Fotógrafo retrata seca em jornada de 2 mil km pela Bahia

Atualizado em  9 de janeiro, 2013 - 09:31 (Brasília) 11:31 GMT

Seca no Nordeste

  • Raimundo, sertanejo afetado pela seca tocando seu gado no sertão em Iaçu. Foto: Flavio Forner
    O fotógrafo Flavio Forner esteve entre 2 e 19 de dezembro viajando pelo sertão da Bahia, documentando o drama humano da seca e o seu impacto na economia e na paisagem da região.
  • Forner percorreu cerca de 2 mil quilômetros e visitou municípios que estão entre os mais afetados pela estiagem prolongada, considerada a pior em quatro décadas.
  • Foto: Flavio Forner
    Gado em Vera Cruz. O pouco pasto que resiste à seca é disputado pelos mais fortes, e os mais fracos acabam morrendo.
  • Foto: Flavio Forner
    Cachorro morto em um sítio na região de Ipirá, onde alguns agricultores deixam seus sítios fechados e outros os colocam à venda devido à seca.
  • Foto: Flavio Forner
    O guia Raimundo Cruz dos Santos caminha pelo leito de um rio seco em um distrito de Andaraí. "Já vi este rio cheio de margem a margem nesta mesma época do ano, este mês era para chover toda semana. As cachoeiras estão completamente secas", disse.
  • Foto: Flavio Forner
    Cemitério de ossos em sítio próximo a Amargosa. "É o melhor jeito de evitar doenças e manter o restante do rebanho bem", disse o sertanejo Raimundo.
  • Foto: Flavio Forner
    Rafael e Rodrigo, filhos do agricultor Vander da Silva. "Eu costumo usar água do poço apenas para beber, não tem mais como irrigar a roça, agora o que restou é só para matar a sede", disse Silva.
  • Foto: Flavio Forner
    Propriedade entre Iaçu e Amargosa. Muitas famílias deixam suas terras para buscar recursos em outros municípios.
  • Foto: Flavio Forner
    Em Iaçu, o uso de água salobra tem provocado cálculo renal e hipertensão nas pessoas que não possuem outra fonte potável. Neste período de seca, outro problema é o consumo de água contaminada com fezes de animais, que provoca diarreia.
  • Foto: Flavio Forner
    Agricultor veste grossas camadas de roupa, apesar do calor, para se proteger do forte sol da região de Andaraí.
  • Foto: Flavio Forner
    Moradia fechada próximo ao município de Andaraí, fortemente afetado pela seca no sertão baiano.
  • Foto: Flavio Forner
    Este reservatório de água está praticamente seco, e o pouco que resta não é suficiente para o gado em propriedades próximas a Andaraí.
  • Foto: Flavio Forner
    Carcaça de gado em sítio atingido pela seca em Iaçu.

O drama da seca

A chuva registrada na Bahia no final de dezembro não foi suficiente para reverter os estragos da que é considerada a pior estiagem a atingir o semiárido no interior do Estado nas últimas quatro décadas.

De acordo com a Coordenadoria da Defesa Civil do Estado, 259 municípios baianos permanecem em situação de emergência devido à seca, que afeta nessas localidades quase 3 milhões de pessoas.

O prejuízo à economia ainda pode chegar a R$ 7,8 bilhões, segundo estimativa da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb).

A falta d'água está prejudicando as pequenas lavouras de subsistência e castigam os rebanhos bovinos, caprinos e ovinos.

O fotógrafo Flavio Forner esteve entre 2 e 19 de dezembro viajando pela região, percorrendo cerca de 2 mil quilômetros e visitando alguns municípios entre os mais afetados pela estiagem prolongada.

Suas fotos documentam o drama humano da seca e o seu impacto na economia e na paisagem da região.

Crianças

A viagem de Forner começou em Salvador. Da capital baiana, o fotógrafo seguiu até Valença, cidade procurada por muitos sertanejos em buscam uma oportunidade de renda com o turismo, e Camamu, outro polo de atração de moradores do interior à procura de trabalho e alimentos.

A seguir, na jornada do município de Mutuípe a Iaçu, passando por Amargosa, os sinais mais evidentes da seca começaram a aparecer, com o gado sendo tocado pelas estradas por pastores em busca das poucas áreas ainda disponíveis com vegetação.

Em Iaçu, Forner encontrou Constantino, de 92 anos, que conduzia por 12 km, à beira da rodovia, o gado de um vizinho. Em troca do trabalho, o vizinho lhe prometeu apenas um pouco de leite.

Na mesma região, o fotógrafo encontrou outro sertanejo, Raimundo, que tocava o gado do alto de seu cavalo. "O que cai do céu não enche nem um copo d'água", reclamou.

Em Amargosa, alguns pais optam por mandar seus filhos para a beira da estrada para pedir dinheiro aos motoristas que passam. As crianças correm risco constante de atropelamento e de assédio por parte dos caminhoneiros.

Turismo

A viagem prosseguiu pelas cidades de Itaberaba, Boa Vista do Tupim e Vera Cruz até Lençóis, na Chapada Diamantina, onde muitos agricultores ainda utilizam manejo com fogo sem os cuidados necessários e acabam perdendo o controle, com grande impacto no meio ambiente.

Em Boa Vista do Tupim, o agricultor Vander da Silva e seus filhos Rodrigo e Rafael tentam sobreviver com o pouco de água que restou em um poço.

"Eu costumo usar água do poço apenas para beber, não tem como irrigar a roça, agora o que restou é só para matar a sede", disse Silva.

A seguir, o fotógrafo seguiu para Andaraí. Em Igatu, um distrito da cidade, o turismo de aventura sofre com a falta d'água em suas cachoeiras. Na praça central, guias turísticos locais ficam a espera dos turistas, geralmente estrangeiros.

O guia Raimundo Cruz dos Santos disse que há muitos anos não vê uma situação como esta.

"Já vi este rio (Paraguaçu) cheio de margem a margem nesta época do ano. Este mês (dezembro de 2012) era para chover toda a semana. As cachoeiras estão completamente secas", contou. "Nunca vi fazer tanto calor aqui como neste ano de 2012."

Forner então seguiu por Mundo Novo e Baixa Grande até Ipirá, onde muitos agricultores, cansados da seca e sem perspectiva de futuro, estão colocando suas propriedades à venda, optando pela vida em cidades litorâneas.

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