Mesmo decepcionados, imigrantes apostam em Obama

Atualizado em  31 de outubro, 2012 - 06:39 (Brasília) 08:39 GMT

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Eles esperam que, se reeleito, democrata os beneficie com legalização.

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Estudante universitária Alejandra

Imigrantes ilegais nos Estados Unidos sabem que caminham sobre a corda-bamba sempre que falam sobre a política de Barack Obama para imigração.

Às vésperas das eleições presidenciais, mesmo sem poder votar, muitos querem ver o presidente reeleito. Mas em vez de entusiasmo, cautela:

"Não vivemos de promessas. De fatos é que vamos viver", disse à BBC Brasil a vendedora ambulante Delmy del Carmen, que luta contra a deportação, após ser presa vendendo refrigerantes sem licença, no centro de Los Angeles.

"Sonhamos com ter os papeis e ser cidadãos. Mas dependemos do governo. Dizer é fácil, quero ver é fazer", acrescenta.

O presidente chega ao fim de seu primeiro mandato com o que ativistas pró-direitos dos imigrantes chamam de "resultado ambíguo" na área.

Por um lado, o governo Obama bateu recorde ao deportar 1,5 milhão de imigrantes nos últimos quatro anos – a maioria pessoas consideradas de "baixo risco", como Carmen.

Por outro lado, Obama decidiu, recentemente, contornar dez anos de impasse no Congresso e dar a jovens que cresceram ilegalmente nos Estados Unidos uma chance de sair das sombras, e se sentirem americanos pela primeira vez na vida.

Iluminando as sombras

As medidas não são necessariamente contraditórias, e afetam por vezes as mesmas famílias de imigrantes.

A legalização de estudantes se dá através do chamado "diferimento de ações de deportações" (Daca, pela sigla em inglês), estabelecido por ordem executiva do presidente em junho.

Delmy del Carmen / Pablo Uchoa, BBC Brasil

Imigrante ilegal, Delmy del Carmen está lutando contra deportação

Jovens que cumprirem certos requisitos, como ter chegado aos EUA com menos de 16 anos, vivido e estudado no país nos últimos cinco anos, e não ter cometido qualquer violação grave, podem se candidatar a um visto de trabalho de dois anos, renovável.

"Embora não seja uma solução permanente, diante da incerteza de ser indocumentado, passar dois anos podendo trabalhar, viajar, andar e existir sem medo... você pode imaginar o quanto isso levantou o moral dessas famílias", disse à BBC Brasil o ativista Christian Ramirez, da organização Alliance San Diego.

No entanto, a legalização não significa que os jovens afastarão de suas vidas o fantasma das deportações, porque seus pais, e muitas vezes até irmãos e irmãs, continuariam ilegais.

Cursando estudos étnicos e de gênero em San Diego, Alejandra, 22, é uma das que se qualificam para a legalização sob as regras do programa. Ela veio do México com a mãe aos 9 anos e se considera "privilegiada" por poder estudar e ter a perspectiva da legalidade.

"Nossos pais ficam bem se apenas os filhos conseguirem (a legalização). Qualquer pai e mãe ficam bem se os filhos estiverem bem", diz Alejandra.

Como muitos outros jovens que carregam, sozinhos, a responsabilidade de ser, às vezes, o único cidadão legalizado da família, ela explica que a legalização trará um "alívio" do ponto de vista financeiro, porque lhe permitirá se candidatar a empregos mais bem pagos para ajudar no orçamento familiar.

"Mas acho que é uma questão de humanizar o tema. O que vai acontecer com eles?", questiona-se ela.

Fantasma da deportação

Um livro publicado recentemente por especialistas da universidade de Harvard, Children of Immigrants (‘Filhos de Imigrantes’), concluiu que não há diferença marcante entre as famílias nas quais apenas os filhos são legalizados e aquelas em que todos os membros são ilegais.

Um dos autores do livro, o professor Marcelo Suárez-Orozco, disse à BBC Brasil que a legalização não dissipa o "medo" da deportação entre as famílias – o que contribui para que elas continuem sem gozar de acesso a serviços e benefícios que de outro modo buscariam.

Segundo o estudo, um em cada cinco jovens abaixo dos 18 anos de idade nos EUA – um total de 14 milhões de pessoas – é imigrante ou filho de pais imigrantes.

"É por isso que dizemos que o diferimento das deportações não é uma solução, é um alívio", afirma Ramirez.

"O medo das deportações ainda é uma realidade, assim como todas as suas consequências: a destruição das famílias, da estabilidade econômica das famílias e de comunidades inteiras."

Solução

A situação ilustra a complexidade do problema – que, especialistas tanto da direita quanto da esquerda americana concordam, só poderia ser resolvido com uma reforma ampla do sistema de imigração do país.

Entretanto, as convergências param por aí.

Por dez anos, o Congresso esteve debatendo o chamado Dream Act, lei que abriria um caminho – longo – para a cidadania de estudantes que em linhas gerais cumprem os mesmos requisitos que o programa de diferimento de deportações.

A lei nunca foi aprovada, por obstrução do Partido Republicano.

Estima-se que, enquanto o Daca pode beneficiar 1,7 milhão de imigrantes, outros mais de 10 milhões continuariam sem ser contemplados por qualquer medida.

É um legado para Obama que famílias de imigrantes consideram uma decepção, mas que preferem, diante da possibilidade de ter um presidente republicano que declarou, no passado, sua intenção de endurecer as leis de imigração a fim de forçar imigrantes ilegais a se "autodeportar" do país.

O marido de Carmen, José Aguilar, é um dos que ainda enxergam o histórico de Obama com esperança.

"Já deram a legalização para os estudantes. Esperamos que agora ela venha para os tantos milhões de pessoas que somos indocumentados. A esperança é a última que morre", diz.

"Vamos confiar de novo no presidente, para ver se faz a 'luchita' e cumpre o que prometeu fazer", acrescenta.

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