Paraolímpicos revelam histórias de guerras, doenças e violência ao redor do mundo

Atualizado em  31 de agosto, 2012 - 06:00 (Brasília) 09:00 GMT

Para-athletes disabilities reveal issues of countries

  • Foto: CPB
    A tenista pernambucana Natália Mayara, de 18 anos, teve uma adaptação diferente à deficiência física. Ela perdeu as duas pernas ao ser atropelada, na calçada, por um ônibus coletivo, aos dois anos. "Para mim foi mais fácil, porque eu já aprendi a andar de prótese e cadeira, nunca tive a experiência de andar", disse à BBC Brasil. Aos 12 anos, virou tenista de cadeira de rodas. Ela será a primeira mulher brasileira na modalidade em uma Paraolimpíada. Ela diz que a falta de acessibilidade do transporte público foi um obstáculo a mais em sua carreira.
  • Foto: CPB
    Boa parte dos paratletas brasileiros em Londres 2012 foi vítima de acidentes de trânsito. Em 2000, a costureira Cláudia Santos atravessava a rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, ao sair do trabalho, quando foi atropelada. Ela perdeu a perna direita imediatamente. Hoje, aos 35 anos, é campeã mundial de remo e está disputando sua segunda Paraolimpíada. "Um médico indicou que eu fizesse esportes, porque na época eu sentia muitas dores. Comecei com a natação. Até então eu não conhecia atletas paraolímpicos.", disse à BBC Brasil.
  • Foto: PA
    O remador Nick Beighton é um dos seis veteranos da guerra do Afeganistão que estão na equipe britânica nos Jogos. Ele perdeu ambas as pernas ao pisar em um explosivo improvisado feito por militantes talebãs em Helmand. "Todo mundo tem a sua maneira de lidar com a recuperação, mas para mim, o esporte foi vital", disse à BBC o remador de 30 anos. (Foto: PA)
  • Foto: Emma Lynch
    Foi o investimento financeiro direto da primeira-dama da Geórgia, Sandra Roelofs, que fez com que Nika Tvauri pudesse ir à sua primeira competição internacional de natação, em 2011. Ele perdeu a visão e 90% da mão direita aos 16 anos, quando pegou nas mãos uma antiga mina, que encontrou perto de sua casa, no subúrbio de Tiblisi. "Tentei fazer uma universidade, mas como não conseguia seguir linhas retas com a mão esquerda, não conseguia ler braille, e acabei desistindo." Ele diz que a natação é o esporte ideal para praticar por causa das raias da piscina, marcadas de modo a dar apoio aos para-atletas que são deficientes visuais.
  • Foto: Emma Lynch
    Ao contrário dos veteranos britânicos, os cinco soldados que fazem parte da equipe de atletismo do Sri Lanka reclamam de falta de incentivo financeiro para participar de competições internacionais, apesar dos bons resultados. "Eu tenho que comprar todo o equipamento, roupas, sapatos e tudo o mais do meu salário", afirma o corredor UDP Pradeep Sanjaya, quinto melhor do mundo nos 400m de atletas com deficiências de coordenação e controle muscular.
  • Foto: Emma Lynch
    O conflito entre as forças do governo e os Tigres Tâmeis, que oficialmente durou 26 anos, deixou cerca de 70 mil mortos, segundo dados oficiais. "O único equipamento que eu tenho para treinar é minha bengala", disse à BBC saltador PA Lal Pushpakumara, quarto melhor atleta paraolímpico do mundo nos 200m. Ele perdeu a perna esquerda em 2008, ao ser atingido pela explosão de uma mina terrestre plantada pelo grupo separatista Tigres da Liberação do Tamil Eelam.
  • Foto: BBC
    A violência urbana na Colômbia fez pelo menos quarto vítimas no time paraolímpico de basquete de cadeira de rodas, que se classificou pela primeira vez na história para os Jogos. Freddy Rodríguez foi atingido por uma bala perdida na coluna aos 8 anos de idade, quando vivia na cidade de Florença, em Caquetá, na Amazônia colombiana.
  • Foto: BBC
    William Pulido, de 34 anos, ficou paraplégico aos 15 anos ao ser baleado em uma briga na rua, em Bogotá. Como no caso da maioria de seus colegas, ele passou a jogar basquete em cadeira de rodas durante o processo de reabilitação, como atividade terapêutica. "O esporte é o eixo fundamental de toda a minha vida. Graças a ele me reabilitei, estudei e segui adiante", disse Pulido à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
  • Foto: Emma Lynch
    Dominique Bizimana, de Ruanda, acumula as funções de jogador do time de vôlei sentado e presidente do comitê paraolímpico do país desde 2004. Aos 16 anos, Bizimana foi recrutado como soldado da FPR (Frente Patriótica de Ruanda) e perdeu a perna esquerda durante a guerra civil no país, que deixou pelo menos 800 mil mortos em três anos. "Depois que perdi a perna, eu consegui voltar para a escola. Terminei o ensino secundário com 21 anos e entrei na universidade", contou à BBC Brasil.
  • Foto: Emma Lynch
    O atleta conta que os para-atletas do país não tinham apoio oficial até 2004. Antes disso, eles dependiam das ONGs que atuam no país com vítimas do conflito. Depois da participação de um atleta ruandense em Sydney 2000, o comitê conseguiu classificar mais atletas nas olimpíadas seguintes. Em Londres, a delegação paraolímpica de Ruanda tem 14 atletas em três esportes.
  • Foto: AFP
    O atleta paquistanês Mudassar Baig teve a perna direita diminuída em relação à esquerda por causa da poliomielite, que adquiriu quando criança. Aos 33 anos, é um dos quatro atletas do país a participar dos Jogos, competindo nos 200m e 400m. "Eu sempre quis correr como os outros garotos, mas minha deficiência não permitia. Eu prometi a mim mesmo que um dia eu correria e venceria e esse dia chegará em Londres", afirmou ao jornal "Pakistan Today", durante a preparação para os Jogos Paraolímpicos. A doença, erradicada no Brasil há cerca de dez anos, permanece como um dos principais problemas no Paquistão. (Foto: AFP)

