Conheça Elsa, a leoa que fez história e virou estrela de cinema

A leoa Elsa Direito de imagem Keystone Pictures USA / Alamy Stock Photo
Image caption Elsa foi criada por humanos

Durante alguns anos na década de 60, a leoa Elsa foi o mais famoso animal do mundo.

Criada por humanos após a morte de sua mãe, ela foi mais tarde devolvida à natureza. A vida da felina virou filme e inspirou milhares de pessoas a se engajarem na causa da preservação da vida selvagem.

Elsa vivia no Parque Nacional de Meru, no Quênia. Na época, o local era um paraíso ecológico e lar para milhares de grandes animais, incluindo muitos leões. Nos anos após a morte Elsa, porém, a caça clandestina tomou conta do parque e a vida selvagem foi praticamente extinta. Apenas recentemente ela começou a se recuperar.

Meru ficou famoso por causa de Elsa. Mais precisamente por causa do livro Born Free, de Joy Adamson, que contou a história real de como criou uma leoa órfã. Em 1956, o marido de Joy, George Adamson, que era supervisor de um parque nacional, matara a mãe de Elsa quando ela o atacara. Foi apenas mais tarde que o homem descobriu que a leoa apenas tentava defender seus filhotes. Sendo assim, os Adamson decidiram criar os filhotes.

Dois deles foram enviados a zoológicos, mas o casal ficou com Elsa e a criou como animal doméstico, até liberá-la de novo em Meru. Teve três filhotes, mas em 1961 morreu de uma doença causada por um carrapato.

A história dela teve papel fundamental em promover os esforços de preservação de leões, além de transformar Meru em um local importante. Dezenas de milhares de turistas anualmente visitavam o parque para ver a diversidade da fauna.

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Image caption O Parque Nacional de Meru

Born Free virou filme em 1966, e os atores que interpretaram o casal Adamson - Virginia McKenna e Bill Travers, que também eram casados na vida real - ficaram tão impressionados com a história de Elsa que criaram sua própria fundação conservacionista.

Isso ajudou a popularizar Elsa ainda mais, e durante anos, seu túmulo no parque foi um ponto de peregrinação. Hoje, porém, as visitas quase não ocorrem.

O declínio de Meru está associado a sua posição geográfica. O parque é situado em um área problemática do Quênia, próximo à Somália e à Etiópia. Entre 1963 e 1967, a região foi palco da Guerra de Shifta, em que quenianos de origem somali tentaram a independência. Um cessar-fogo foi obtido, mas o nordeste queniano permaneceu volátil, especialmente por causa de conflitos étnicos em países vizinhos. Milícias invariavelmente vagavam pela área do parque.

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Image caption Os Adamson foram vítimas do "faroeste" que o parque se tornou

E os guardas-florestais, armados com escopetas rudimentares, pouco podiam fazer. A caça ilegal era um fonte tentadora de renda para os guerrilheiros e para a população pobre da região, ainda mais em uma época de demanda crescente na Ásia por marfim. Isso resultou no extermínio local de elefantes e rinocerontes.

"Tínhamos tantos elefantes no parque que jamais imaginávamos um dia vê-los ameaçados de extinção", explica Tuqa Jirmo, guarda-chefe de Meru.

Na década de 70, o parque era um verdadeiro playground para caçadores, uma terra sem lei. A infraestrutura do parque estava destruída, especialmente as estradas. A população de elefantes caiu de 3 mil para algumas centenas e os rinocerontes praticamente sumiram. Centenas de leões foram dizimados.

As autoridades quenianas não tinham verba nem competência para impedir o massacre. Grande parte do problema também se deveu ao fato de que os guardas-florestais estavam relutantes em colocar suas vidas em risco. Ainda mais com baixos salários. Os que ousavam enfrentar os caçadores ilegais muitas vezes eram mortos.

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Image caption Animais, como elefantes, foram dizimados pela caça ilegal

"Os caçadores tinham livre trânsito e ficaram abusados. Uma vez, os bandidos anunciaram que vinham matar cinco rinocerontes. Vieram e o fizeram. Ninguém fez nada", explica Tim Oloo, da Fundação Born Free, a ONG fundada por McKenna e Travers. Joy Adamson foi assassinada por sua oposição à caça.

Em 1989, dois turistas franceses foram mortos no parque e George Adamson assassinado em uma reserva vizinha. Meru fechou as portas. Nos anos seguintes, porém, o governo queniano criou o Departamento Nacional da Vida Selvagem e iniciou um processo de recuperação.

Com a ajuda de um fundo de US$ 1,25 milhão, os administradores de Meru compraram mais de 1.300 animais de outros parques, incluindo girafas, leopardos, elefantes e rinocerontes.

Estradas foram recuperadas e albergues construídos para visitantes. E os guardas-florestais ganharam melhores salários e treinamento, bem como equipamento mais robusto para enfrentar caçadores ilegais. Gradualmente, a batalha contra os bandidos mudou de dinâmica.

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Image caption Apenas 80 leões hoje vivem em Meru

A caça ilegal ainda é uma ameaça, mas os animais deixaram de ser massacrados. Um santuário de rinocerontes, por exemplo, conta com 60 animais, monitorados 24 horas por dia. Em 2014, dois caçadores tentaram matar um rinoceronte branco. Acabaram abatidos a tiros pela segurança.

O parque é novamente lar de muitos grandes animais, bem como de 400 espécies de pássaros. Mas Elsa não reconheceria o local se estivesse viva: praticamente não há leões, em comparação com outros bichos.

O último censo revelou a presença de apenas 80 espécimes. É um reflexo de um problema nacional: estima-se que, atualmente, haja apenas 2 mil leões no país inteiro, em comparação com os 100 mil que viviam no Quênia na época de Elsa. Mas ainda há esperança de recuperação.

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Image caption O túmulo de Elsa hoje praticamente não é visitado

Para isso, Meru precisa enfrentar o desafio de se relacionar bem com as populações vizinhas. Tantos com as que deixam armadilhas para pegar animais em busca de sua carne, quantos as que se irritam com animais invadindo plantações ou atacando rebanhos. E, para uma população majoritariamente pobre, um parque nacional é visto como um luxo.

"Muitas pessoas não têm a conservação como prioridade e tampouco veem que benefício o parque traz para suas vidas", explica Victor Mutumah, da Fundação Born Free.

Por isso, Meru nos últimos anos criou programas comunitários nas áreas de educação, saúde e infraestrutura. Crianças carentes recebem passeios de graça. Isso ajudou a criar uma rede de denúncias contra irregularidades.

Hoje, o parque recebe apenas 3 mil turistas por ano, mas o programa de reformas tem como objetivo fazer com que, em breve, o túmulo de Elsa volte a ser uma atração. E que uma nova geração de leões caminhe por Meru.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Earth.

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