O que esta imagem revela sobre os britânicos?

Theresa May em audiência particular com a rainha Elizabeth 2ª Direito de imagem Getty Images
Image caption Theresa May assumiu o cargo de premiê britânica em 13 de julho, após encontro com a rainha Elizabeth 2ª

Depois de semanas de tormentas atingindo o epicentro da política britânica, bastou uma única imagem para que uma certa calmaria voltasse a imperar no país: no Palácio de Buckingham, a nova primeira-ministra, Theresa May, ajoelha-se diante da rainha Elizabeth 2ª na primeira audiência particular entre as duas.

Apesar de ser facilmente considerado como nada mais do que o glamouroso retrato de uma formalidade tradicional no país, a foto da nova líder do Partido Conservador e da monarca que a convocou a formar o novo governo é, na realidade, um documento cultural fascinante.

Em uma primeira análise, a imagem reafirma que a democracia na Grã-Bretanha ainda está subordinada ao poder herdado, pelo menos simbolicamente.

Apesar de a foto ser temperada com sorrisos e roupas estilosas, ela transmite um silêncio sepulcral. Nada do que foi realmente discutido entre a rainha e May transparece.

A postura muda das duas mulheres - uma deferente e a outra, magnânima - lembra muito as figuras retratadas em um estranho monumento do século 16 na Igreja de Bacton, no condado de Herefordshire, no interior da Inglaterra: uma escultura que nos faz pensar como há tempos essa pantomima do poder tem sido secreta.

Lealdade e influência

Direito de imagem Herefordshire Churches
Image caption Escultura do século 16 mostra relação entre rainha Elizabeth 1ª e sua dama de companhia, Blanche

Assim como a foto divulgada na semana passada, a obra em mármore e alabastro mostra uma figura ajoelhando-se diante de um membro da realeza - neste caso, Blanche Parry faz a reverência à rainha Elizabeth 1ª.

Designada para ser a dama de companhia da futura monarca desde sua infância, Blanche viria a se tornar sua principal confidente.

Com o passar dos anos, Elizabeth transferiu a Blanche responsabilidades que iam além de suas funções de ama, dando a ela o controle total e exclusivo do guarda-roupa, das joias e dos livros reais.

Não demorou muito para Blanche se ver desfrutando, para uso privado, de empréstimos de terras da corte por toda a Grã-Bretanha, além de exercer uma influência profunda em assuntos de Estado.

O que garantiu a Blanche tantas prerrogativas? Terá sido sua perspicácia ou sua capacidade de julgamento? Sua formação ou sua inteligência?

O que Elizabeth 1ª mais valorizava era a lealdade de seus serviçais - o tipo de qualidade que uma pessoa demonstra não com sua mente, mas com seus joelhos.

Mas hoje a rainha tem muito menos atribuições políticas do que sua antecessora do século 16.

Por isso, a delicada reverência de Theresa May não reflete a obediência mostrada por Blanche Parry à sua soberana. Ao curvar-se, a nova primeira-ministra se prepara, na verdade, para alçar voo.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Culture.