As mulheres árabes que se negam a ser silenciadas

A cantora e compositora libanesa Yasmine Hamdan Direito de imagem Flavien Prioreau
Image caption A cantora e compositora libanesa Yasmine Hamdan

Quando um clipe da Arábia Saudita viralizou recentemente, com cantoras usando véus islâmicos e cantando frases como "que os homens desapareçam", aquela colorida performance foi elogiada como um "desafio aos estereótipos".

Mas não houve grandes mudanças: o clichê de mulheres árabes sem voz ativa persiste no senso comum, apesar de os sauditas não refletirem o mundo árabe como um todo.

Mulheres com opiniões fortes têm sido uma peça chave em diversas áreas da música árabe - da música popular ao pop comercial - em várias gerações e nações diferentes.

"Todas as mulheres árabes que cresci escutando ou assistindo tinham uma personalidade muito forte", diz a cantora e compositora libanesa Yasmine Hamdan.

Ela começou sua carreira na música à frente da primeira banda de punk eletrônico de Beirute, a Soapkills, no final dos anos 1990, e está prestes a lançar seu segundo álbum solo, Al Jamilat ("As Bonitas", em português).

"É normal, as mulheres árabes sempre foram muito ativas à frente da cultura - como produtoras de cinema desde os anos 1920 e como cantoras, dançarinas, coreógrafas, escritoras muito antes disso."

A figura mais icônica da música árabe continua sendo a cantora, atriz e compositora egípcia Umm Kulthum, conhecida como "a Estrela do Oriente". Nascida na família de um imã (líder religioso muçulmano) na virada do século 20, ela estudou música clássica durante a adolescência e estabeleceu sua marca como um talento vocal extraordinário na década de 1920.

Também estrelou vários filmes, incluindo Nashid Al Amal ("O Canto da Esperança"), de 1937, em que interpretou uma mãe solteira e divorciada trabalhando para sustentar sua filha.

A trilha sonora do filme incluia "A Canção da Universidade" com uma temática sobre determinação, solidariedade e fervor nacional. Ela apresentou a mulher como à frente da identidade nacional, ao lado do homem, cantando sobre política e questões românticas.

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Image caption A cantor egípcia Umm Kulthum é uma das figuras mais icônicas da música árabe

Umm Kulthum se mostrou uma mulher de negócios astuta além de uma artista bem-sucedida. Seu poderoso repertório e suas colaborações experientes abordaram desde sentimentos patrióticos até serenatas cheias de saudade.

Hamdan acredita que "a unidade do mundo árabe foi incorporada na voz de Umm Kulthum". Quando ela morreu, em 1975, já havia conquistado fama internacional. Como escreve a musicóloga Virginia Danielson na revista Harvard Magazine, "imagine uma cantora com a virtuosidade de Joan Sutherland ou Ella Fitzgerald, a personalidade pública de Eleanor Roosevelt e a audiência de Elvis, e você terá Umm Kulthum".

Muitas das estrelas pioneiras da música árabe estavam ligadas à "era de ouro" do cinema egípcio, que levou talento e glamour ao grande público. Nomes importantes incluem Leila Mourad, de uma família judia do Cairo, e Asmahan, que veio da nobreza drusa da Síria, e cujo impressionante alcance musical foi interrompido com sua morte em 1944, com apenas 31 anos.

As músicas de orquestra dessa época ainda fazem parte da cultura pop árabe e costumam aparecer em comerciais ou programas de reality show como Arab Idol. No entanto, o espírito dessas cantoras - suave porém forte, poético e político, aberto a vários estilos - certamente foi melhor incorporado por uma nova geração de artistas independentes.

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Image caption A atriz síria-egípcia e música Asmahan (nascida Amal al-Atrash), que morreu em um acidente de carro em 1944, com seu irmão Farid al-Atrash

Hamdan descreve a experiência de ouvir a música de Asmahan Ya Habibi Ta'ala ("Venha, meu querido") na madrugada em uma boate em Beirute como uma "epifania musical". "Era extremamente elegante, eloquente e emocional, sofisticado e ousado para sua época", lembra ela.

Nas produções eletrônicas de seu álbum solo de lançamento, Ya Nass ("Hey Pessoal"), de 2013, Hamdan homenageou Asmahan e Mourad assim como a lendária cantora e compositora Mohammed Abdel Wahab, por meio de covers e de um material original cheio de alma.

Encontrando uma voz

Em seu novo álbum, Hamdan foca principalmente em suas próprias músicas, escritas com a perspectiva de personagens mulheres. "Elas têm muitas contradições, eu gosto de mostrar meu apreço por imperfeições", ri. "Essas personagens são dominantes e frágeis, o que eu considero lindo."

Escolher cantar em árabe quando outras cantoras se inclinavam ao pop ocidental foi, de certa forma, um ato de rebeldia. "Eu senti que a língua árabe era um material bruto que poderia ser transformado com liberdade. Isso é algo empolgante para mim", disse ela ao jornal britânico The Guardian.

Julgamentos controversos sobre "respeitabilidade" no mundo árabe, desde códigos de vestimenta até letras, são outra fonte de rebeldia. "Bem, há muitos códigos na música árabe e não é fácil quebrá-los", diz Hamdan, que agora mora em Paris com seu marido (o diretor de cinema palestino Elia Suleiman) e continua a fazer turnês internacionais.