Jogos Paraolímpicos de Londres 2012

Nas delegações dos 166 países que competem nos Jogos Paraolímpicos de Londres 2012, portadores de deficiência desde o nascimento dividem espaço com vítimas de guerras, de acidentes, de doença e de violência que evidenciam problemas geopolíticos e de saúde pública de seus países.

A violência direta e indireta não chega a estar entre as dez principais causas de deficiência em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No entanto, o número de pessoas que estiveram nestas situações presente nos Jogos sugere que os programas de reabilitação seriam grandes responsáveis pela "descoberta" de para-atletas.

"Ainda existe uma grande quantidade de programas internacionais de ajuda humanitária que fazem intervenções em certos países, destinadas especificamente a pessoas que são vítimas de conflitos ou situações violentas. É provavelmente por isso que eles estão tão presentes na Paraolimpíada", disse à BBC Brasil Alana Officer, coordenadora do setor de deficiência física e reabilitação da OMS.

Officer diz que o cenário da ajuda humanitária mundial está mudando para contemplar programas mais abrangentes. No entanto, ainda prevalecem as organizações que se dedicam à reabilitação de vítimas de conflitos e usam o esporte como estímulo.

Financiamento de ONGs

Segundo o chefe dos programas de reabilitação física do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Claude Tardif, a prática do esporte por portadores de deficiência é estimulada e muitas vezes financiada pelas ONGs internacionais.

"Esporte é uma parte importante dos programas de reabilitação. Em diversos países nós ajudamos na construção de quadras e espaços de prática de esportes, na compra de equipamentos e na contratação de técnicos para treinar os times", disse à BBC Brasil.

"Em alguns países já há alguma organização neste sentido e tentamos ajudar, mas em outros nós mesmos começamos o processo, porque eles nos pedem para estruturar programas."

No último mês de junho, o Comitê da Cruz Vermelha realizou o primeiro torneio de basquete em cadeira de rodas com vítimas da guerra no Afeganistão.

"É um bom modo também de melhorar a capacidade física e aumentar a autoestima das pessoas com deficiência. E de mostrar às pessoas sem deficiências que as deficientes podem fazer as coisas, não precisam ficar à margem da sociedade", afirmou.

Conheça as histórias de alguns destes atletas.

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.