois roteiristas - David Benioff e DB Weiss - leram os livros e decidiram adaptá-los. Mas para convencer o autor a dar-lhe os direitos, tiveram de responder corretamente à pergunta "Quem é a mãe de Jon Snow?".

O sucesso da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis também ajudou a tornar a adaptação possível.

Direito de imagem Alberto E. Rodriguez
Image caption Criador da série, George RR Martin (ao centro) corre contra o tempo para terminar livros

Naquela época, a TV americana estava em um período de transição: o sucesso de Os Sopranos, na mesma HBO, tinha alavancado a fórmula de material mais sofisticado e adulto da TV a cabo.

Também abriu espaço para uma era de TV serializada, em que cada show exigia atenção a cada capítulo para que as tramas fossem melhor entendidas.

Ainda assim, a HBO queria fazer uma série de fantasia drasticamente diferente do realismo de Os Sopranos.

No entanto, a emissora estava relutante em relação ao potencial, e o episódio-piloto de Game of Thrones teve que ser refilmado antes de, em 2011, finalmente estrear.

Mas os executivos de marketing da HBO logo perceberam que poderiam explorar o sucesso dos livros de Martin em fomentar uma espécie de culto online de sua obra - esses fãs poderiam ser embaixadores para um audiência mais ampla.

Desde o começo os fãs pularam no barco da série, reagindo em fóruns na internet e em mídias sociais ao anúncio de atores e afins.

Os produtores também afagaram a legião de seguidores ao permitir que o próprio Martin escrevesse alguns espisódios.

Em 2013, as contas de mídia social de Game of Thrones tinham 5,5 milhões pessoas registradas - e apenas um terço desses fãs estava nos EUA, onde a HBO está baseada.

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Image caption Fãs da série são conhecidos pela devoção

O crescimento da base de fãs criou pressão mundial para que Martin escrevesse o sexto do que agora se espera ser uma série de sete livros.

O início da sexta temporada, em 24 de abril, fez com que a TV esteja agora à frente das histórias originais. Martin ainda serve como consultor, mas deixou de fazer aparições públicas e de escrever roteiros para se dedicar somente aos livros.

Benioff e Weiss atribuem o sucesso de Game of Thrones à complexidade dos personagens. Mas qualquer que seja a resposta real, o fato é que a série recebe atenção mundial minuciosa: cada trailer é analisado minuto a minuto e a atração dominou o Emmy Awards de 2015, apesar de estar competindo com a última temporada de Mad Men, além de repetir o incrível desempenho em indicações para a edição deste ano.

Com grandes orçamentos, elenco de prestígio e uma audiência leal, Game of Thrones é praticamente impossível de imitar: o destino foi favorável à criação de Martin nos últimos 20 anos.

Espera-se apenas que não sejam necessárias outras duas décadas para que os livros finalmente sejam concluídos e Westeros possa enfim descansar.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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