"Mas o conservadorismo não é apenas na religião, pode ser social ou intelectual, e há um tipo de tabu ao se tocar em músicas 'sagradas' antigas."

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Image caption Emel Mathlouthi é conhecida como "a voz da revolução da Tunísia" depois que Kelmti Horra ("Minha Palava é Livre") virou o hino da Primavera Árabe

A musicista Emel Mathlouthi, nascida na Tunísia, e cujo segundo álbum, Ensen (Humano), foi lançado recentemente, ecoa esse sentimento. "Temos muitas estrelas pop árabes, então isso não é um problema. Mas realmente penso que isso é mais difícil quando você tem seu projeto próprio", diz.

"No mundo árabe, há expectativas grandes sobre cantoras boas, o que eu realmente gosto, mas a grande mídia também tem uma abordagem muito tradicional e é difícil se livrar da imagem de 'diva estática'."

A chamada "voz da Revolução Tunisiana" é uma estrela dinâmica e politicamente consciente. Seu trabalho frequentemente aborda desigualdades e sua música Kelmti Horra ("Minha Palava é Livre") se tornou o hino da Primavera Árabe (2011), o que a levou a se apresentar no show do prêmio Nobel da Paz de 2015, que foi conferido a autoridades tunisianas comandando o governo de transição.

Mathlouthi cita várias influências, incluindo "os vocais fortes e as músicas profundas" da estrela libanesa Fairuz (que, como sua compatriota Sabah, havia conquistado palcos internacionais incluindo o Carnegie Hall em Nova York, o Royal Albert Hall de Londres e o Olympia de Paris), e a música de protesto e compositora egípcia Sheikh Imam.

Ela também é uma fã da cantora e compositora americana Joni Mitchell - no Dia Internacional da Mulher deste ano, Mathlouthi participou de um show celebrando o álbum Hejira, de Mitchell, no Southbank Centre, em Londres.

Mathlouthi queria que o álbum Ensen "refletisse os contrastes da sociedade árabe muçulmana". "Esse álbum tenta se conectar com sua tradição e como distribuir isso com um toque pessoal." Ela acredita que a escolha da linguagem por si só pode ser uma forma de se expressar.

"O que eu acho difícil agora é que quando uma mulher canta em árabe, a não ser que seja em um contexto exótico ou em uma festa, isso a bloqueia de participar da grande mídia. Talvez isso seja o caso para a maioria dos idiomas que não seja o inglês, mas quando eu canto na minha língua mãe, seja em dialeto ou fusha (árabe clássico), a música tem outra dimensão. Como árabes, é importante associarmos nossas vozes com a arte e expressões positivas."

Além da grande mídia

Ao sair da grande mídia, muitas artistas ganham mais autonomia - e alcançam o legado de artistas árabes fortes ao mesmo tempo. No Oriente Médio, muitas cenas alternativas oferecem uma contrapartida ao pop árabe.

Maryam Saleh, uma cantora e compositora do Cairo, diz que tanto homens quanto mulheres precisam batalhar muito nesse mundo independente, onde há pouca infraestrutura para discos e shows: aliás, comparado aos homens, ela diz que "de alguma forma você mantém um senso de empoderamento como uma artista mulher independente aqui".

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Image caption A cantora Maryam Saleh, do Cairo, canta música árabe com influências de trip hop e psych rock

Obviamente, vozes femininas nem sempre estão em sincronia. Para Saleh, Umm Kulthum representa um talento musical e empresarial que se alinha com a autoridade. "Sua voz, interpretação, escolhas e alianças se somaram para transformá-la em um ícone e uma instituição. No caso das artistas mulheres alternativas hoje, elas são verdadeiramente independentes, e compõem e produzem seu próprio trabalho, e Kamilya Jubran (cantora palestina) é um ótimo exemplo disso".

A música de Saleh, assim como a canção Toul El-Tarie (Em Todas as Estradas), é bela, poética e sombria e suas músicas combinam suas letras próprias com poesia árabe antiga e atual, incluindo a egípcia Mido Zoheir.

"Eu me atraio por textos que expressam despretensiosamente sentimentos que vivenciamos todos os dias, como enigmas, sátiras, mas que atingem acordes pessoais", diz ela.

Sarah El-Miniawy, fundadora da agência internacional de gerenciamento musical e relações públicas Simsara, diz que "música árabe alternativa, ou qualquer música que não seja em inglês, raramente vai para a grande mídia. Quando vai, o foco vai para a política da região e isso acontece com ambos os gêneros".

"Não dá para negar que o cenário é mais difícil para artistas árabes independentes e então naturalmente você usa mais o pouco que você tem. Se vamos falar que ser oprimido o inspira e o torna mais determinado, estaremos romantizando uma realidade dura. Músicos independentes no mundo árabe vão atrás de sua vocação assim como qualquer outro músico em outros lugares e eles se adaptam ao estilo de vida necessário."

Tanto El-Miniawy e Saleh concordam que, na era digital, essas formas variadas de música e arte são desenvolvidas o mais rápido possível. E é nesse espaço sem limites que mais pontos de conexão são estabelecidos no mundo árabe, entre estilos e gerações, com vozes femininas confrontando a realidade, misturando-a com fantasia e continuando a ressoar.

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